08 junho 2011

O Voo da Águia_ Marta Rebelo


O dia de Portugal

O fim-de-semana foi pródigo em eventos de relevo nacional. Com as devidas e muitas diferenças, o nosso futuro de médio prazo enquanto país era ontem decidido nas urnas, e o nosso futuro de curto e médio prazo enquanto seleção de futebol foi decidido no sábado, na Luz.

Deixemos a política nacional para os seus comentadores. Vejamos como nos saímos no estádio do Glorioso: bem. Eficientes, a jogar o futebol possível num final de temporada cansativo para todos, atingimos um resultado impensável há alguns meses: o primeiro lugar no nosso grupo de classificação para o Europeu de 2012. Quem diria, quando Carlos Queiroz e Agostinho Oliveira estavam à frente da Seleção, que seria ainda possível salvar a face lusa, tão limpa de vergonhas qualificativas desde 1996? Ninguém. A verdade é essa. E Paulo Bento teve o condão de repor a “normalidade democrática”. Chegou, ouviu e foi vencendo.

Na verdade, não fizemos um jogo fabuloso. Cristiano Ronaldo não entrosou com Fábio Coentrão, para sonos menos felizes de Mourinho ou de quem os vê juntos, a fazer “pareja” na ala esquerda do Real Madrid. Tentou muito o golo – como tenta sempre na Seleção –, mas foi Postiga que teve o acesso de bom futebol. Coentrão, esse, com os sprints e as fintas, foi piscando o olho ao gigante espanhol enquanto parte corações ainda na Luz. Nani foi o segundo mais esforçado, apostado que está em ser o melhor do Mundo… Mas foi sobretudo a união, o espírito coletivo, de equipa, que fica da exibição de sábado. À Seleção pediam-se os 3 pontos. À equipa das quinas pedia-se eficácia, e não muito mais que isso. E era essa a missão pragmática do muito pragmático Paulo Bento. E quem é que precisa de floreados, quando a qualificação para o Europeu está em causa? Quem é que precisa do jogo bonito sem os pontos de uma beleza incomensurável? Paulo Bento fez bonito. Do banco, quando celebrou o golo português e tirou a gravata logo a seguir, afogueado.

In Record

07 junho 2011

Contra a Corrente _ Leonor Pinhão


A Medalha do Mérito Distrital


É bom que os adeptos portistas continuem a entoar a mesma canção.
No dia em que a puserem de lado a situação alterou-se dramaticamente ...
 

Tal como Brian Clough teve êxito com o modesto Nottingham Forest em 1979 e 1980, também Mourinho conduziu o pequeno clube português à vitória na Champions de 2004.

ANDREW ANTHONY
"The observer", 01-05-2011

A eliminação do Real Madrid foi uma coisa boa porque jogaram antifutebol. José Mourinho era fantástico quando treinava uma equipa pequena como o Porto

MORTEN OLSEN
Seleccionador Dinamarquês, 02-05-2011
 
Foi justamente entregue pelo Governo Civil do Porto a Medalha de Mérito Distrital a Pinto da Costa,
presidente do FC Porto, no culminar de um ano ímpar em que o clube venceu quatro competições importantes, umas mais importantes do que outras, como é normal nestas coisas.

Embora neste rol de triunfos saborosos até conste uma competição internacional, a referida distinção do Mérito Dístrital aplica-se com pertinência.

Confirmou -se nas duas últimas semanas, e com grande alarido, que nem a grandeza indiscutível dos sucessos alcançados consegue erradicar de vez a pequenez congénita do discurso do líder e, por atacado, a pequeneza dos discursos dos demais funcionários da casa, independentemente do número de anos de sócio do FC Porto que detenham.

Por um lado, o lado mais básico,compreende-se. O FC Porto começou a sua escalada vitoriosa no final da década de 70 declarando uma guerra ideológica ao Benfica e uma guerra regíonalísta ao país.

                     
As últimas declarações de Pinto da Costa, elogiando o seu próprio comportamento notavelmente cívico em Dublin e no Jamor por não ter festejado efusivamente a conquista da Liga Europa e da Taça de Portugal para não melindrar os dois adversários do Norte, deixam a claro os alicerces distritais do seu pensamento.

E as primeiras palavras de André Villas - Boas, assim que terminou a final com o Vitória de Guimarães, declarando que, na próxima temporada, a Taça da Liga «será uma competição de enquadramento entre a formação e o futebol profissional» pelo que «não será objectivo a nível de conquista», fornecem a mais elementar evidência sobre o que é, ainda hoje,
a única preocupação ideológica do FC Porto: o Benfica, e por mais de rastos que o Benfica esteja.

Há, também, uma componente fortemente totalitária nestes arrazoados. Tendo Benfica ganho as três últimas edições da Taça da Liga, é importante varrer do mapa competitivo a importância da referida Taça que o FC Porto nunca venceu. E, de preferência, rapidamente, antes que a competição ganhe carisma com o andar dos anos.

Lamentavelmente, o Benfica não tem autoridade moral para retorquir sobre esta matéria porque, no início da corrente temporada, quando tudo começou a correr mal, num assomo de ridículo inqualificável, anunciou publicamente que ia desistir da Taça da Liga em sinal de protesto contra o sistema. E por aqui se vê, mais uma vez, como,nestas coisas, o silêncio é de ouro.

Resta aos benfiquistas o ínfimo consolo de se ouvirem referidos nos cânticos de alegria dos rivais.
É grande, enorme, a importância do Benfica para o FC Porto.

E é bom para os benfiquistas que os adeptos portistas continuem a entoar sempre a mesma canção.
No dia em que a puserem de lado a situação ter-se-á alterado dramaticamente: ou o Benfica deixou de existir ou o FC Porto engrandeceu e deixou de ser um clube tão distrital quanto a medalha que recebeu no início desta semana.

Email Aberto _ Domingos Amaral


Vitrine

From: Domingos Amaral
To: Fábio Coentrão

Caro Fábio Coentrão
Esta semana tivemos um exemplo perfeito e refinado de como se pode, na praça pública, pressionar dois clubes para que um jogador se transfira de um para o outro. De um lado, um dos melhores jogadores do Mundo, Ronaldo, e um dos melhores treinadores do Mundo, Mourinho, lançaram-te inúmeros elogios, dizendo que eras um jogador fantástico e uma “mais-valia” se fosses para o Real Madrid. Na prática, e no meu ponto de vista de benfiquista, essas foram pressões boas. Mourinho e Ronaldo, com os seus elogios, estão a valorizar-te, e ao mesmo tempo a pressionar o Real para te comprar. Se um ativo é assim tão bom, o seu preço sobe, e quem o quer terá de pagar mais. O meu obrigado público aos dois pelas suas palavras, que ajudam a posição negocial do Benfica.

Infelizmente, o mesmo não posso dizer das tuas declarações. Depois de meses a dizeres que estavas feliz no Benfica, e que por ti até assinavas um “contrato vitalício”, de repente mudas radicalmente o discurso, dizendo que adoravas ir para o Real, “o melhor clube do Mundo”, para ser treinado por Mourinho, “o melhor treinador do Mundo”. Não duvido que penses isso, mas dizê-lo em público prejudicou a posição negocial do Benfica, e foi uma pressão a roçar o inaceitável. Se um ativo se quer ir embora para outro clube, o seu preço desce imediatamente.

Desceste na minha consideração, tanto por esta razão, como pela aparição patética ao lado de José Sócrates. Foram dois momentos péssimos. Mas nem tudo é mau, pelo menos não disseste que o Benfica era uma “boa vitrine”, como disse um jovem brasileiro que para o ano virá jogar para o FC Porto. Ele lá sabe por que o diz…

In Record

06 junho 2011

Comunicado do SL Benfica



Desmentido

Fábio Coentrão é jogador do Sport Lisboa e Benfica. Ao contrário das notícias veiculadas nas últimas horas por alguns órgãos de Comunicação Social alimentados, como sempre, por “fontes” sem rosto e sem nome, não há qualquer tipo de acordo com o Real Madrid.

A cláusula de rescisão do jogador é de 30 milhões de euros e os possíveis interessados no seu concurso sabem disso.

Aqui á Gato _ Miguel Góis


Recordar 61

Na terça à noite, exultei e emocionei-me a assistir à reposição, na Benfica TV, do quinto episódio de “Vitórias & Património” (um programa que, se passasse na Porto TV, intitular-se-ia “Vitórias & Aumento do Património dos Árbitros” e, se estivesse na grelha da Sporting TV, chamar-se-ia apenas “Património”), a propósito do cinquentenário da conquista da primeira Taça dos Campeões Europeus.

Antes de mais, é necessário ter presente que, em 1961, o futebol era muito diferente daquilo que é hoje em dia, nomeadamente porque havia, pelo menos, uma defesa contra a qual o Barcelona não fazia farinha. Outros tempos. Mas o ataque do Sport Lisboa e Benfica não ficava atrás: tinha jogadores com tanta qualidade, que o Eusébio nem era convocado.

Regressando ao documentário, há vários momentos assinaláveis. A saber: José Águas, na segunda mão das meias-finais contra o Rapid de Viena, implora ao árbitro inglês que assinale uma grande penalidade a favor dos adversários (“Marque o penálti, senhor, para ver se saímos todos daqui vivos!”); Mário João declara que, hoje em dia, senta-se a ver a final contra o Barcelona todas as semanas; vê-se o lance em que a bola bate num poste da baliza de Costa Pereira, atravessa a linha, bate no outro poste e sai (é curioso como a do Isaías, contra o Milan na Luz, já não tem tanta graça); vê-se o golo monumental, a partir do qual o Sr. Coluna devia ter passado a ser tratado por Dr. Coluna; nos últimos 15 minutos, perante a pressão do Barcelona, o Benfica estaciona o autocarro (o que, na altura, significava passar-se a jogar com quatro defesas); no final dos 90 minutos, o presidente do Benfica, Maurício Vieira de Brito, decide celebrar a vitória, tendo um AVC – ao seu lado, os funcionários do clube que estavam a saltar, todos nus, e a beber champanhe da garrafa sentem vergonha por, comparativamente, estarem a festejar de forma tão contida. Mais tarde, já recuperado, o presidente diria aos jogadores, no balneário: “Morrer ali, a ver o meu Benfica campeão europeu, não seria assim tão terrível.”


In Record

03 junho 2011

Por força da lei _ Ricardo Costa


Tribunal desportivo

Os titulares das pastas da Justiça e do Desporto do próximo governo vão ter em cima das suas secretárias uma opção a tomar. De um lado, têm o requerimento do Comité Olímpico de Portugal (COP) para ser instalado o Centro de Arbitragem Desportiva (CAD). Do outro, têm o projeto de criação do Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), da autoria da comissão governamental para a Justiça Desportiva. O próximo governo estará em condições de decidir a vetusta questão do “tribunal desportivo” – o “fantasma” sempre alegado como solução para a justiça desportiva quando as decisões jurisdicionais não agradam aos “gregos” ou aos “troianos”, conforme os casos.

Nenhum dos dois modelos substitui a justiça desportiva das federações (e que deixou as ligas). Acontece que um arquétipo de “tribunal desportivo” que ocupasse o lugar dos conselhos de disciplina e de justiça, sem a alegada (e quase sempre doentia) suspeição sobre os seus membros aquando das sentenças desfavoráveis, não é partilhado por nenhum daqueles projetos. Ou seja, fica tudo na mesma quanto à competência dos órgãos jurisdicionais federativos “internos” – e não podia deixar de ser assim, tendo em conta a lei das federações e os princípios de autonomia das organizações desportivas.

Assumido isto, os caminhos separam-se. O CAD é uma instância arbitral “voluntária” que desincentivaria o recurso das decisões federativas nos tribunais administrativos do Estado. O TAD é uma instância arbitral “necessária” e “exclusiva” para o recurso dessas decisões, excluindo-se, desta forma, o acesso final à justiça administrativa do Estado; o TAD não é um tribunal do Estado, com magistrados judiciários comuns, especializado em matéria desportiva, mas uma entidade jurisdicional incluída na ordem desportiva, com “juízes” indigitados. Em suma: o ambicionado “tribunal desportivo” será o “tribunal de última instância” – desde que as matérias não sejam as famosas “questões estritamente desportivas” (como os castigos decorrentes da amostragem dos vermelhos) – e não um substituto da justiça federativa.

Concordo com o projeto do TAD. Tirar as decisões desportivas dos tribunais do Estado é a melhor medida e conforma-se com a Constituição. Porém, julgo que o TAD devia funcionar no seio do Comité Olímpico, como ente supra-federativo e transversal. Deveria fazer-se uma harmonização dos dois modelos, tanto mais que o TAD também pode funcionar por vontade das partes (arbitragem voluntária). O projeto do TAD não esgota os problemas a tratar. Longe disso. Haverá tempo, entre outros pontos, para refletir sobre recursos imediatos de sentenças federativas de 1.ª instância para o TAD – que terá uma “câmara de recurso” – sem passar pelo Conselho de Justiça ou ponderar a compatibilização das providências cautelares no TAD com efeitos suspensivos a decretar pela justiça federativa. E, no fim, esperar que juristas com capacidade e estofo psicológico queiram ir para o TAD. O que não será fácil, pois, nos tempos que correm, ser juiz desportivo passou a ser uma atividade a necessitar de... “subsídio de risco”!

 In Record

02 junho 2011

O Voo da Águia_ Marta Rebelo


Las canteras

O Barcelona venceu no sábado o quarto título de campeão europeu, e desempatou com o Manchester United. Foi a vitória do futebol delícia face à racionalidade inglesa. Tal como sir Alex Ferguson reconheceu no final da partida, o Barça deu-lhes “um banho” de futebol e equipas que gostam tanto do futebol que praticam merecem ser campeãs.

Pep Guardiola, na contenda que mantém com Mourinho, elogiou André Villas-Boas. Eu elogio a gestão desportiva do futebol do clube da Catalunha. E agora que Fábio Coentrão abandona a defesa esquerda do Glorioso pelos ares da capital espanhola, começo a contar os portugueses que integram o nosso plantel e são… um? Carlos Martins? E tenho muitas saudades dos tempos em que os nossos juniores eram investimentos muito seguros para o futuro do plantel da equipa A. No momento em que o Benfica lava roupa suja e putativas comissões do nosso treinador pela transferência de um jogador brasileiro, depois de uma época de equipa “insuficiente” – nas palavras do presidente Vieira – e de vitórias nulas, quando se discute o reforço da estrutura do futebol, porque é que não se discute a formação? Das canteras do Barça saíram, por exemplo, Messi, que apesar de ser argentino joga na Catalunha vai para 15 anos. Aliás, do plantel atual, e sem contar com o míster Guardiola, são onze os jogadores que vieram das divisões de base do clube catalão.

O Benfica formou Manuel Fernandes. Formou o João Pereira, que desperdiçou. Tal como o Miguel Vítor e o Roderick que, por mais que digam ser uma esperança, se prepara para ser um jovem com um passado promissor, sem jogo nas pernas. Por estas e por outras é que defendo que um técnico como o Rui Vitória servia bem o comando do Glorioso. Porque, entre muitos outros valores, tem noção do que devem ser as canteras de um clube.

In Record
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