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24 agosto 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva



Não matem a Melga

A 1.ª jornada cumpriu-se. Benfica, Porto, Braga e Sporting empataram. Em breves notas, direi que o Benfica se apresentou confuso, parecendo que o excesso de médios e avançados baralhou Jesus. O FC Porto foi sempre uma equipa banal, exceção feita às jogadas de Hulk. O Braga fez a sua obrigação, beneficiando dos erros do adversário. E o Sporting foi, dos 4, o que praticou melhor futebol, embora inofensivo.

Não tenho lido os jornais, mas é fácil imaginar que os bombos da festa desta jornada foram Melgarejo e Jorge Jesus. Este já tem fama de querer “inventar”. Inventou um “grande” guarda-redes chamado Roberto, inventou um “grande” defesa esquerdo chamado Emerson, e agora quis inventar um 2.º Fábio Coentrão. E sucedeu o que se viu.

Melgarejo foi, só, o melhor jogador do Braga: marcou um golo e fez a assistência para o outro. Pior estreia era impossível. Mas, até por isso, acredito que foi mau de mais para se tirarem conclusões. Melgarejo é um ótimo jogador. Não sei se será um grande lateral-esquerdo, mas seria um erro os benfiquistas queimarem-no no início da carreira.

Quanto a Jesus, só lhe fica bem ser criativo. O futebol está farto de treinadores sem chama nem imaginação. Engana-se às vezes? É verdade. Mas quantos grandes jogadores já fez? E em tempo de vacas magras, é legítimo tentar aproveitar ao máximo os jogadores disponíveis, em lugar de comprar outros por fortunas.

Claro que, neste princípio, há uma incoerência: por que teima o Benfica em gastar tanto dinheiro em extremos? Salvio e Ola John custaram mais de 20 milhões. Ora o Benfica já tinha Nolito, Gaitán, Bruno César, Enzo Pérez, Djaló, o próprio Melgarejo. Seria preciso mais algum?

In Record

27 maio 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Contra-ataque

Quando há algumas semanas escrevi um texto sobre as vantagens do contra-ataque, não sonhava até que ponto esta época futebolística me daria razão.

Logo à partida, foi o contra-ataque que levou o Chelsea à vitória na Champions: os blues jogaram à defesa nos dois jogos contra o Benfica, jogaram à defesa nos dois jogos contra o Barcelona, jogaram à defesa na final contra o Bayern – e foram ganhando sempre mercê de golpes infligidos em contra-ataque.

E o Manchester City? O Manchester City venceu o campeonato inglês com um modelo de jogo assente no contra-ataque. Aliás, não é por acaso que os treinadores do Chelsea e do City – Di Matteo e Mancini – são italianos, ou seja, formados na escola do futebol de contragolpe.

E o próprio Mourinho partilha destes princípios, embora no Real Madrid tenha tido que os suavizar. Mas lembremo-nos da sua passagem pelo Inter e pelo Chelsea (onde era acusado pela imprensa inglesa de ganhar sempre por números mínimos).

No extremo oposto estão as equipas ofensivas. Este ano foi terrível para todas. Logo à partida para o Manchester United, que perdeu o campeonato inglês e fez uma péssima carreira europeia. Mas os outros não fizeram muito melhor: o Bayern Munique perdeu o campeonato alemão e a Champions, o Barcelona perdeu o campeonato espanhol e não chegou à final da Champions, o Benfica perdeu o campeonato português e foi eliminado da Champions pelo Chelsea.

Que mais será preciso dizer para ilustrar as vantagens do futebol de contra-ataque – e os riscos que correm hoje as equipas que jogam em ataque continuado? E isto deve fazer pensar homens como Ferguson, Guardiola… e Jesus.

In Record

19 maio 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Melhor marcador

O troféu de melhor marcador tem algum prestígio: nele figuram alguns dos grandes goleadores portugueses e os melhores estrangeiros que por cá passaram. Assim, o desempate entre Cardozo e Lima era um dos atrativos da última jornada.

O Benfica jogava em Setúbal – e aos 90 minutos Cardozo estava a zero, apesar de ter rematado 11 vezes e atirado uma bola à barra. Mas nesse momento veio o prémio: Saviola passou, Cardozo recebeu, tirou o guarda-redes da frente, insistiu, tirou um defesa da frente, chutou com o pé direito e marcou.

Metade deste golo foi de Jesus. Vendo a floresta de pernas em que se tornara a área do Vitória, Jesus recuou a equipa para dar espaço na frente ao paraguaio. E na parte final meteu Saviola, que joga com Cardozo de olhos fechados. E foi assim que o golo surgiu: espaço na área, bola em Saviola – e o resto é sabido.

Em Alvalade, até aos 87 minutos Lima também não marcara. Só que nesse minuto fatídico ele acorreu a um centro, lançou-se para o chão, ganhou um penálti – e marcou-o. O duelo pelo cetro de melhor marcador reacendia-se. E acabou decidido pelo regulamento, com Cardozo a ganhar por ter menos tempo de jogo.

Chegado aqui, pergunto: o que teria sucedido se Cardozo não tivesse marcado em Setúbal? Lima seria o melhor marcador com um penálti inventado. E o que não diriam os benfiquistas se, depois de terem perdido com o FC Porto com um golo em fora-de-jogo, Cardozo perdesse o título de melhor marcador com um penálti falso?

Os jogos hoje decidem-se por detalhes. Ora, nesses detalhes, as decisões dos árbitros podem ter um papel decisivo.

In Record

15 maio 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


O mito

Mais uma vez o FC Porto venceu um jogo com a tripla “Hulk/penálti/expulsão de adversários”, que levou a equipa à conquista deste campeonato. A grande dúvida para a próxima época, além da ação dos árbitros, reside pois na pergunta: o que será o FC Porto sem Hulk?

O Sporting reentrou nos carris com Sá Pinto (quem diria?) e parece capaz de discutir a próxima Liga. Trata-se de uma equipa matreira, que defende com muitos e é velocíssima a explorar o espaço nas costas dos adversários.

O Braga pagou na parte final da época a felicidade que teve durante muitos jogos, vencendo 13 vezes consecutivas. É também uma equipa manhosa, que se fecha bem atrás e explode quando parte para a frente.

Finalmente, o Benfica. O jogo com o Leiria mostrou que o “grande plantel” do Benfica é um mito. Artur e Maxi são ótimos, mas Luisão e Garay são lentos e o lateral-esquerdo não existe. Javi García baixou muito, Witsel é bom mas às vezes parece perdido, Matic tem dias e Aimar precisa de ser gerido com pinças. No ataque, Gaitán é muito dotado mas intermitente, Nolito é aproveitável mas trapalhão, Nélson Oliveira está verde, Rodrigo acabou em S. Petersburgo, Saviola mostrou por que foi pouco utilizado, Cardozo é desconcertante, Bruno César é o mais regular mas não é um fora-de-série.

O Benfica precisa de uma renovação no plantel. Repare-se que nenhum avançado ganhou no um-para-um contra os juniores do Leiria! Assim, ou a dinâmica coletiva funciona e a equipa faz exibições brilhantes, ou não engrena e não tem jogadores que resolvam os jogos. Essa foi uma grande limitação este ano face ao FC Porto, que quando faltava o coletivo tinha Hulk para resolver.

In Record

05 maio 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Jesus e Vítor

Jorge Jesus e Vítor Pereira vão ter provavelmente o mesmo destino, embora por razões opostas.

Jesus pôs o Benfica a jogar mas não conseguiu este ano ser campeão; Vítor Pereira é campeão mas não pôs o FC Porto a jogar.

Com Jesus, o Benfica fez algumas das mais notáveis exibições dos últimos 20 anos, marcou golos para todos os gostos e voltou a ter um nome na Europa; com Vítor Pereira, o FC Porto perdeu algum do prestígio conquistado na Europa e não fez uma única exibição de encher o olho.

Jesus foi prejudicado pelos árbitros em vários jogos e, se não fosse isso, talvez estivesse hoje a festejar o título de campeão; Vítor Pereira festejou o título, mas se não fossem algumas ajudas dos árbitros talvez estivesse hoje a lutar com o Braga pelo 2.º lugar.

Jesus foi o grande obreiro dos sucessos do Benfica, que resultaram de uma dinâmica coletiva muito forte; Vítor Pereira não foi o obreiro dos sucessos do FC Porto, que resultaram sobretudo do talento de Hulk e de penáltis assinalados em momentos decisivos.

Tudo isto é verdade, mas os adeptos não gostam de explicações mas de resultados. E os adeptos do Benfica dizem que a equipa teve cinco pontos de avanço e os perdeu – e acrescentam que, se Jesus não conseguiu ser campeão em ano de crise do FC Porto, nunca mais o conseguirá.

O próximo treinador da Luz será, quase de certeza, pior. Mas essa é a questão que nenhum benfiquista quer hoje enfrentar, porque o necessário, neste momento, é arranjar um culpado. E, como Cristo, ele só pode ser Jesus.

In Record

19 abril 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Eles não aprendem

Durante anos esforcei-me por explicar uma evidência: só com paciência e estabilidade o SL Benfica conseguiria atingir o patamar do FC Porto. Por isso, disse que Vieira teria de ficar muito tempo na liderança e Jesus deveria ser o Ferguson do Benfica – que esteve 5 anos em Manchester sem ganhar nada. Mas a emoção em Portugal sobrepõe-se à racionalidade.

1. Critica-se o facto de Jesus ter desperdiçado 5 pontos de avanço. Até parece que foi outro que os ganhou e Jesus que os esbanjou. Ora esses pontos de avanço foram conquistados por… Jesus.

2. Diz-se que Jesus falha nos momentos decisivos. Só que os outros não falharam porque não chegaram... aos momentos decisivos.

3. Afirma-se que Jesus tinha obrigação de ganhar porque tem um plantel caríssimo. Mas esse plantel é quase dez vezes mais barato do que o de equipas (como o United) que o Benfica eliminou. E além disso foi pago em boa parte com o dinheiro “ganho” por Jesus. Quanto embolsou o Benfica nesta Champions ou com a venda de jogadores que ele potenciou, como Di María, David Luiz ou Coentrão? Já se esqueceu o tempo em que os jogadores vinham para a Luz e perdiam valor em vez de o ganharem?

4. Em que épocas recentes a equipa do Benfica atingiu o patamar exibicional médio dos últimos 3 anos?

5. Quem poderá fazer melhor que Jesus, que foi o treinador do Benfica nos últimos 60 anos com maior percentagem de vitórias (70%)?

Mas todos os argumentos são inúteis. Quando não corre tudo bem, há que arranjar um bode expiatório. E esse hoje chama-se Jesus. O resultado é previsível: o treinador que vier será despedido ao fim de um ano, depois acontecerá o mesmo ou pior – e assim por diante. Não há nada a fazer.


In Record

05 abril 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


O bom caminho

No ser humano há uma enorme atração pela asneira. Se alguém diz qualquer coisa com um arzinho de novidade, mesmo que seja um grande disparate, é certo e sabido que vem logo uma multidão repetir o que foi dito.

Vem isto a propósito da afirmação de que “Jesus geriu mal o plantel”. Ora não deve ter havido esta época uma equipa que rodasse tanto os jogadores como o Benfica. Por poupança, por lesão ou por castigo, os nomes têm-se sucedido em todos os sectores, ao ponto de Jesus já não ter jogadores para rodar. No centro da defesa jogaram Luisão, Garay, Jardel e Miguel Vítor (estando agora três fora de combate!). Nas laterais atuaram quase sempre Maxi e Emerson, mas também jogou Capdevila. No meio-campo alternam Javi, Witsel, Aimar e Matic. Nas alas revezam-se permanentemente Gaitán, Bruno César e Nolito. No centro do ataque já alinharam Cardozo, Nélson Oliveira e Rodrigo. Assim, nos 10 lugares de campo já houve 17 titulares. Mais era difícil.

O problema do Benfica é outro. O Benfica está a pagar o preço do êxito. Há muitos anos que não havia uma época assim, com a equipa a chegar a abril com hipóteses de vencer três competições. E, mesmo que não ganhe nada (só pode vencer um), este é o fruto de um trabalho de fundo que começa a render.

É assim que se atinge o topo. Até porque, mesmo com o enorme desgaste físico e mental a que não estava habituada, a equipa consegue performances notáveis – como a jogada que ditou o 2-1 contra o Braga, um hino ao futebol realizado mesmo no fim do jogo e apesar do enorme balde de água fria que fora o golo do empate.

O Benfica está no bom caminho. Agora é continuar.

In Record

22 março 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva



A desforra

O Benfica-Porto de ontem à noite, do ponto de vista competitivo, valia pouco. A Taça da Liga ainda é considerada uma prova menor, uma espécie de prémio de consolação para quem não consegue ganhar as provas “a sério”.

Mas, do ponto de vista simbólico, o jogo tinha um valor importante. Primeiro, dada a rivalidade entre o FC Porto e o Benfica, que assume aspetos paranoicos Depois, dado o recente desfecho do jogo para o campeonato, que deixou os benfiquistas revoltados. Finalmente, pela incerteza que rodeia o fim da época, com 3 equipas a lutarem pelo título nacional e a necessitarem de “tónicos” que as tornem mentalmente mais fortes.

Um Benfica-Porto é como um Real Madrid-Barcelona. O Real pode ganhar muitos jogos – mas basta uma derrota frente ao Barça para lançar o desânimo na capital espanhola. Com o Benfica passa-se o mesmo: as derrotas frente ao FC Porto são as que pesam mais no moral dos adeptos.

Ninguém esquece os 5-0 do Dragão na época passada – como, em Madrid, ninguém esqueceu os 5-0 de Camp Nou.

Ontem, na Luz, a história não se repetiu. Num jogo emocionante, em que começou a ganhar, depois esteve a perder, e por fim conseguiu inverter o resultado (depois de atirar três bolas aos ferros!), o Benfica desforrou-se da derrota de há três semanas, reforçando a ideia de que esse resultado foi injusto.

E se a Taça da Liga é uma coisa e o campeonato outra, o resultado de ontem vai ter algum peso na definição do título. A vitória sobre o FC Porto diminuiu psicologicamente a diferença de dois pontos que, na prática, o Benfica ainda leva de atraso.

In Record

17 março 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Contra-ataque

Antes desta jornada eu tinha planeado escrever uma crónica chamada “O triunfo do contra-ataque”. Ora, o fim-de-semana confirmou tudo o que ia dizer.

As táticas de contra-ataque (a que Jesus chama contragolpe) são hoje as mais eficazes. As equipas que jogam em ataque continuado veem-se e desejam-se para furar as barreiras defensivas dos opositores, que povoam o último terço do campo e não dão qualquer espaço para jogar. Em contrapartida, os que jogam sobre a defesa ficam com muito espaço nas costas dos adversários, e se tiverem extremos rápidos criam facilmente oportunidades de golo.

Foi isto que se passou nos jogos do FC Porto e do Benfica: o golo da Académica foi marcado em contra-ataque, o do Paços de Ferreira também. Mas note-se que o golo do Benfica também resultou de um contra-ataque: fuga de Nélson Oliveira pela direita, centro rasteiro e Gaitán a surgir no meio a empurrar para golo. Em ataque continuado o Benfica não tinha criado uma ocasião tão boa.

E não só os pequenos jogam assim. O Manchester City marcou 3 (dos 4) golos ao Porto em contra-ataque. O Sp. Braga também tem aí a grande arma: bom povoamento defensivo, lançamento para a frente, correria de Lima e golo. Tudo simples. E o próprio Mourinho jogou em contra-ataque no FC Porto, no Chelsea e no Inter. Há ainda o caso do Barcelona que, jogando sempre em ataque continuado, leva 10 pontos de atraso na Liga espanhola – apesar de ter Messi...

O campeonato português vai decidir-se ombro-a-ombro. Os mais pragmáticos serão campeões. Jogar de peito aberto nesta altura é um enorme risco. FC Porto e Benfica que aprendam a lição.


In Record

13 março 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


O sonho de volta

Quando o Benfica estava a fazer uma época de sonho, a tragédia abateu-se sobre a equipa.

Tudo começou em S. Petersburgo, quando Bruno Alves investiu brutalmente contra Rodrigo e o afastou do jogo. Tive logo a perceção de que a sorte para o Benfica estava a mudar.

Primeiro foi a derrota através de um golo estúpido no dealbar desse jogo na Rússia, depois foi o desaire em Guimarães, o empate em Coimbra e a derrota contra o FC Porto, em que tudo sucedeu: a lesão de Aimar, a lesão de Garay, a expulsão de Emerson e um golo em fora-de-jogo.

Nesta fase decisiva da época, tudo correu mal ao Benfica: as arbitragens, uma expulsão cirúrgica e muitas lesões. Javi García (uma pedra decisiva) esteve três jogos fora, Garay (que era o melhor defesa) foi para o estaleiro, Aimar (que é insubstituível) está outra vez magoado, Rodrigo (que estava a ser o melhor avançado) ficou a 50% depois da agressão em S. Petersburgo.

Foi demais!

Depois disto, só faltava Jesus sair para a destruição ser completa. Para chegar ao fim um projeto que custou tanto a construir e projetou tantos sonhos.

A esperança voltou a renascer na noite de ontem, com a vitória sobre o Zenit. Quatro dias depois da infortunada derrota com o FC Porto, este sucesso teve uma grande virtude: inverteu um ciclo maldito. E esclareceu uma dúvida: a equipa não estava afinal mentalmente tão fraca como se temia.

Daqui para a frente, o Benfica tem ainda tudo em aberto: a Liga portuguesa e a Champions League.

E se a Champions é uma lotaria, no nosso campeonato uma coisa é certa: se o Benfica ganhar todos os jogos até ao fim, tem grandes hipóteses de ser campeão. Se não ganhar, a culpa é sua...

In Record

21 fevereiro 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva



Amar Aimar

Todas as massas associativas têm os seus bem-amados e os seus mal-amados. Na Luz, Oscar Cardozo, mesmo quando marca golos, é criticado – e Aimar, mesmo quando comete erros, é endeusado.

Sou vizinho de Aimar, pelo que posso testemunhar que é um homem simpático, afável e bom chefe de família. Tem três filhos pequenos, aos quais dá atenção. Dentro do campo, como todos veem, é um senhor. Mas já tem 32 anos e é fisicamente frágil, precisando de ser gerido com pinças. É capaz do melhor e do pior: tanto pode pôr ordem na equipa e lançá-la para a vitória como pode perder bolas em zonas perigosas.

Entretanto, o nome de Aimar no Benfica vai ficar ligado a outro, não argentino mas bem português: Jorge Jesus. Quando Jesus chegou à Luz, Aimar era um jogador em fim de carreira, que parecia já não ter muito para dar. Ora Jesus deu-lhe uma segunda vida.

Como deu uma nova vida ao Benfica – que em 2009 era uma equipa em trajetória descendente, com o desgaste de muitas épocas com péssimas classificações (apenas um título conquistado em 10 anos, vários terceiros lugares e um sexto), e hoje é uma equipa alegre, pujante, capaz de exibições sublimes.

Aimar, que agora renovou, já não vai ficar muito tempo na Luz. Mas Jesus pode ficar. Independentemente do que suceder esta época, já se viu que o Benfica com ele é outra loiça. Jesus já ganhou 100 jogos, tornando-se o melhor treinador da história do Benfica, com 71% de vitórias nos jogos disputados, à frente dos lendários Bela Guttmann (70%), Eriksson (68%) e Otto Glória (65%). Luís Filipe Vieira deveria, pois, fazer com ele um contrato a longo prazo – tornando-o, como um dia escrevi, o Ferguson do Benfica.


In Record

10 fevereiro 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva



Penálti?

Os penáltis (marcados ou não marcados) são os lances que provocam maior polémica no futebol. Ainda no sábado, Domingos Paciência justificava a derrota frente ao Gil Vicente com o facto de o árbitro ter marcado um penálti a favor do adversário e ignorado outro a favor do Sporting.

Ora, não fica bem aos treinadores justificarem os maus resultados com erros dos árbitros. Além disso, sendo o penálti uma falta pesada, que normalmente dá golo, os árbitros têm de ser muito exigentes na sua apreciação. O referido jogo de Alvalade é bom para ilustrar esta ideia. O penálti contra o Sporting resultou do derrube claro de um jogador do Gil que ia isolar-se em posição frontal à baliza; o penálti reclamado por Domingos foi um toque duvidoso num jogador do Sporting que estava de costas para a baliza, em posição lateral e no limite da área, numa jogada que não tinha perigo nenhum.

Os legalistas dizem que os árbitros devem marcar cegamente todas as faltas na área, quer sejam mais ou menos graves. Mas, do mesmo modo que o juiz não pode aplicar a mesma pena ao tipo que rouba uma carcaça num supermercado ou ao ladrão que assalta uma senhora para lhe roubar a mala, também o árbitro deve ter o bom senso de não marcar penáltis por dá cá aquela palha. Porque isso pode adulterar gravemente a verdade desportiva.

Uma nota para concluir: o jornalista da SIC que relatou esse jogo de Alvalade parecia um adepto do Sporting a gritar na bancada, repetindo seis vezes que fora penálti e que o jogador do Gil Vicente devia ter sido expulso. Ora, os jornalistas devem ser um fator de moderação e não o contrário, alimentando o fanatismo dos adeptos.

In Record

03 fevereiro 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Uma lição


A derrota do FC Porto em Barcelos constituiu uma lição para muita gente. Depois das dificuldades do Benfica para vencer o Gil Vicente na Luz, alguns portistas diziam arrogantemente que o Gil tinha dado “um banho de bola” ao Benfica.

Simultaneamente, os comentadores afetos ao Porto diziam que o seu clube tinha feito contra o Guimarães um dos melhores jogos da época, querendo convencer-se a si próprios de que, sem Hulk, o FC Porto ainda podia ser mais forte.

Ora, viu-se.

E isto devia servir de lição a todos os adeptos do futebol, aconselhando-os a ser mais comedidos. De que vale estar, num domingo, a atirar pedras aos adeptos do rival para, no domingo seguinte, as pedras estarem a cair-nos em cima?

Um adepto do Sporting dizia-me no princípio de dezembro que Jesus não chegaria ao Natal, pois perderia com o Manchester United, perderia a seguir com o Sporting, e ficaria com a época estragada. Ora, se cheirava a heresia dizer que Jesus não chegava ao Natal, o que se passou foi o contrário e quem veio a ficar na berlinda foi o treinador do Sporting.

O Benfica está hoje no topo. Mas os benfiquistas também não deverão cantar de galo (ou de águia).

Até porque 5 pontos podem ser imenso ou muito pouco. Se o Benfica derrotar o Porto na Luz, os 5 transformam-se em 8 e equivalem a 9 (porque em caso de desempate o Benfica ganhará). Mas se o FC Porto vencer na Luz, os 5 serão apenas 2 – e valem por 1.

O jogo de Barcelos foi uma lição para todos: não humilhes hoje o teu adversário, porque essa humilhação voltar-se-á amanhã contra ti.

In Record

28 janeiro 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Aquela defesa!


O arranque da 2.ª volta da Liga nada alterou: o Benfica e o FC Porto são os únicos candidatos ao título, o 3.º lugar é disputado por Braga, Sporting e Marítimo.

O Sporting foi, num ápice, do céu ao inferno. O céu começou no milagre da capital do móvel, Paços de Ferreira, quando em poucos minutos o resultado passou de 0-2 para 3-2. Se o Sporting perdesse, Domingos teria os dias contados. Ganhando, iniciou um segundo estado de graça.

O calvário começou no “inferno da Luz”. Foi a partir dessa derrota que o Sporting iniciou a série de resultados negativos que conduziria à comovente e patética conferência de imprensa de Domingos, na semana passada. Aí, os bastidores do Sporting ficaram à vista de todos.

Quanto ao líder da Liga, o Benfica, tem tido sorte este ano. E voltou a tê-la no domingo passado. O mais preocupante é a facilidade com que os adversários entram na sua área e criam perigo. O Gil Vicente, mesmo jogando com toda a equipa à defesa, conseguia galgar com 2 ou 3 jogadores os 50 metros que o separavam da baliza do Benfica e chegar perto do golo!

Parece mentira mas é verdade. Basta dizer que o guarda-redes do Gil Vicente não fez uma única defesa (as 3 bolas que foram à baliza deram golos), enquanto Artur fez 5 defesas, uma delas “impossível”.

António Tadeia dizia há dias que são os ataques que ganham os jogos mas as defesas que ganham os campeonatos. Se for assim, com esta defesa do Benfica, o FC Porto – que tem uma defesa de betão – será campeão. Rima e pode ser verdade.



In Record

24 janeiro 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Mou e os limões


Esta é uma semana decisiva para os dois grandes de Espanha. Por duas vezes em 8 dias vão medir forças. E a equipa que sair vencedora do duplo duelo será vista como a melhor, não só de Espanha mas até do Mundo.

Mourinho tem falhado quase sempre nestes dérbis. Já sofreu goleadas e humilhações como em nenhum outro momento da sua carreira. Não simpatizo muito com ele: a sua encenada agressividade e a sua presunção irritam-me. Também não gosto de ver a reverência com que os jornalistas o tratam, chamando-lhe constantemente Special One. O culto da personalidade incomoda-me – e um pouco de humildade não lhe ficaria mal.

Mas, independentemente disto, considero Mourinho talvez o melhor treinador de todos os tempos. Ter sido campeão da Europa com o FC Porto e com o Inter, e duas vezes campeão de Inglaterra com o Chelsea, foram autênticos milagres. Qualquer deles já seria difícil, todos juntos constituem uma performance irrepetível.

No Real Madrid, ele pegou num naipe de estrelas que se serviam do nome do clube para brilharem – e virou-as do avesso, pondo-as verdadeiramente ao serviço da equipa. Deu agressividade, consistência e espírito coletivo ao conjunto, sendo o primeiro treinador a consegui-lo em muitos anos.

Claro que estes sucessos têm um reverso. Mourinho seca as equipas por onde passa. Ele espreme os limões até ao fim, não ficando nenhum sumo para os seus sucessores. O FC Porto sofreu muito depois da sua saída, o Chelsea caiu a pique, o Inter voltou à mediocridade europeia. E até os jogadores se eclipsam. Derlei perdeu-se, Drogba afundou-se, Milito desapareceu.

Mas, para já, vejamos o que o jogo de hoje nos reserva.

In Record

16 janeiro 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva



Portugueses


Há 15 dias escrevi sobre uma lei em preparação que limitará a entrada de futebolistas estrangeiros em Portugal. O treinador do Benfica, Jorge Jesus, pegou no mote, e o tema foi objeto de grande polémica. A questão é decisiva, porque um dos meios de viabilização dos clubes portugueses é comprar jovens jogadores em mercados “baratos” (como os sul-americanos), adaptá-los ao futebol europeu, pô-los na “montra” e vendê-los caro.

Para já, a polémica que se gerou pode servir de alerta aos governantes para não cometerem erros que podem sair caro.

Hoje vou falar sobre um tema quase oposto: a vantagem dos treinadores portugueses.

Durante muito tempo, os três grandes acharam que os portugueses não tinham categoria para treinar as suas equipas, e os estrangeiros sucediam-se – de Bela Guttman a Eriksson, de Jimmy Hagan a Trapattoni, de Bobby Robson a Fernandez, de Mortimore a Camacho, de Co Adriaanse a Quique Flores.

Quase só Artur Jorge e Mourinho eram considerados com “estatuto” para treinar Benfica, Porto e Sporting. Ora esta ideia morreu. Os três grandes são hoje treinados por portugueses – e bem treinados. O Benfica de Jesus está a fazer uma das suas melhores épocas de sempre, o Sporting de Domingos está a praticar um futebol como há muito não se via em Alvalade, e só o FC Porto mostra alguma quebra em relação ao ano passado – mas esse Porto também era, recorde-se, treinado por um português. E, na última época, 3 dos 4 semifinalistas da Liga Europa tinham portugueses à frente!

A conclusão a tirar é que precisamos de estrangeiros para jogar e de portugueses para treinar. Difícil de perceber?

In Record

11 janeiro 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva




Porto da Costa

O seu último apelido confunde-se com o do clube: ele é “da Costa” e o clube é o FC Porto. Ora, um porto fica naturalmente na costa. O outro apelido é que não lhe assenta bem: sendo “Pinto”, ele normalmente canta de galo. E que galo!

Pinto da Costa guindou o seu FC Porto a um plano nunca visto, pelo que o Prémio Carreira que agora lhe foi entregue no Dubai é justíssimo.

Tenho-lhe feito várias críticas. Acho que exagera ao impor companheiras de ocasião à tradicional sociedade nortenha, chegando a convidar ex-Presidentes para casamentos que se revelam farsas.

Mostra, também, inacreditável desfaçatez ao falar dos árbitros – ele que só não foi condenado no Apito Dourado porque as escutas telefónicas que o denunciavam não foram aceites pelo tribunal. Mas todo o país as ouviu – e percebeu como ele lida (ou lidava) com os homens do apito. Se alguém em Portugal nunca mais devia falar desses espécimes era, pois, o presidente do FC Porto. Mas fá-lo sem nenhum problema de consciência.

De qualquer modo, ele ficará para a História do futebol como um dos maiores dirigentes de sempre. E até os defeitos que exibe, fazendo parte inseparável da sua identidade, acabam por ser relativizados.

Ao princípio houve quem dissesse: “Em terra de cegos...” Mas ele fez questão de desmentir categoricamente os que o minimizavam, mostrando que tem os dois olhos bem abertos. Pegando num clube quase regional, Pinto da Costa projetou-o primeiro no país, depois na Europa e finalmente no Mundo – afirmando-se no patamar onde o futebol atinge o grau máximo de exigência.

Perante isto, há que lhe tirar o chapéu... e procurar esquecer o resto. 

In Record



03 janeiro 2012

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Estrangeiros
Como o semanário “Sol” noticiou, o Governo está a ultimar uma lei que visa estimular a presença de futebolistas portugueses em clubes nacionais e, ao mesmo tempo, dificultar a entrada de estrangeiros em Portugal.

O primeiro objetivo é indiscutível.

O segundo, tal como está previsto, é um tremendo disparate. Diz o documento que servirá de suporte à nova lei – preparado pelo ex-ministro José Luís Arnaut – que a vinda dos jogadores estrangeiros terá em conta, por exemplo, o número de internacionalizações.

Ora isto será válido para campeonatos como o inglês ou o espanhol, em que há clubes muito ricos que podem comprar futebolistas já feitos, como Cristiano Ronaldo.

Mas os clubes portugueses têm de prosseguir uma política completamente diferente. Não podem comprar estrelas já feitas: têm de descobrir “diamantes” por lapidar em mercados “pobres”, como o Brasil, a Argentina ou o Uruguai, lapidá-los, adaptá-los ao ritmo do futebol europeu e mostrá-los na Europa – exportando-os depois para Inglaterra, Espanha ou Itália por dez vezes o preço que custaram.

É esta a única possibilidade que têm os clubes portugueses – e foi assim que Benfica e FC Porto ganharam fortunas com Di María, David Luiz ou Falcão.

Fazer o contrário, indo buscar jogadores consagrados, normalmente dá mau resultado – pois, em geral, são futebolistas em fim de carreira, que só vêm para Portugal desvalorizar-se (como Capdevila, por exemplo).

Comprar jovens talentosos na América do Sul (ou em África) e promovê-los na Europa é o caminho que se apresenta aos nossos clubes. Pensar que poderemos ter aqui grandes estrelas mundiais é uma enorme ilusão.

In Record

27 dezembro 2011

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva



Estranho FC Porto

Três dos últimos jogos do FC Porto tiveram histórias muito parecidas: a equipa jogou esplendidamente mas viu-se e desejou-se para conseguir um resultado positivo.

Confesso que não via há muito tempo uma equipa jogar com tanta entrega, sufocar tanto os adversários, recuperar a bola com tanta rapidez como a equipa do Porto nos jogos contra o Zenit, o Olhanense e o Marítimo.

O FC Porto fez tudo bem: cilindrou, atacou, centrou por alto e rasteiro, da direita e da esquerda, rematou de longe, ensaiou tabelas na área – mas acabou os jogos com o credo na boca.

Nestes três encontros, embora asfixiando os adversários, não os deixando estar mais de um minuto com a bola nos pés, o FC Porto esteve mesmo à beira de fazer péssimos resultados.

Em casa, contra o Zenit, ao cair do pano, o guarda-redes Helton cortou fora da área com a pontinha da bota um passe que deixaria Danny isolado, sem guarda-redes na baliza. O golo faria 0-1.

Em Olhão, no último lance do jogo, um avançado local falhou tão escandalosamente um golo de baliza aberta que alguns telespectadores fecharam a TV pensando que o Porto tinha empatado 2-2.

Neste fim-de-semana, no Dragão, aos 78m, quando o resultado estava em 0-0, um avançado do Marítimo apareceu isolado e acertou na trave.

Portanto, nestes três jogos em que deu três lições de futebol, o FC Porto acabou por precisar de ser feliz para ganhar (ou não perder).

A que se deverá isto?

Há um problema óbvio: a equipa parece ter perdido a chave que abria as balizas adversárias. E esta situação deixa os adeptos intranquilos para 2012: se a equipa tem tanta dificuldade em ganhar quando joga bem, o que sucederá quando jogar mal? 

In Record

15 dezembro 2011

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


Cá e lá fora

Com os três grandes a ganharem com felicidade e pela diferença mínima, olhamos lá para fora, para Inglaterra e para Espanha.

Em Madrid, o Real mostrou mais uma vez que não chega para o rival Barcelona. Enquanto Mourinho faz jogo psicológico, Guardiola mostra a superioridade em campo. O Barcelona parece uma aranha perante um inseto: vai asfixiando o adversário até o anular por completo. E Ronaldo falhou novamente num jogo decisivo.

Em Manchester, a época tem corrido mal a Ferguson. Perdeu 6-1 em casa contra o rival da cidade, foi afastado da Champions e eliminado da Taça da Liga por uma equipa da 2.ª Divisão.

Mourinho e Ferguson são dois dos melhores treinadores do Mundo e treinam alguns dos melhores jogadores do Mundo. Mesmo assim perdem jogos, são eliminados por equipas fracas e humilhados pelos rivais. Mas não deixam por isso de ser bons.

Veja-se agora o que se passa em Portugal. Vítor Pereira tem a cabeça no cepo e Jorge Jesus é atacado por alguns adeptos. Ora Vítor Pereira, tendo deixado cair o FC Porto em relação à época passada, mesmo assim lidera o campeonato. E Jesus está a fazer uma das melhores épocas do Benfica de sempre: ganhou a série da Champions, está no topo do campeonato a par do FC Porto e só perdeu um jogo oficial esta época (fora de casa e pela diferença mínima).

O Benfica está a jogar pior do que há um ano? Está. Mas há um ano os sócios não diziam que o importante são os resultados e não as exibições? Não era isso mesmo que pediam: bons resultados, mesmo com exibições menos boas? Jesus será preso por ter cão e preso por não ter?

In Record
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