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Amizade
O Paulo convidou? Ele, para mim, não convida. Ele, para mim, ordena. É assim que procedo com os amigos mais próximos. O Paulo de Carvalho é um deles. “João, queres jantar na quinta-feira em minha casa?”. Claro que jantei. O Paulo não convidou, o Paulo ordenou. Ganhei um belo serão, matizado com futebol, com música, com reflexões sobre a vida, sobre as coisas, sobre tudo. Sobretudo, ganhei o que mais gosto de ganhar. Ganhei mais alguma ferramenta para robustecer o meu alicerce intelectual. Ganhei mais alguma ferramenta para robustecer o meu alicerce social. A dada altura, adveio a frase da noite. “As coisas belas só pertencem a quem as ama”. Ganhei, ganhei muito.
O Simões convidou? O Simões não convida, o Simões ordena. De passagem por Lisboa, ele que está no Irão, telefonou com um objectivo preciso. “João, queres almoçar na sexta-feira?”. Claro que almocei. Também com o Eusébio, outro daqueles que não convidam, outro daqueles que ordenam. Também com o Toni, outro ainda daqueles que não convidam, daqueles que ordenam. Em Caneças, no restaurante da Amélinha, ganhei horas infindas coloridas de bola, de boa bola, da melhor bola. Da bola inteligente, porque a bola é, mais do que tudo, daqueles que são da bola. Só da bola? Também de outras bolas, bolas da vida. A dada altura, adveio a frase da tarde. “Não quero ter razão, quero ser feliz”. Saiu da bola do António Simões. Ganhei, ganhei muito.
“A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original”. Também emergiu essa? Não exactamente. Até que gostava de ter almoçado ou jantado com o Albert Einstein. Não houve repasto, mas houve, há sempre, ensinamentos irrefutáveis. E “nada na vida deve ser temido, antes compreendido”, algo que também não emergiu de um almoço ou de um jantar com a Marie Curie.
A amizade é um património inalienável. Carrega com ela tanto conteúdo substantivo. É uma causa que me fascina praticar. Praticar e sentir. Praticar e sentir para mais aprender. E se almoçasse ou jantasse com o Oscar Wilde, que frase deveria emergir? “Experiência é o nome que damos aos nossos enganos”. E se fosse com o Norman Vicent? “O mal de todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”.
Cantos do Benfica
Há um ano o Benfica perdeu alguns jogos jogando bem; este ano já conseguiu algumas vitórias jogando mal.
Há uma razão para isso: a mudança de guarda-redes. Mas não é tudo. Jorge Jesus confidenciou a alguém que iria ser mais cauteloso este ano, e a equipa tem sido de facto mais cínica e mais calculista.
Mas há várias coisas a funcionar mal. As alas não correspondem. Emerson e Gaitán nunca se entendem – o mesmo sucedendo com Maxi e Bruno César. Julgo, aliás, que Emerson não tem lugar no Benfica. Quando apanha um extremo rápido é permeável a defender, e não sabe subir: não finta, não remata e tem medo de entrar na área. Que saudades das duplas Coentrão-Di María ou Maxi-Salvio! Eram duplas que criavam múltiplas situações e marcavam muitos golos.
Outra coisa que não se percebe é a total inépcia nas bolas paradas. Sendo o Benfica uma equipa que ataca muito, consegue sempre muitos cantos (10/15 por jogo) e muitos livres laterais. Ora, apesar de ter muitos jogadores altos, não consegue sequer criar perigo nestes lances! Os livres e os cantos são quase sempre mal marcados. É preciso treinar um ou dois jogadores para esta função, talvez Bruno César e Witsel, pois Aimar e Gaitán não servem.
Veja-se o Braga da época passada: muitos golos saíam de livres e cantos marcados por Hugo Viana. Foi assim, aliás, que o Benfica sofreu os dois golos que o afastaram da final da Liga Europa.
Quando o Benfica aperfeiçoar os cantos e os livres laterais, atirando bolas tensas para as cabeças de Luisão, Garay, Javi (ou Matic), Witsel e Cardozo, tornar-se-á uma equipa muito mais perigosa.
In Record
Crise? Que crise?
Tudo começa – e, se calhar, tudo acaba – no momento da negação de um técnico de futebol. A seguir ao jogo de naufrágio do FC Porto, exclusivamente por culpas próprias, uma vez que defrontava uma equipa apenas arrumada, aplicada e carregada de sentido coletivo, adiantou ter visto uma partida equilibrada, no primeiro tempo, e uma cavalgada dos portistas, no segundo. É verdade que o banco, muito mais do que a cadeira dos sonhos, provoca erros de paralaxe e que a visão nem sempre é a mais rigorosa. Vítor Pereira, acossado nas últimas semanas apesar de vitórias internas muito claras, optou por não mudar o discurso, negando qualquer vestígio de crise. Fez mal. Tinha aqui uma oportunidade de abanar as suas tropas que, no jogo de Chipre, pareceram apáticas e nervosas, como se não se percebessem que o Apoel, exibindo a titulares jogadores como Paulo Jorge, Nuno Morais, Hélio Pinto e até Manduca (sem desprimor para nenhum, estão longe de se poder bater mano a mano com os craques do FC Porto), não pode em circunstâncias normais ombrear com os campeões nacionais. E nem vale a pena ir buscar mais argumentos ao orçamento, ao currículo, à experiência nestas andanças transnacionais. Afinal, depois de um favoritismo justificado por antecipação, chega a ser inacreditável que o detentor da Liga Europa tenha cedido quatro pontos com o clube alistado como mais fraco no grupo.
Aquilo que, sobretudo depois do triunfo sobre o Shakhtar Donetsk, parecia uma caminhada sem muitos escolhos, tornou-se num pesadelo, uma vez que essa foi a única vitória a contribuir para a pontuação – e, confesso, não me recordo de o FC Porto alinhar três jogos consecutivos nesta fase da Liga dos Campeões sem ganhar. A partir daqui depende de escorregadelas alheias, sendo indispensáveis triunfos na visita à Ucrânia e na receção aos russos do Zenit.
Fica-me a ideia que a margem de manobra de Vítor Pereira se esfumou no momento em que Manduca desfez uma igualdade que seria lisonjeira para os portugueses (que até marcaram num penálti mentiroso, inventado pelo talento dramático de James Rodríguez). Vai assistir a enormes discussões, entre os seus críticos preferidos (os adeptos da equipa), sobre a saída de Fernando, a utilização tardia de James, a titularidade de um Rolando em clara má forma, a insistência em Varela, o regresso de Fucile, o estouro físico de Alvaro Pereira, o nervosismo de Hulk. É o que acontece quando não se ganha e, em equipas como a do FC Porto, quando se ganha sem espetáculo. No fim das contas, a sentença sairá da cabeça e das palavras de Jorge Nuno Pinto da Costa. Neste caso, aposto, o presidente fará vista grossa e questionará: “Crise? Que crise?” Depois, quando limpar os óculos…
In Record
Comunicado
São falsas e totalmente oportunistas as declarações hoje reproduzidas na imprensa brasileira de um empresário, de nome Roberto Tadeu, em relação ao atleta do Sport Lisboa e Benfica Javier Saviola.O senhor Roberto Tadeu afirmou ao site brasileiro Lancenet que tinha oferecido Javier Saviola ao Palmeiras. Apenas por pura ficção ou por vontade de algum protagonismo poderia tal empresário ter produzido tais declarações, uma vez que não tem qualquer mandato do SL Benfica.Mentiras como esta devem ser denunciadas. O nosso silêncio significaria pactuar com o oportunismo de alguém que manifestamente revelou ter poucas condições para exercer o papel de empresário.
Dieta magra
A família benfiquista moderna é assim: a mulher e a filha vão para a Catedral enquanto o marido (sportinguista) e o filho pequeno aguardam no centro comercial que a partida termine. E como a Ana e a Maria iam quase estrear-se nas lides futebolísticas, sentadas atrás da baliza que ia conhecendo os ataques do Benfica na primeira metade, mereciam uma vitória. Mas sobretudo um belo espetáculo.
Nem a Ana, nem a Maria, nem nenhum dos demais 35 mil sentados na Luz teve direito a bola com nota artística. Não tivemos direito a mais de 30 minutos de futebol, e depois o Glorioso “sentou-se à sombra da bananeira”. Só que a bananeira só tinha duas bananas e a Ana e a Maria, sentadas atrás da baliza para onde agora a Olhanense atacava, no curso da segunda metade, viram com sofrimento o golo dos algarvios e assistiram de camarote às “brancas amnésicas” da nossa defesa. Eu sei que estou sempre a referi-las, mas elas acontecem com frequência. Mais, a Ana e a Maria estiveram prestes a ver os de Olhão empatar quase em cima dos 90’, não fosse o pé salvador do Senhor Capitão. Míster, ontem estivemos quase a relembrar-nos do que é perder pontos.
Fiquei maravilhada com a performance do Rodrigo, naqueles 30 minutos. Embora o homem do jogo, na minha modesta opinião, tenha sido o raçudo Maxi Pereira, que corre e luta mesmo quando vai sozinho. O que me assusta é que o susto que ontem íamos apanhando sucede tão próximo da receção ao Basileia. Ora, na 4.ª feira jogamos sem Emerson – já nem sei se isso é bom ou mau… Mas sem Capdevila inscrito na Champions, parece que Maxi vai rumar ao corredor esquerdo. Se assim for – e a margem para Jesus inventar não é muita – sugere-se quase inevitável que Ruben Amorim assuma a defesa lateral direita. Alguém se recorda da tão recente prestação de Amorim frente ao Beira-Mar? Foi cilindrado. Míster, fica um pedido: Miguel Vítor a defesa direito. E uma vitória frente ao Basileia. Para a Ana, para a Maria, para todos nós. Estas vitórias magras estragam-me a dieta.
In Record
Injustiças
From: Domingos Amaral
To: Vítor Pereira
Caro Vítor Pereira,
Até a um benfiquista como eu têm espantado certas críticas que lhe fizeram nas últimas semanas. Dois famosos adeptos azuis – Rui Moreira e Miguel Sousa Tavares – escreveram frases como “a equipa está doente”, “temos de nos preparar para uma época negra” ou “com Vítor Pereira não vamos a lado nenhum”! Só porque empatou três vezes e perdeu um único jogo (!), caiu logo, não o Carmo ou a Trindade, mas a Torre dos Clérigos! São exageros, e são injustos. Muitos portistas parecem esquecer que a saga gloriosa da última época é irrepetível em 50 anos, e que qualquer sucessor de Villas-Boas (incluindo o próprio) se sentiria pressionado pela permanente nostalgia de tais feitos. É evidente que o senhor não tem o talento oratório do André, nem o ego abrasivo de Mourinho, e não se veste lá muito bem. Mas caramba, onde está a “época negra” quando o clube lidera a Liga com o melhor ataque das últimas décadas?
Parece-me que o problema é outro. Ao senhor, como a todos os azuis, vinha incomodando a ideia de que o Benfica de Jesus jogava um futebol mais bonito e empolgante que o FC Porto, e ambicionou alterar tal imagem. Mantendo o 4-3-3 da casa, tornou-o mais ofensivo, com um “número 6” muitas vezes a ser “um 8 ou um 10”, como explicou. Foi em busca de nota artística e goleadas, arriscou, e isso tem custos. Principalmente na Champions, onde o risco não costuma compensar. O seu FC Porto afastou-se da escola defensiva de Mourinho e André, e aproximou-se das “dinâmicas” de Jesus. Marca mais golos, mas sujeita-se a sustos. Na Europa, terá dificuldades, mas por cá continuará a ser muito duro roubar-lhe o título.
PS: Olhe que esta opinião não é “folclore”, é mesmo o que eu penso.
In Record
O plano anunciado
No dia 9 de maio, o presidente da Liga de Futebol Profissional assumiu um compromisso: apresentar um plano para o futebol profissional até 30 de junho. “Um plano que engloba um modelo de desenvolvimento, quadros competitivos adequados, recursos financeiros disponíveis e mudanças regulamentarmente necessárias”, disse então Fernando Gomes. Percebemos mais tarde que, afinal, o plano não era para transformar o futebol organizado pela Liga e a sustentação dos clubes associados. Antes era, sem que os incautos o compreendessem, um plano para se transmutar: chegar a presidente da Federação.
Sendo assim, não admira que a Liga esteja parada no carril – para além da propaganda à volta de um “Congresso sobre o Futebol” – e convertida (nas mais diversas variantes, com exceção dos endereços de e-mail) na sede de campanha de “Gomes a Presidente” (numa espécie de “concorrência desleal” em relação à Câmara de Tondela). O que, ao que se aparenta, é aceite e estimulado pelos clubes, que deram a Gomes “mandato” para tal campanha. O que é manifestamente um sintoma de transparência. Nada como a limpidez de se assumir que há muitos meses nada de significativo se faz, a não ser o “mandato” para nomes, reuniões, telefonemas, visitas ao domicílio, sensibilidades, influências, estética, gerontologia e muito… muito “power point”!
Entretanto, em junho, a Universidade Católica entregou à Liga um pertinente estudo sobre as condições de viabilização do futebol profissional. Uma boa medida, mas, por ora, abafada pelas ambições de um “novo ciclo” de “regeneração” – outro, portanto – do futebol e, nesse ciclo, de uma Liga (norteadamente?) decadente…
A investigação concluiu que os instrumentos e as políticas para uma nova estratégia para a indústria do futebol passam por “3 grandes desafios”, que, acrescenta, “são também as grandes oportunidades identificadas para a indústria” aumentar as receitas. A saber: (1) “competitividade desportiva e futebol espetáculo” (bilheteira, direitos televisivos e “merchandising”); (2) “valorização do plantel e do futebolista português”; (3) “alargamento do mercado além-fronteiras e internacionalização”. Para atacar estes desafios seria preciso diminuir a distância entre os clubes de dimensão internacional e os restantes; reestruturar a segunda liga como competição semiprofissional; centralizar a negociação dos direitos televisivos na Liga; gerar na Liga a produção de serviços necessários aos clubes para que estes reduzam custos; criar modelos de apoio aos clubes que descem e sobem nas competições profissionais; estabelecer uma plataforma global de ingresso, valorização e transferência de jogadores estrangeiros jovens; enquadrar as competições “B” para capitalizar a formação do jogador português; alargar as competições aos “mercados” de língua portuguesa; redesenhar em coletivo as linhas de crédito para os clubes mais deficitários e desprotegidos.
No documento, propõe-se isto e mais para fazer. Repito: fazer. Tudo aquilo que Gomes, como “funcionário” mimético a tempo inteiro, não mostra ser capaz. Mudará a sua natureza nos corredores da Federação?
In Record