A semana foi cruel, mais cruel do que outras. O
Júlio Resende apagou-se, o José Niza também. “E Depois do Adeus?”. No
caso do Zé, fica a recordação pessoal de momentos inolvidáveis. Mais
ainda aquele, nos anos do Paulo de Carvalho, em que a pedido dele li um
texto, texto bonito, outro texto bonito da sua lavra, que o médico era
mesmo um terapeuta das letras, das palavras, sempre tão bonitas, sempre
tão carregadas de afeição, de profundez.
E depois do adeus? Fica a
recordação bonita do Zé Niza, pendurado no enésimo cigarro. Era bonito?
Era assim mesmo, era como ele era. Era como eu o via sempre, era como
eu não queria deixar de o ver. Até porque há gente mais bonita que outra
gente, gente que diz mais que outra gente, gente que faz mais falta que
outra gente. E só um FC Porto-Benfica mitigou a minha angústia no
rescaldo quente da notícia gelada.
A igualdade no Dragão foi
escrita com chutos bonitos? Também foi. Mas foi, sobretudo, escrita com
as letras da justiça. Neste momento, o Zé Niza só poderia, se quisesse,
repartir prosas bonitas por duas equipas que se equivalem no poderio, na
qualidade, na acção. O Júlio Resende, se quisesse, pintaria dois
quadros de valor semelhante, de porte idêntico, de carga parecida.
FC
Porto e Benfica escrevem e pintam, na actualidade, de forma muito
aproximada. Quem escreve melhor? Quem pinta melhor? Têm muto Niza, têm
muito Resende. Nenhum tem mais Niza que o outro, nenhum tem menos
Resende que o outro. Têm tanto de Niza, têm tanto de Resende, que não dá
para arriscar quem escreve mais, quem pinta mais. A semana foi cruel,
intelectualmente bruta, criativamente madrasta.
Também desta vez,
tal como de outras, o futebol fez de lenitivo, foi consolo, foi
refrigério. E deixou a mais bonita e teimosa das interrogações. Quem vai
vencer esta temporada? O FC Porto ou o Benfica? Com palavras do Niza,
com pinturas do Resende, com outras coisas lindas, outras que nem tanto,
outras que nada mesmo, quem ousa, nesta altura, arriscar?
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18 abril 2012
Crónica de João Malheiro
Metamorfose
Vítor Pereira era contestado, Jorge Jesus era idolatrado, Domingos Paciência era venerado. Chegou a ser assim ou não? E ainda nesta temporada. O FC Porto apartou-se precocemente da Europa da bola e pareceu soçobrar na Liga nacional, o Benfica deu colorido na Champions e pareceu espairecer em triunfo no Campeonato, o Sporting jogou alto no exterior e pareceu jogar crescido no domínio interno. Chegou a ser assim ou não? E ainda nesta temporada.
As contas estão quase saldadas. Vítor Pereira reabilitou-se, Jorge Jesus enterrou-se, Domingos Paciência demitiu-se. O futebol tem destas coisas, tem mutações imprevistas, tem nuances esquisitas. Dois ou três jogos mudam cenários, alteram atmosferas, provocam metamorfoses. A bola não é uma certeza, nunca será. A bola é uma incógnita, sempre será.
A um mês do termo da competição, Vítor Pereira resulta, Jorge Jesus não exulta, Domingos Paciência nem resulta. O FC Porto vai ser campeão, o Benfica vai ser frustração, o Sporting só vai ser consolação. Vítor Pereira é melhor treinador do que Jorge Jesus? Vítor Pereira é melhor treinador do que Domingos Paciência? Não é certamente. Mas vai ganhar o que os outros se propunham ganhar. Nem sempre ganha o melhor? Mas quem ganha, ganha sempre melhor.
Esta temporada tem tido muito de atípico, de anómalo. Campeonato para o FC Porto, Taça da Liga para o Benfica, talvez Taça de Portugal para o Sporting de… Sá Pinto. Satisfação a três? Nem pouco mais ou menos. Aprazimento portista, desagrado benfiquista, talvez alívio sportinguista. Esta temporada vai provar que a bola, se dúvidas houvesse, é ainda mais redonda que as precipitadas contas redondas de muita gente redonda em matéria de futebol.
16 março 2012
Crónica de João Malheiro
Coluna com (enorme) coluna
Foram dias intensos e futebolisticamente gulosos. Que melhor companhia, quase diária, do que Mário Coluna? Vindo de Moçambique, a convite do Benfica, esteve uns tempos entre nós. Esteve muito tempo comigo. Esteve, digo-o imodestamente, em homenagem a uma antiga amizade. Da minha parte, mais do que desvelo, sinto veneração por Coluna. Sinto e cultivo-a.
Há já quase cinco décadas, foi apelidado de Monstro Sagrado. Artur Agostinho, outro velho amigo, mestre também, foi o autor do epíteto. Que vingou até à actualidade e jamais será esquecido. Coluna foi muito Benfica, foi muito Selecção, foi todo futebol. No curto espaço de sete temporadas, disputou cinco (!) finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus e capitaneou o combinado nacional na maior epopeia do seu palmarés, o Mundial de 66. Até a braçadeira da selecção da FIFA chegou a envergar, expressão da sua grandeza universal.
Mário Coluna foi um capitão extraordinário, um capitão singular. Tal como hoje, jamais levantou a voz, mas sempre teve uma liderança intocável e admirada por todos. Até muitos árbitros o tratavam por “senhor Coluna”, tal era o respeito que infundia. Árbitros, dirigentes, jogadores adversários, até colegas de equipa. Ainda hoje, gente da bola com a estirpe de um Toni, de um Carlos Manuel, de um Chalana, tantos mais, não renunciam ao trato de “senhor Coluna”.
O “senhor Coluna” fez o grosso da minha despesa emocional nos últimos dias. “Onde vamos hoje, miúdo?”, foi a frase que mais ouvi. E também lhe ouvi histórias, muitas histórias, tantas e bonitas histórias, proferidas naquele seu jeito sábio, mas comoventemente humilde. Coluna sempre foi homem de grande coluna. O que lhe escrevi uma vez? Dava músculo, dava cérebro, dava alma, dava até pele, dava até sangue. Dava ordens ao jogo, dava-lhe ordem também. Dava jeito, tanto jeito. Dava o que dava e não dava mais, porque não havia mais para dar. Sem exagero, Coluna era o farol do futebol português. O Monstro Sagrado? Também o último imperador.
08 março 2012
Crónica de João Malheiro
A graça do Jaime
Foi em 66, ainda garoto, que conheci o melhor sexteto da história centenária do nosso futebol. Jaime Graça, Coluna, José Augusto, Torres, Eusébio e Simões davam mais bola à bola. Arregalavam olhares siderados, abriam bocas de pasmo, despertavam ouvidos atentos, atiçavam aplausos sentidos, conquistavam adeptos entusiasmados. Foi assim no Benfica e na Selecção Nacional.
Há dias, poucos dias, o Jaime morreu. O Torres já nos havia deixado há cerca de um ano. A bola também chora? Claro que chora. A bola também faz luto? Claro que faz. Amigo de há longos tempos, o Jaime foi, ainda por cima, um dos jogadores mais injustiçados, pelo menos no historial recente da bola lusitana. Jogador fabuloso, perdeu mediatismo por razões que me são difíceis descortinar.
Na companhia do grande Mário Coluna, entre outras figuras da maior expressão, acompanhei, em Setúbal, a cerimónia fúnebre. O momento foi dolorosamente emocionante. Durante alguns minutos, recordei muitas horas de intimidade com um artista invulgar, um homem bom, um amigo fiel. E recordei uma prosa que, em tempos, lhe havia dedicado. Para ficar aqui em jeito de epitáfio.
Tinha consigo a graça, não só de nome. Dizia de sua graça, Jaime Graça. Era acção de graças ao futebol, dava ares das suas graças, quando não estava para graças caía nas boas graças. Tinha tanta, tanta graça, fazia tantos, tantos gracejos, naquele estilo grácil, gracílimo, naquela gracilidade, que da graça da sua graça se fez também a graça do Benfica, a graça da Selecção. Não ficou de graça? E qual é o preço da graça de um campeão da graça do Jaime Graça?
11 fevereiro 2012
Crónica de João Malheiro
Artur Jorge na Luz
Diz-se que acontece em todas as áreas da vida. A alegria e a tristeza, o amor e o ódio, tantos sentimentos opostos, tantas sensações antagónicas. Caminham de mão dada? Caminham, no mínimo, lado a lado. Em todas as áreas da vida, no futebol também. Muito no futebol, espaço quase singular de arrebates, de sobressaltos, de alvoroços.
No futebol, queira-se ou não, a justiça é o reflexo dos golos, dos triunfos, dos títulos. No futebol, queira-se ou não, sem golos, sem triunfos, sem títulos não há justiça. Há frustração, há desânimo, há animosidade. Mas também há momentos surpreendentes.
Recentemente, por ocasião do lançamento da minha nova biografia de Eusébio e do seu 70º aniversário, convidei Artur Jorge a comparecer na cerimónia. Entrei com ele na Luz, na nova Luz, espaço que jamais havia visitado. Grande jogador do Benfica, na dobragem das décadas de 60 e 70, Artur Jorge chegou a fazer as delícias dos adeptos vermelhos, tão manifesta era a sua apetência goleadora. Mais tarde, já como técnico, notabilizou-se no FC Porto, arrebatando mesmo um título europeu, circunstância que lhe conferiu dimensão mundial e muito contribuiu (foi uma espécie de precursor de José Mourinho) para aumentar a cotação dos técnicos portugueses no contexto internacional.
De regresso ao Benfica, Artur Jorge não foi feliz. A conjuntura era, desde logo, particularmente adversa. Foi altercado com veemência, foi mesmo diabolizado. O estigma, tantas vezes repetido, de ter aniquilado uma equipa campeã ainda hoje o persegue. Artur Jorge e Benfica passaram, na versão futebolística, a viver um divórcio com foros de litígio irreparável.
Há dias, entrei com ele na Luz. Dezenas de sócios e aficionados benfiquistas foram colhidos de surpresa. Como reagiram? Com elegância, com cordialidade, com respeito. Ou mais uma lição que a bola soube dar num momento em que o país vive uma fase de brutal desumanidade e crispação atroz.
29 janeiro 2012
Crónica de João Malheiro
Na bola da justiça
“Quem é o Bentes?”. A pergunta, diziam-me, era feita, no início dos anos 50, por um jovem universitário, oriundo de Caminha, na altura a frequentar Direito na Universidade de Coimbra. Quem era o Bentes? Um magnífico jogador da Académica, quiçá o melhor de todo o seu historial, que inclusive chegou a jogar na Selecção Nacional.
E quem perguntava mesmo “quem é o Bentes?”. Jorge Guerra Pires, contemporâneo do meu pai, do meu tio, de Francisco Salgado Zenha, de Agostinho Neto. Amigo íntimo da família, desde cedo, habituei-me a tratar apenas por Jorge aquele que mais tarde viria a ser juiz conselheiro, até jubilado. O Jorge, este fim-de-semana, dolorosamente, partiu.
O Jorge perguntava, adolescente, “quem é o Bentes?”. Não ia, nunca foi, somente por mera e pouco vulgar curiosidade intelectual ou social, à bola da bola. A bola não o fascinava, tinha outras prioridades, outras dilecções. Personalidade portadora de uma cultura invulgar, cidadão e profissional moralmente impoluto, o magistrado Jorge Guerra Pires teve grande influência, desde cedo, na formatação da minha personalidade e da minha visão sobre o mundo, as suas virtudes e as suas chagas.
“Quem é o Bentes?”. O Jorge não sabia, no começo do seu curso universitário, aquilo que todos sabiam. Não sabia? Talvez dissesse que não sabia, apenas para empurrar as tertúlias académicas na direcção de causas, de princípios, de valores.
O Jorge morreu. “Quem é o Bentes?”. Nunca fez questão de mo explicar. Já não vai a tempo. Também não era preciso, eu não tinha necessidade, porque já sabia e escusava de questionar “quem é o Bentes?”. Mas explicou com mestria, com sapiência, que não há um só homem bom que deixe de equipar, a tempo inteiro, no jogo da vida, com o traje da humildade, do carácter, da justiça.
18 janeiro 2012
Crónica de João Malheiro
Reserva da reserva
E se o Benfica, o FC Porto e o Sporting começassem a jogar com a reserva? E outros clubes mais? Quão menos recorte técnico teria o jogo que pudessem praticar. Quão menos redonda seria bola. Quão menos emoção teriam os espectáculos. Quão menos entusiasmados ficariam os adeptos. Sentir-se-iam defraudados, dolentes, infelizes.
E o que se passa na política? E o que se passa com os políticos? Em Portugal? Em Portugal, mas também na Europa. Onde estão os grandes líderes, a despeito dos quadrantes ideológicos ou doutrinários que perfilhem? Em Portugal? Em Portugal, mas também na Europa. É ou não é um dado incontroverso que os responsáveis partidários e os governantes são, na paisagem hodierna, uma espécie de reserva. Pior do que isso, não poucas vezes, são a reserva da reserva. E por que não a reserva da reserva da reserva?
É de crise que se fala. Em Portugal? Em Portugal, mas também na Europa. As grandes inteligências, desde há anos, optam pela carreira académica e renunciam à vida política. Aquela que era uma actividade dignificante deixou de o ser, mais ainda passou a ser vista de soslaio por multidões. Os povos, descontentes, vão cada vez menos ao jogo eleitoral.
O Benfica, o FC Porto, o Sporting raramente jogam com a reserva. Os partidos cada vez mais actuam com as segundas linhas. As presidências e os governos cada vez mais dirigem com as sobras. É de crise que se fala. Só se poderia falar. Em Portugal? Em Portugal, mas também na Europa. Os dirigentes actuais são falhos de aptidões, de ideias, de competências.
Rui Costa foi júnior no Benfica, Baía foi júnior no FC Porto, Cristiano Ronaldo foi júnior no Sporting. E Passos Coelho? Foi júnior no PSD. E António José Seguro? Foi júnior no PS. E, já agora, Durão Barroso, que nos remete para esta Europa desgraçadamente admoestada? Esse até foi júnior no MRPP. Dá para perceber a diferença. Dá ou não dá?
11 janeiro 2012
Crónica de João Malheiro
Natal com o Eusébio
Como é que escreveu o José Carlos Ary dos Santos? «Natal é quando um homem quiser». Escreveu lindo, escreveu intenso. O Paulo de Carvalho cantou. Cantou lindo, cantou
intenso.
E o meu Natal? Afinal, como foi o meu Natal?
«Natal é como o Eusébio quiser», poderia ter escrito.
O Eusébio quis que o meu Natal fosse menos Natal.
O Eusébio quis que o meu Natal fosse um Natal perturbado.
O Eusébio não quis voluntariamente, mas eu quis que este fosse o Natal do Eusébio. Falei
com ele todos os dias, mais ainda no próprio dia de Natal, ouvindo quase sempre
aquela voz fatigada, triste, pesarosa. Mas ouvi, também, uma voz amiga, gentil, delicada.
O meu Natal foi do Eusébio e para o Eusébio.
Tantas mensagens, tantos contactos, tanta gente preocupada com o estado de saúde do mais lendário futebolista nacional de todos os tempos.
De regresso ao hospital, o Eusébio quis que o meu Natal se prolongasse. Não quis voluntariamente, mas eu quis que assim fosse.
Porque «Natal é quando um homem quiser». E eu quis, eu quero continuar a querer o Natal do Eusébio.
Quis e quero continuar, dia após dia, a ouvir aquela voz. Menos fatigada, triste, pesarosa. Sempre amiga, gentil, delicada.
Escrevi muito, com indisfarçável orgulho, sobre o Eusébio. Só ainda não tinha escrito aquilo que lhe disse há duas semanas. «Maior, tu para mim és mais importante
do que o Natal.» O Eusébio não gostou. Eu gostei. Gostei porque senti.
E também vou gostar, mais ainda, de o ver, no futuro, a marcar golos, muitos golos,
bonitos golos, gostosamente, na baliza da vida.
21 dezembro 2011
Crónica de João Malheiro
Fitas e Fintas
O António Simões fez anos. Não é que é quase septuagenário? Convidou-me para o jantar de aniversário, regressado há dias do Irão, onde tem coadjuvado Carlos Queiroz. A cerimónia foi muito íntima e não menos tocante. O António gosta de sentir verdade, gosta de sentir certeza nos seus amigos. A meio do repasto, liguei à minha mãe, que já dobrou a barreira dos oitenta. “Nos anos do Simões? Aquele pequenino das fintas que jogava com o Eusébio?”. Esse mesmo.
Simões foi um futebolista genial. Na esteira de Rogério, Bentes, Albano, deliciou o mundo da bola nas décadas de 60 e 70. Um dia, comparei-o a algumas figuras da Banda Desenhada. Foi assim: “Ele era o Rato Mickey, na sua principal alcunha, expressão de agilidade em corpo minguado. Ele poderia ser o Speedy Gonzalez, conceito de rapidez, de velocidade. Ele poderia ser também o Astérix, noção de combatente, de indomável. Ele poderia ser ainda o Lucky Luck, ideal de oportunidade, de precisão. E porque parecia driblar mais rápido do que a própria sombra, ele só poderia ser o nosso Simões. Que ao poema chamava finta”.
Ele tinha a graça dos mais gráceis. Ele tinha a subtileza dos mais subtis. Ele tinha o engenho dos mais engenhosos. Ele tinha tudo o que os outros não tinham. Depois dele, também tiveram o Chalana, o Futre, o Figo, agora o Ronaldo. Gente de fintas como fitas? Ou será que gente de fitas como fintas? Sempre gente das mais belas fitas com as mais belas fintas.O futebol português tem parido alguns dos melhores filhos da melhor bola. O Simões ainda hoje é o mais jovem campeão europeu de toda a história. Dizer Simões, dizer também Chalana, Futre, Figo ou Ronaldo é dizer acato, é dizer mercê, é dizer honra. Mais ainda, é dizer presente a um passado com sabor a futuro
14 dezembro 2011
Crónica de João Malheiro
Respeito e desrespeito
O futebol é uma ciência oculta? Não, não é. Só que é mais, muito mais, da sabença de quem é do ofício. É ou não é? Quando falo com o Eusébio, o Hilário, o Toni, o Fernando Gomes, o Rui Costa, o Paulo Futre ou o Luís Figo ouço, sobretudo ouço. Ouço quem sabe. Até coloco questões, até emito opiniões, mas jamais lhes contesto a primazia nos diálogos.
A literatura é uma ciência oculta? Não, não é. Só que é mais, muito mais, da sabença de quem é do ofício. É ou não é? Quando falo com o Manuel Alegre, o Baptista-Bastos, a Alice Vieira, a Inês Pedrosa ou o Mário Zambujal ouço, sobretudo ouço. Ouço quem sabe. Até coloco questões, até emito opiniões, mas jamais lhes contesto a primazia nos diálogos.
A música é uma ciência oculta? Não, não é. Só que é mais, muito mais, da sabença de quem é do ofício. É ou não é? Quando falo com o António Victorino d’Almeida, o Paulo de Carvalho, o Sérgio Godinho, o Vitorino, o Fernando Tordo, o Luís Represas ou o Paulo Gonzo ouço, sobretudo ouço. Ouço quem sabe. Até coloco questões, até emito opiniões, mas jamais lhes contesto a primazia nos diálogos.
Há dias, num daqueles programas televisivos sobre futebol, um dos intervenientes citou o Pedro Venâncio, antigo defesa do Sporting e da Selecção Nacional. Foi a propósito da análise do ex-futebolista a um lance controverso no recente embate entre o Benfica e o Sporting. “Quem é o Venâncio?”, perguntou outro dos participantes, eivado de lamentável ironia. “O Venâncio vê melhor futebol do que eu?”, ainda questionou, inflamado de lamentável despautério.
O futebol não é uma ciência oculta. Mas há comentadores coxos de razão e broncos de presunção.
02 dezembro 2011
Crónica de João Malheiro
A virtude da retaguarda
Foi no magistério portista de Artur Jorge que o conceito ganhou solidez. Uma equipa constrói-se de trás para a frente e jamais ao contrário. Quanto vale um grande ponta-de-lança? Muito, muito mesmo. Quanto valem extremos desequilibrantes? Muito, muito mesmo. Quanto valem médios volantes? Muito, muito mesmo. Quanto vale uma eficaz estrutura defensiva e um grande guarda-redes? Muito, tantas vezes muito mais do que tudo o resto.
As retaguardas não ganham jogos? Às vezes até ganham, mas, sobretudo, impedem derrotas ou empates embaraçosos. A serenidade, a confiança, a competência de uma equipa descobre-se logo pelo compartimento mais recuado, descobre-se logo pelo responsável pela defesa das redes. Durante anos, o meu pai falou-me no João Azevedo, magnífico guardião do Sporting. Também do Frederico Barrigana, com quem ainda tive o privilégio de manter uma sólida e bonita amizade. Do Carlos Gomes, com quem também me relacionei, fala-me amiúde o Eusébio, reputando-o acima de todos os outros.
E que dizer do Bento ou do Damas, mais recentemente? E, depois, do Vítor Baía? E o que seria do Benfica e do Sporting, em circunstâncias competitivas melindrosas, sem Michel Preud’Homme e Peter Schmeichel, dois dos melhores intérpretes de sempre no talento de proteger as malhas? A traseira de um colectivo é, tantas vezes, a sua dianteira emocional.
Este fim-de-semana, jogou-se um estimulante clássico na Luz. O Benfica está bem? Muito, muito bem. É mesmo a única equipa europeia, às portas do Natal, sem uma derrota sequer. O Sporting está bem? Muito, muito bem. É mesmo o caso quase singular de uma equipa em construção já… construída. O Benfica ganhou o despique? E se em vez de Artur tivesse Roberto entre os postes?
04 novembro 2011
Crónica de João Malheiro
Amizade
O Paulo convidou? Ele, para mim, não convida. Ele, para mim, ordena. É assim que procedo com os amigos mais próximos. O Paulo de Carvalho é um deles. “João, queres jantar na quinta-feira em minha casa?”. Claro que jantei. O Paulo não convidou, o Paulo ordenou. Ganhei um belo serão, matizado com futebol, com música, com reflexões sobre a vida, sobre as coisas, sobre tudo. Sobretudo, ganhei o que mais gosto de ganhar. Ganhei mais alguma ferramenta para robustecer o meu alicerce intelectual. Ganhei mais alguma ferramenta para robustecer o meu alicerce social. A dada altura, adveio a frase da noite. “As coisas belas só pertencem a quem as ama”. Ganhei, ganhei muito.
O Simões convidou? O Simões não convida, o Simões ordena. De passagem por Lisboa, ele que está no Irão, telefonou com um objectivo preciso. “João, queres almoçar na sexta-feira?”. Claro que almocei. Também com o Eusébio, outro daqueles que não convidam, outro daqueles que ordenam. Também com o Toni, outro ainda daqueles que não convidam, daqueles que ordenam. Em Caneças, no restaurante da Amélinha, ganhei horas infindas coloridas de bola, de boa bola, da melhor bola. Da bola inteligente, porque a bola é, mais do que tudo, daqueles que são da bola. Só da bola? Também de outras bolas, bolas da vida. A dada altura, adveio a frase da tarde. “Não quero ter razão, quero ser feliz”. Saiu da bola do António Simões. Ganhei, ganhei muito.
“A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original”. Também emergiu essa? Não exactamente. Até que gostava de ter almoçado ou jantado com o Albert Einstein. Não houve repasto, mas houve, há sempre, ensinamentos irrefutáveis. E “nada na vida deve ser temido, antes compreendido”, algo que também não emergiu de um almoço ou de um jantar com a Marie Curie.
A amizade é um património inalienável. Carrega com ela tanto conteúdo substantivo. É uma causa que me fascina praticar. Praticar e sentir. Praticar e sentir para mais aprender. E se almoçasse ou jantasse com o Oscar Wilde, que frase deveria emergir? “Experiência é o nome que damos aos nossos enganos”. E se fosse com o Norman Vicent? “O mal de todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”.
21 outubro 2011
Crónica de João Malheiro
Dissemelhanças
Há dias, poucos dias, num jantar, um jovem até muito cordial deixou escapar uma inconfidência. Revelou que havia chegado a vereador da sua terra e que projectava, daqui a duas legislaturas, ocupar um lugar de deputado. Há dias, ainda poucos dias, noutro jantar, um jovem não menos cordial também deixou escapar uma inconfidência. Revelou que havia chegado ao Paços de Ferreira e que projectava, daqui a dois anos, ocupar um lugar no plantel do Benfica, do FC Porto ou do Sporting.
A coisa tem tudo de semelhante. Tem, mas não tem. Cordialidade à parte e sinceridade ao pé, protagonizadas pelos dois meus interlocutores, bem que se pode falar de coisas distintas. Dessa coisa do carreirismo e da coisa da carreira. Se o carreirismo é reprovável, a carreira é louvável. Ambas expressões de ambição pessoal, o carreirismo é feio, a carreira até pode e deve ser bonita.
Neste Outubro em que o tempo atmosférico é generoso e o tempo social é cruel, vale a pena tentar perceber o que alicia, nos últimos anos, o grosso da classe política. O apego à causa pública, ao interesse público? Definitivamente, não é. Antes, o apego à causa pessoal e às causas de padrinhos e compadres de circunstância, quer conhecidos quer anónimos.
Antes era honroso fazer política, hoje é horroroso fazer política. Claro que há excepções, sobretudo no limite da coisa, na extremidade da coisa, na antítese da coisa. A coisa é o bloco central dos interesses. Por isso é que o líder máximo da JSD pede, folcloricamente, responsabilidades criminais para Sócrates. Por isso é que o líder máximo da JS pede, folcloricamente, responsabilidades criminais para Alberto João Jardim.
«A história repete-se, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa», sustentava Karl Marx. Pior é que a farsa já vai no enésimo acto. E outra coisa: fazer carreira na bola não é inequivocamente mais digno do que fazer carreira na política?
18 outubro 2011
Crónica de João Malheiro
Na bola da mulher
As bancadas do futebol não são hoje as mesmas de há anos. A crescente presença feminina dá mais graça ao espectáculo em redor dos relvados. Casos há em que o show não se confina exclusivamente aos embates. Casos há de outras emoções, comoções. Casos daqueles que fazem aumentar a atenção, a tensão e a tesão. Casos que não são acasos. Acaso é inocente a cada vez maior afluência de mulheres aos recintos desportivos? O fenómeno é também um caso de emancipação, ultrapassado aquele quadro deprimente, de há anos, quando as senhoras permaneciam nos carros, por norma a fazer croché, enquanto os homens acorriam aos estádios livres de companhias tidas por incómodas.
O caso mudou. Trata-se de um novo caso. Um caso sério na casa da bola. Um caso de amor pelo amor à bola. Um caso de invasão a um território que parecia exclusivamente macho. E a recentemente descoberta do amor feminino pela bola? E a pujança da nova realidade? E a sua crescente evidência? “Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito”, escreveu Bertolt Brecht. E a bola? Como se sente a bola (muito) amada pela mulher? A bola está agora mais bonita. A bola está agora mais responsabilizada.
A bola está agora mais exigente. A mulher dá beleza à bola, dá responsabilidade, dá exigência. O homem ainda tem mais bola do que a mulher? Só que a mulher tem melhor bola do que o homem. Entende mais? Não entende, por ora, mas entende, já nesta hora, que a bola é tão outra bola quanto mais escorrer no feminino. Quer sorria quer chore. Mas sempre outra bola, muito mais e melhor bola.
30 setembro 2011
21 setembro 2011
Crónica de João Malheiro
Marechal das redes
As tertúlias da bola sempre me fascinaram, sobretudo pelo seu carácter interclassista. Desde miúdo, seduz-me a transversalidade do futebol, essa coisa de ver (e ouvir) operários e intelectuais, magalas e domésticas, empregados e patrões, gente de todos os matizes a debitarem mais ou menos sabedoria, mais ou menos baboseiras sobre o mundo imenso do jogo das massas.
Quem era melhor? Di Stéfano, Pelé, Eusébio ou Maradona? Na actualidade, Messi ou Ronaldo? Peyroteo, Matateu ou José Águas noutros tempos? Simões, Chalana ou Futre mais recentemente? As unanimidades, no futebol, são ainda mais difíceis do que as goleadas. È difícil, muito difícil, comparar jogadores de tempos diferentes, de posições discrepantes, de nacionalidades distintas.
Talvez num posto específico, o de guarda-redes, a tarefa não encerre tanta dificuldade, tanta opinião desencontrada. Ainda assim, Azevedo ou Carlos Gomes? Bento ou Damas? E por que não Vítor Baía? Já a nível internacional, existe mesmo uma unanimidade. Ninguém com ligação mínima ao fenómeno da bola ousa questionar a preponderância de um guardião relativamente aos demais. O russo Lev Yashin, conhecido por Aranha Negra, foi o melhor de sempre. Era mão para toda a obra. Melhor, era mãos, o plural faz mais sentido.
Yashin enchia a baliza de autoridade elegante. Parecia usar fita métrica com precisão absoluta? Usava, seguramente, a força do posicionamento, a energia do embate, a pujança do prazer. As redes de Yashin eram defendidas sempre com alerta máximo, sempre com alma intensa. Havia nele uma dedicação brava, misto de amor e rancor. Havia nele sempre mais do que havia a mais nos outros.
O mundo do futebol teve o seu marechal das balizas. Há dois anos, em Moscovo, na companhia do Eusébio, participei numa romagem ao seu túmulo. Nessa minha deliciosa condição de soldado raso da bola.
16 setembro 2011
Crónica de João Malheiro
Não sei se a frase é minha, mas reitero-a convictamente. Qual é a frase? 'Há uma razão dialéctica que percorre os corredores do tempo com passada larga.' Essa mesma. Minha? Não sei. Mas sei que sei que gosto. Que gosto demais. Há dias, neste Setembro perfumado, passei pela velha rua que me adolesceu. Chama-se 'Independência da Guiné'. Chama-se, porque eu quis que se chamasse. Era assim no ano brasa de 74. Até botei discurso na cerimónia. Tinha 14 anos. Mais parecia, convenhamos, um caso de pedofilia política. Penso que comecei aí, dialecticamente, uma passada larga. Larga talvez até em demasia.
A 'Independência da Guiné' situava-se mesmo ao lado do velho Campo da Avenida, onde jogava o Rio Ave. Já o coração batia de benfiquismo desenfreado, aprendi bola, muita bola, no pelado dos arrabaldes. E na traseira, o hotel da vila recepcionava os estágios dos principais clubes nacionais. Para encantar a minha meninice, lembro-me de conversar com o José Maria Pedroto, o Coluna, o Hilário, o Jacinto João, tantos mais. O Benfica mexia comigo, mas não me cegava. Toda a bola valia mais ainda que o meu clube de afeição. Quem era o meu melhor amigo? Chamava-se Bernardo da Velha, jogava no FC Porto. Com ele passeava, nas manhãs de domingo, jardim afora, persuadido, por via disso, do meu estatuto de gente grande.
Nunca mais vi o Bernardo da Velha, dizem-me que se radicou nos Estados Unidos ou no Canadá. De pouco importa. Mas já importa que me fez sentir gente, gente sabedora, gente importante, gente da bola.
18 julho 2011
Crónica de João Malheiro
Coração e Coentrão
Por que será que, abrindo as janelas, aqui, em Vila do Conde, sinto um cheiro especial? É mar… é mais do que amar, também amar. É aquele mergulho gratificante na adolescência. Que tonifica, que exercita, que açula. Vila do Conde, na prosa sentida de Ruy Belo “é o lugar onde se esconde o coração”. E para quem faz da bola referência, da bola motivação, é também o lugar onde não se esconde o Coentrão.
Uns dias na terra de Régio, espraiados “entre pinhais, rio e mar”, cruzaram-me com o futebolista português mais marcante da actualidade. De origem piscatória, guerreira, muito humilde, quase indigente, Fábio Coentrão exibiu-se nas Caxinas com sorriso galático na rota milionária do mítico Real Madrid. Os conterrâneos, testemunhei-o, aplaudiram com afectação incontida, tomando o traje da glória de um dos seus.
Vila do Conde tem mais uma razão para elevar a auto-estima. A coisa vem de longe, mesmo antes da nacionalidade. Intensificou-se na época dos Descobrimentos, muitos foram os vila-condenses empenhados na gesta famosa. E que dizer dos vultos da escrita que se fixaram nesta paragem, porventura seduzidos pelos seus encantos?
No curto trajecto da Adega do Testas ao restaurante Ramon, que a gastronomia também faz de Vila do Conde património de sabores, dá para passar pela casa de Eça de Queiroz. “Se não houver vinho, bebo branco”, chegou a sentenciar. Um pouco mais abaixo, fixou-se Guerra Junqueiro, esse mesmo que também escreveu sobre “o artista a quem sobrava o génio e faltava o pão”. Ao lado, na Praça Velha, Camilo Castelo Branco deve ter revivido os amores trágicos de Simão, Teresa e Mariana, enquanto Antero de Quental, na vizinhança, já escrevia “assim, qual é a esperança que não mente”.
A esperança, vaticinou Antero, mente. Mente descaradamente. Mente mais ainda na actualidade. Mente tanto que não há mente que se não sinta demente. Mas em Vila do Conde, mas por Vila do Conde, a esperança não mente. Não faz da gente temente, faz da gente crente.
30 junho 2011
Crónica de João Malheiro
Na bola da Política
Esta coisa da política tem muito mais a ver com bola do que aquilo que parece. A coisa é, em muitos casos, a mesma coisa, no mínimo coisa parecida.
O PS, que até era campeão, perdeu o Campeonato? O treinador Sócrates demitiu-se sem graça mal soube da desgraça. O Bloco de Esquerda, que tinha garantido no Campeonato anterior uma espécie de UEFA, à custa de um honroso 3.º lugar, quedou-se no 5.º posto da competição? De pronto, vozes como Joana Amaral Dias ou Daniel Oliveira já pedem a costumeira chicotada psicológica, questionando a liderança do até então indestronável Louçã.
Triunfante, Passos Coelho deu o título nacional ao PSD, enquanto Portas se guindou a um lugar no pódio, reforçando a persuasão de comando incontroverso. Ambos prometem liderar as equipas, sem mácula, nos próximos tempos competitivos, silenciando aqueles que lhes invejam, internamente, os resultados obtidos. Mais difícil (ou fácil) é ajuizar Jerónimo de Sousa, treinador principal de uma CDU que até somou mais pontos do que no Campeonato anterior. Fica a ideia de que é um líder incontestado, pelo menos enquanto tiver a mesma equipa combativa capaz de superar arbitragens intolerantes a nível doméstico ou mesmo internacional.
Há ou não há enorme similitude na política e no futebol? De resto, a grande diferença até justifica a lisonja da bola. Não consta que haja muitos adeptos a trocarem de clube com frequência. O mesmo não se poderá dizer dos aficionados das equipas partidárias. E essa coisa bizarra, entre outras, de transferências directas de voto do Bloco de Esquerda para o PSD? Não parece o mesmo que, a título de exemplo, um simpatizante do Benfica virar aficionado do FC Porto ou do Sporting? Por isso também é que existem mais crentes na bola do que piedosos na política.
27 junho 2011
Crónica de João Malheiro
Gomes & Gomes
“Finito”. A sentença foi de Tomislav Ivic. Fernando Gomes, bi-Bota de Ouro do FC Porto , recebia guia de marcha. Foi inocente o veredicto do técnico croata? Não é crível, supõe-se que tenha havido prévia sintonia com o presidente do clube. Para mais, Fernando Gomes até seria alvo de um processo disciplinar, cujo desfecho Guilherme Aguiar, então dirigente portista, não teve mesmo recato em previr, antes mesmo de serem ouvidas as testemunhas.
Fernando Gomes rejeitou uma proposta do Benfica, também de outros emblemas, estabeleceu-se em Alvalade. Fez mais coisas, outras coisas, muitas coisas, só não ganhou coisas. Ganhou, de seguida, anos a fio, a antipatia dos responsáveis azuis e brancos, que não dos sócios e simpatizantes. Regressou recentemente ao FC Porto, sem que se saiba quem protagonizou a contrição.
Outro Gomes, o Nuno do Benfica, está de saída da Luz. Jorge Jesus não disse “finito”, mas percebeu-se que o achava. Processo disciplinar não houve, a Nuno Gomes até foi proposto um cargo na estrutura vermelha. O mais emblemático futebolista do clube na última década recusou a oferta. Prepara-se para jogar, numa decisão pessoal, uma ou duas temporadas ainda. O povo benfiquista parece abalado, chutando mais brados com a emoção do que com a razão.
Nuno Gomes, ao invés do outro Gomes, não vai demorar a volver à Luz. É uma inevitabilidade que a história centenária do Benfica adestra. Só que o imbróglio foi mal governado, provocou um ruído desmedido, cujas consequências ainda estão por avaliar. Os golos na própria baliza do Benfica fragilizam o clube e engordam emocionalmente o seu principal opositor. Haja mais ou menos Gomes, de um lado ou de outro, a verdade é que Gomes jamais poderia ser sinónimo de controvérsia na Luz, sobretudo na actualidade. Faltou atenção, ganhou a tensão.
11 maio 2011
Crónica de João Malheiro
Que vermelho?
O FC Porto repete, o Benfica remete, o Braga promete. O FC Porto regressa a uma final europeia, após um trajecto absolutamente notável. O Benfica frustra expectativas, depois de um mês com atribulações múltiplas. O Sporting de Braga agita louvores no seguimento de três eliminatórias formidáveis.
O FC Porto é confirmação, o Benfica é desilusão, o Braga é sensação. O FC Porto tem protagonizado a melhor temporada do seu historial. O Benfica tem claudicado nos momentos decisivos. O Braga tem revelado sabedoria nos despachos capitais.
O FC Porto passeia, o Benfica arreia, o Braga devaneia. O FC Porto quase só sabe ganhar, o Benfica quase não sabe ganhar, o Braga ganha quando tem que ganhar. O FC Porto tem tido um ano conforme, o Benfica tem tido um ano disforme, o Braga tem tido um ano enorme.
O FC Porto encanta, o Benfica desencanta, o Braga canta. O FC Porto encanta na excelência das suas últimas exibições. O Benfica desencanta na oscilação das suas últimas prestações. O Braga canta na melopeia das suas últimas realizações.
O FC Porto já venceu e tem mais para vencer. O Benfica já perdeu e não tem mais para perder. O Braga pode vir a perder, só que já venceu. O ano, doméstico e europeu, com excepção da Taça da Liga, ganha de forma competente e justa pelo Benfica, termina colorido de azul e de vermelho… de Braga.









