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05 março 2013
Afonso de Melo in O Benfica
A camisola do ridículo
"Ser árbitro em Portugal é bom. É mais do que bom, é óptimo. Ser árbitro em Portugal também roça, na maior parte das vezes, o ridículo. Mas aí a culpa não é do País, é dos árbitros. Os árbitros em Portugal estão acima da lei. Isto é, não têm de prestar contas a quem quer que seja pelas poucas vergonhas que cometem. Ou melhor, prestam contas a si próprios o que vai dar no mesmo. Há países em que os árbitros vêm a público falar dos seus erros. São países onde não fica bem a um árbitro visitar um presidente de clube na véspera de arbitrar um jogo desse mesmo clube. São países onde não fica bem a um árbitro frequentar as casas dos presidentes ou dirigentes de clubes e ponto final. Em Portugal os árbitros não têm vergonha. Não têm vergonha de, em pleno relvado, tirarem as insígnias da FIFA para oferecerem ao treinador de uma das equipas que acabaram de dirigir.
O recato não é palavra importante. Pelo contrário, é o exibicionismo que lhes marca a existência. Em qualquer país civilizado, um árbitro teria vergonha de beijar os pescoços dos jogadores no final dos jogos. É uma questão de decoro. Em Portugal, o mais barato dos árbitros faz gala em abraçar jogadores (sempre os da mesma equipa) e ser fotografado com eles exibindo sorrisos macabros. É uma questão de decência. Neste caso, de falta dela. Poderíamos ter visto tudo, mas não. Em Portugal, os árbitros fazem sempre questão de nos surpreender. Por isso até já vimos um árbitro tirar a camisola no final de um jogo e, como se fosse um jogador, oferecê-la ao público. É por isso que ser árbitro em Portugal é bom. Mas mete nojo."
22 fevereiro 2013
Afonso de Melo in O Benfica
Nunca houve um "Caso Calabote"
Dia 22 de Março de 1959 – última jornada do Campeonato Nacional. Teimam alguns, de escassa honestidade intelectual, em falar de um fantasioso "Caso Calabote".
Aceitemos o repto porque a mentira espalhou-se como um cancro, aproveitada por aqueles que têm tanta porcaria a esconder sob o diáfano véu da sua fantasia.
Nunca houve um "Caso Calabote"; houve, isso sim, um "Caso Guiomar"!
As mentiras destroçam-se com factos. E os mentirosos viajam com elas para as sarjetas sujas da cidade.
Facto – O Benfica comandou largamente o Campeonato de 1958/59.
Facto – Ao entrar para última jornada o FC Porto gozava de vantagem perante o Benfica apenas na diferença entre golos marcados e sofridos: FC Porto (78-22); Benfica (71-19).
Facto – Supondo-se que o FC Porto ganharia o seu último jogo (em Torres Vedras, frente ao Torreense) por 1-0 o Benfica ficaria obrigado a ganhar em casa à CUF pelo menos por seis golos de diferença.
Factos – Tanto CUF como Torreense estavam nos últimos lugares da tabela – o Torreense concluiria mesmo o Campeonato na última posição, descendo de Divisão; a CUF ficaria no 4.º lugar a contar do fim.
Facto – Tanto FC Porto como Benfica eram claros favoritos nos seus jogos.
Factos – O árbitro do Benfica-CUF foi Inocêncio Calabote; o do Torreense-FC Porto foi Francisco Guiomar.
Facto – A equipa do Benfica entrou em campo com cerca de cinco minutos de atraso em relação ao FC Porto em Torres Vedras.
Facto – Aos 14 minutos de jogo já o Benfica vencia, por 1-0, golo de Águas, de grande penalidade, considerada absolutamente indiscutível por Alfredo Farinha, o cronista de "A Bola".
Facto – Mais golos se seguiram: aos 26 minutos, de novo Águas de penálti a fazer o 2-0 – "penalidade algo forçada" segundo a opinião do mesmo Alfredo Farinha. O 3-0 surgiu aos 35 minutos, por Mendes, a passe de Águas.
Facto – Aos 14 minutos de jogo no Campo das Covas, António Manuel e Noé saltam a uma bola e o jogador do Torreense é obrigado a sair do relvado. A equipa de Torres Vedras joga largos minutos reduzida a dez elementos.
Facto – Aos 24 minutos, na sequência de um canto de Hernâni Perdigão faz o 1-0 para o FC Porto.
Facto – Dois minutos mais tarde António Manuel regressa de cabeça ligada. Assistira ao golo do FC Porto fora do campo, queixando-se com dores.
Facto – Alfredo Farinha considerou de lastimar as atitudes de exacerbada hostilidade dos jogadores da CUF.
Factos – Quando chega o intervalo, num campo e noutro, o nervosismo mantém-se. O FC Porto continua em vantagem e, enquanto no Estádio da Luz os cufistas tudo faziam para queimar tempo, segundo Alfredo Farinha; no Campo das Covas, Aurélio Márcio, outros dos "monstros" de "A Bola" criticava a falta de qualidade da exibição portista.
Calabote???? Reparem antes em Guiomar...
Facto – Três minutos após o intervalo, Chino, com um remate de longe, marca um golo de classe e põe o Benfica a ganhar, por 4-0.
Facto – Aos 56 minutos, Quaresma, com uma cabeçada vigorosa, faz o golo da CUF e torna tudo mais complicado para o Benfica.
Facto – Aos 58 minutos, Cavém entra na área e é rasteirado. Penálti claro, segundo o cronista, que Águas converteu.
Facto – Escutam-se pelos transistores notícias de um estádio e de outro.
Facto – Aos 64 minutos, em Torres Vedras, Francisco Guiomar expulsou Manuel Carlos por carga sobre Carlos Duarte. Com António Manuel em esforço, o Torreense quebra no seu entusiasmo.
Facto – Na Luz o Benfica corre desesperadamente à procura de mais golos. Os jogadores da CUF continuam a exagerar nas quedas e nas perdas de tempo. Aos 65 minutos, Águas, num remate estupendo, faz o 6-1. O impossível parecia à beira de acontecer.
Facto – Apesar de jogar contra 10, o FC Porto não assume a sua nítida superioridade. O Torreense defende-se de forma galharda e mantém a sua baliza a salvo. Os adeptos portistas começam a sentir que podem perder o título que já consideravam ganho.
Facto – Aos 83 minutos, Mendes faz o 7-1 na conversão de um livre directo. O Benfica está na frente, mas ainda há muito para jogar.
Facto – O tempo escoa-se com rapidez. O Benfica cumpriu o seu trabalho, está na frente do Campeonato, o FC Porto luta contra o destino. O Torreense, com menos um jogador em campo, fraqueja.
Facto – A dois minutos do fim do jogo em Torres Vedras, um livre apontado por Hernâni dá o golo a Noé. Saldanha procura atrasar o recomeço do encontro: Francisco Guiomar dá-lhe ordem de expulsão.
Facto – Na Luz, Inocêncio Calabote dá mais quatro minutos de descontos. Para quem está no estádio pecam por pouco. Alfredo Farinha escreve: "No que se refere ao prolongamento de quatro minutos cremos ter deixado ao longo da crónica justificação bastante para o critério do senhor Inocêncio Calabote".
Facto – O FC Porto joga o que falta contra um adversário desfeito (com apenas nove em campo e António Manuel diminuído. Só lhe falta um golo. Já não é assim tão difícil.
Facto – No último minuto da partida, Carlos Duarte tira um centro e Teixeira cabeceia por entre os defesas do Torreense. O título está ganho, ainda que tivesse sido necessário devastar o já condenado Torreense.
Facto – Os jogadores do FC Porto esperam pelo fim do jogo da Luz para comemorarem. Onze para onze, não tinham conseguido fazer um golo: foi preciso contar com a saída temporária de António Manuel, primeiro, e depois com as expulsões definitivas de Manuel Carlos e Saldanha para marcar o segundo e o terceiro.
Facto – Toda a gente conhece o nome de Calabote... Ninguém parece querer recordar o nome de Francisco Guiomar.
Conclusão – Alguns cronistas ligados ao FC Porto sabem pouco ou nada da história do Futebol português. Por isso insistem alegremente nas mentiras repetidas.
20 fevereiro 2013
Afonso de Melo in O Benfica

Pobre Pedro Podre
"Pobre Pedro: ei-lo em todo o seu esplendor podre. A vaidade consome-o
até ao tutano. Talvez haja alguém logo abaixo de Deus, mas não consegue
vislumbrar quem senão ele. Tristemente exibe as suas fraquezas a céu
aberto. Dita, ordena, castiga. Ele: com P. Com P de pobre; com P de
podre. Lambido, reluzente, gesticulante. Um teatro de marionetas. Não
tentem desviar o olhar. Não é possível. O pobre é rei da palhaçada por
vontade divina de um deus anão. Deixaram-no tomar conta do palco,
deram-lhe o papel principal de uma vida vidinha, rasteira e submissa, e
ele tomou para si as dores do Universo. Que ninguém ouse embaciar o seu
brilho bodegoso, azeiteiro, untuoso. Vêmo-lo sorrir de teclado alvo e
percebemos que nada nele faz sentido num Mundo que não comece e não
acabe na sua imensa presunção. Não o chamem pelo nome: não há nome de
homem que lhe caiba, pobre dele, podre ele, Pedro ele.
Os seus abraços estreitos, corrompidos, alegram os que se comprazem com a
batota. Escolheu há muito os seus parceiros e definiu publicamente os
seus ódios. Em seguida repete-os até que todos nós nos sintamos
subserviência. Ainda há quem se admire? Quem se surpreenda? Ainda há
quem o respeite? Quem o considere? Perguntem-lhe. Talvez saiba responder
com frases nas quais não caibam as mentiras do costume. Eu duvido.
Vejo-o como ele é: tristemente triste.
Pobre Pedro Podre. Não percebeu ainda que está a ser lentamente
mastigado e que em breve será cuspido para a sarjeta dos inúteis. Até lá
vai fazendo o seu serviço. Sem brilho, mas com brilhantina..."
19 janeiro 2013
Afonso de Melo in O Benfica
Com a força dos ventos do Destino!
À terrível derrota de Nuremberga, o Benfica respondeu com uma das mais brilhantes exibições da sua história. Aostrês minutos já a eliminatória estava virada... Durante os restantes 87 minutos, o campeão alemão sofreu uma humilhação sem igual.
A semana passada deixámos o Benfica na Alemanha. Era, na verdade, a primeira visita dos “encarnados” à Alemanha, em Fevereiro de 1962, e recordá-la faz sentido agora que, mais de 50 anos depois, o Benfica se prepara para regressar à Alemanha, desta vez a Leverkusen, para jogar uma eliminatória da Liga Europa.
Em Nuremberga, como se recordarão, o Benfica Campeão Europeu viu-se confrontado com um frio terrível, com um relvado que parecia uma placa de gelo e com um adversário pleno de brio decidido a obter uma das vitórias mais retumbantes do seu historial. E consegui-o. Béla Guttmann, ao pisar o terreno do jogo previu uma catástrofe. E esta catástrofe aconteceu: o Benfica saiu de Nuremberga vergado ao peso de uma derrota dura: 1-3. Mas nem por isso moralmente derrotado. Treinador, jogadores, dirigentes, acreditavam na reviravolta de Lisboa. Acreditavam profundamente que o Benfica era infinitamente superior ao campeão alemão.
Na Baviera, apesar da vitória, morava o receio. «Espera-nos um ambiente terrível! Serão mais de setenta mil gargantas a empurrar o Benfica no Estádio da Luz!»
No dia 22 de Fevereiro, a Luz encheu. Era uma quinta-feira. No fim-de-semana anterior, o Benfica deslocara-se à Covilhã e perdera, por 1-2, com o Sporting local. Não havia, por isso, motivo para optimismos acrescidos. No entanto, a crença não quebrava. E foi um dia de fé, estusiasmo e vibração.
Decididamente, os alemães nunca tiveram consciência do que os esperava na noite excitada de Lisboa. Recebidos com aplausos na sua entrada em campo, não imaginavam a tempestade que lhes caíria em cima. E a tempestade tinha nomes: Costa Pereira; Ângelo, Mário João, Germano e Cruz; Coluna e Cavém; José Augusto, Eusébio, José Águas e Simões. Nomes que ainda hoje fazem tremer as vidraças da História...
Um início devastador!
Três minutos! Três minutos foram suficientes para que o Benfica recuperasse da terrível desvantagem que trouxera da pista de esqui que fora o estádio do Nuremberga. Logo no minuto inicial, José Águas, num golpe de cabeça formidável, fez 1-0. Dois minutos depois, Eusébio, num remate potente, colocou o Benfica na frente da eliminatória.
Os setenta mil adeptos que enchiam a Luz nem queriam acreditar no que os seus olhos viam: o Benfica reduzia a pó o campeão da Alemanha e ainda havia mais 87 minutos para jogar. Até onde iria a voracidade dos jogadores “encarnados”? De que tamanho seria a humilhação do Nuremberga?
Não tardariam a afastar todas as dúvidas. Foi uma completa hora e meia de futebol da mais alta qualidade. Fantasia e sonho: soberbos e arrebatadores. Velocidade estonteante em todos os movimentos, dribles em progressão, remates súbitos e explosivos. Os alemães, após o soco inicial, tentaram recompor-se. Sem argumentos para disputar a partida a toda a extensão do campo, recolhem-se na frente da sua baliza na tentativa de evitar um descalabro de proporções homéricas. Debalde. A força do ataque do Benfica cai sobre eles com o peso de uma bigorna. Eusébio tem um pontapé tremendo que leva a bola a esbarrar na trave. Aos 20 minutos, novo remate fortíssimo, desta vez de Coluna: a bola ainda resvala na perna de um contrário antes de entrar na baliza do guarda-redes Strick.
O 4-0 já surge após o intervalo, aos 55 minutos. Um lance individual de Simões que progride em dribles antes de colocar a bola na frente de Eusébio que com o pé esquerdo faz um golo monumental. O Benfica não refreia os seus ímpetos. Os jogadores “encarnados” sentem que estão de braço dado com a lenda e exigem de si mesmos uma exibição que marcará para sempre a vida do Benfica. José Augusto faz o 5-0 (63 minutos) e o 6-0 (78 minutos) em lances individuais. Por mais de uma vez o campeão alemão está à beira de uma derrota de proporções inimagináveis.
A catástrofe anunciada por Béla Guttmann para Nuremberga virara-se contra os alemães com a violência dos ventos do destino... O Benfica ia na calha da sua segunda Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Pé e chinelo
Algo tem distinguido, de há muitos anos, aqueles que servem de bandeira ao clube do regime corrupto, sejam eles treinadores de boina aos quadrados enterrada na cabeça ou dirigentes amancebados com meninas de pouco preceito: a falta de educação e o baixo nível. À desonestidade intelectual da maioria destes figurões, que copiam bocados de livros com o à vontade de quem bebe um copo de água fresca e gerem equipas à custa de favores de arbitragem como se houvesse nisso algum mérito, junta-se uma ordinarice muito própria – ia quase escrever muito castiça – que os os faz tratarem-se, entre amigos do peito, como «meu grande filho da puta», desculpem lá, mas assim mesmo, tal como testemunhado em tribunal por um inopinado palhaço pobre que nunca teve graça nem faz rir embora esboce sorrisos naqueles que são pagos para lhe humedecerem as mãos com a baba bovina dos medíocres. É o pé e o chinelo que por ele chama.
Uns dizem-se escritores à custa da imaginação alheia, outros são merceeiros afeminados que parecem atender os clientes de pijama. Há também baladeiros de melena oleosa e banqueiros com os cérebros malinados por doenças degenerescentes. Há de tudo menos educação nessa gentinha barraqueira que usa páginas de jornais e microfones para dar largas a uma insuportável bigorrilha que no tempo do velho Eça seria corrida a bengaladas à porta da Baltreschi. E quando a semana é de mau vento, trazendo-lhes as palavras a público como borbotões de vómitos, o Futebol fede. Mas fede de alto a baixo, até que abanem as estruturas do seu edifício podre, reles e depravado.
P.S. - Ao ver o Madaleno agitar o telefone, fiquei convencido de que iria mostrar as chamadas que costuma fazer para os presidentes do Conselho de Arbitragem. Afinal era só mais uma figura triste. Lá está: escorrega-lhe facilmente o pé para o chinelo...
08 janeiro 2013
Afonso de Melo in O Benfica
PUM!,
ou o silêncio
Terá feito PUM!, suponho. Quero dizer: o tiro. Alguém deve ter ouvido. Um tiro num WC não soa no vácuo. Isto é: digo eu, porque informação não há. Diz-se que foi no WC; diz-se que foi um tiro. Os jornais não têm letras, as televisões não têm imagens, as rádios não têm voz. Um tiro provoca perguntas: quem foi?; por que foi? Ninguém responde às perguntas. Pior ainda: ninguém faz perguntas. Fazemos nós, cada um por si. Mas não fazem perguntas aqueles que tinham como obrigação profissional fazê-las. O silêncio é grosso: envolve um estádio, envolve uma torre de escritórios, envolve um clube. Misterioso clube esse, que vive envolto em silêncios apenas interrompidos pelas tiradas imbecis de um velho escroque. Consta-se que a polícia abriu inquérito, desenvolveu investigações. Mas não se sabe ao certo. O silêncio também tomou conta da polícia. Há conclusões? Há relatórios? Vá lá saber-se. O poço é fundo, muito fundo. Certo dia, a certa hora, ouviu-se (parece...) um tiro. Houve um morto, pelo menos houve rumores de existir um morto. Quem o matou? Ele próprio ou mão alheia? Era um morto que incomodou enquanto vivo? Era apenas um cavalheiro solitário sem razões para viver? E a arma? Não há tiro sem arma. Isto é: não costuma haver tiro sem arma, mas talvez estejamos perante um universo diferente, difuso, no qual as razões e as consequências não coabitam no mesmo espaço. PUM!, ouviu-se no edifício, no estádio, suponho. Ninguém quis verdadeiramente saber. Ignorem, desvalorizem, não passa de um homem morto... Há lá coisa mais banal do que um homem que é morto? A quem convém o silêncio?, já perguntei aqui. E respondo de novo: o silêncio convém aos criminosos. Já ninguém ouve um tiro no silêncio...
P.S. - Depois de uma morte, outra morte. Parece que para certa gente as mortes são banais. Aconteçam num WC ou numa estrada. Não lhes pesam na consciência: é coisa que não têm.