novembro 03, 2011

Tempo Útil _ João Gobern



Crise? Que crise?

Tudo começa – e, se calhar, tudo acaba – no momento da negação de um técnico de futebol. A seguir ao jogo de naufrágio do FC Porto, exclusivamente por culpas próprias, uma vez que defrontava uma equipa apenas arrumada, aplicada e carregada de sentido coletivo, adiantou ter visto uma partida equilibrada, no primeiro tempo, e uma cavalgada dos portistas, no segundo. É verdade que o banco, muito mais do que a cadeira dos sonhos, provoca erros de paralaxe e que a visão nem sempre é a mais rigorosa. Vítor Pereira, acossado nas últimas semanas apesar de vitórias internas muito claras, optou por não mudar o discurso, negando qualquer vestígio de crise. Fez mal. Tinha aqui uma oportunidade de abanar as suas tropas que, no jogo de Chipre, pareceram apáticas e nervosas, como se não se percebessem que o Apoel, exibindo a titulares jogadores como Paulo Jorge, Nuno Morais, Hélio Pinto e até Manduca (sem desprimor para nenhum, estão longe de se poder bater mano a mano com os craques do FC Porto), não pode em circunstâncias normais ombrear com os campeões nacionais. E nem vale a pena ir buscar mais argumentos ao orçamento, ao currículo, à experiência nestas andanças transnacionais. Afinal, depois de um favoritismo justificado por antecipação, chega a ser inacreditável que o detentor da Liga Europa tenha cedido quatro pontos com o clube alistado como mais fraco no grupo.

Aquilo que, sobretudo depois do triunfo sobre o Shakhtar Donetsk, parecia uma caminhada sem muitos escolhos, tornou-se num pesadelo, uma vez que essa foi a única vitória a contribuir para a pontuação – e, confesso, não me recordo de o FC Porto alinhar três jogos consecutivos nesta fase da Liga dos Campeões sem ganhar. A partir daqui depende de escorregadelas alheias, sendo indispensáveis triunfos na visita à Ucrânia e na receção aos russos do Zenit.

Fica-me a ideia que a margem de manobra de Vítor Pereira se esfumou no momento em que Manduca desfez uma igualdade que seria lisonjeira para os portugueses (que até marcaram num penálti mentiroso, inventado pelo talento dramático de James Rodríguez). Vai assistir a enormes discussões, entre os seus críticos preferidos (os adeptos da equipa), sobre a saída de Fernando, a utilização tardia de James, a titularidade de um Rolando em clara má forma, a insistência em Varela, o regresso de Fucile, o estouro físico de Alvaro Pereira, o nervosismo de Hulk. É o que acontece quando não se ganha e, em equipas como a do FC Porto, quando se ganha sem espetáculo. No fim das contas, a sentença sairá da cabeça e das palavras de Jorge Nuno Pinto da Costa. Neste caso, aposto, o presidente fará vista grossa e questionará: “Crise? Que crise?” Depois, quando limpar os óculos…

In Record 

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