dezembro 18, 2009

Crónica Semanal de Leonor Pinhão

In ABola


Jogar «o dobro» já está! Agora só falta sofrer o triplo

Se, depois do empate em Olhão, a recuperação do ânimo do colectivo de jogadores do Benfica passou, exclusivamente, pelo propagado «puxão de orelhas» do treinador Jorge Jesus ao jovem argentino Angel Di María, então, nesse caso, estamos mal… Di María tem as orelhas muito grandes, estão sempre à mão de semear, e puxar-lhe as orelhas mais parece uma traquinice cruel do que um acto supostamente pedagógico e moralizador.
Tomemos o exemplo de Fábio Coentrão. Em Olhão, depois de ter sido estendido no chão por um aguerrido adversário, viu, pelo canto do olho, um outro aguerrido adversário aproximar-se e puxar-lhe sem dó pelos cabelos que, por serem vistosos e louros, também estão sempre à mão de semear.
Fábio Coentrão era um dos jogadores do Benfica que se apresentaram para jogar em Olhão sabendo que não podia ver nenhum cartão amarelo sob pena de ficar impossibilitado de defrontar o FC Porto no clássico do próximo domingo. O inusitado puxão de cabelos pregado por um jogador do Olhanense a Fábio Coentrão, estendido, não teve a consequência que seria de esperar. Coentrão por não reagir disparatadamente à manhosa agressão não viu o fatídico cartão amarelo. Lamentavelmente, reagiu Cardozo por Coentrão e acabou o paraguaio por receber a sanção que, menos lamentavelmente, não o impede de jogar contra o FC Porto. Melhor seria, muito melhor, se não tivesse reagido embora possa parecer demais exigir passividade e capacidade de abstracção a atletas subitamente envolvidos em climas de tensão, isto para utilizar um eufemismo. Fernando Cruz dos Santos, no seu jeito de quem já viu muitas coisas e, por isso mesmo, sabe antecipar outras, escreveu nas páginas deste jornal que o jogo do Algarve teve «um clima de guerra» quando devia marcar o reencontro entre dois clubes históricos.

Só lá mais para meio da segunda parte é que Soares Dias contemplaria Fábio Coentrão com o cartão amarelo que estava no programa e, isto, numa altura em que Dí Maria já tinha sido expulso por responder agressivamente a um despique não menos agressivo. Pelo que corria o 62.º minuto do jogo quando o Benfica se viu, nesse ápice, desfalcado dos seus dois jovens pontas para o jogo de domingo.

É nisto que dão os puxões de orelhas e os puxões de cabelos…

É que o problema deste Benfica é jogar bem demais e não saber sofrer as agruras dos ambientes politicamente adversos e as respectivas repercussões dentro das quatro linhas. Tal como encantaram os adeptos com o seu futebol bonito, ofensivo e, frequentemente, artístico, os jogadores do Benfica parece que também se encantaram a eles próprios com o virtuosismo da sua produção, com a transparência do seu recital, com os aplausos do seu público.

E, por tudo isto, não estão preparados para públicos hostis e para adversários hostis dentro e fora das quatro linhas, tal como se depararam em Braga, de onde saíram derrotados, e em Olhão, de onde saíram empatados e desfalcados para o jogo com o FC Porto.
Todos os incidentes destes dois jogos estavam programados, não no sentido em que a expulsão de Cardozo no túnel de Braga estava predeterminada ou que predeterminadas estivessem coisas como a invalidação do golo limpo de Luisão, também em Braga, ou, já em Olhão, estivessem predeterminados pormenores como não ter existido falta no lance do primeiro golo dos donos da casa ou o puxão de cabelos a Fábio Coentrão ou as provocações constantes a David Luiz na procura do tal cartão amarelo que, aparentemente, tanto jeito dava a terceiros.

O que estava no programa em Braga é que a cordialidade de relações entre o Braga e o FC Porto aliada ao desvio de Jorge Jesus de Braga para a Luz ia proporcionar uma noite diferente e conturbada à equipa do Benfica. O que estava no programa em Olhão é que o facto de a equipa anfitriã ser composta por uma meia-dúzia aguerrida de jogadores emprestados pelo FC Porto e por mais uns quantos aguerridos com raízes em Alvalade aliada ao facto de não conseguirem ganhar um jogo desde o Verão só podia fazer antever uma noite de vendaval.

E é para estes programas, tão previsíveis, que os jogadores do Benfica parecem não estar mentalmente preparados, caindo sistematicamente no logro do jogo e do ambiente adversário, embarcando juvenilmente nas provocações para as quais têm de saber dar resposta — nenhuma resposta, evidentemente.
Daí o questionar do «puxão de orelhas» dado a Dí Maria por Jorge Jesus. O argentino não prejudicou mais a sua equipa com a sua expulsão do que toda a equipa já se tinha prejudicado a si mesma quer em Braga quer em Olhão. Por ser muito jovem e não ter escola Dí Maria limitou-se a ser mais flagrante no seu lapso — o lapso da patetice que, de forma menos estrondosa, parece emanar do colectivo quando os jogos não se encaixam num padrão de normalidade competitiva.
Jorge Jesus prometeu um Benfica a jogar o dobro. Prometeu e cumpriu. Essa parte está feita. Agora só falta ensinar o Benfica a sofrer o triplo sem perder a cabeça. Vai ser difícil.

Mas é só mesmo o que falta.

Não é muito credível a conclusão a que chegaram muitos dos comentadores presentes em Olhão atribuindo a responsabilidade da lamentável guerra de cadeiras ao facto de o árbitro se ter enganado no juízo do lance que deu origem ao primeiro golo do Olhanense. «Responsabilidade» no sentido em que o incidente das cadeiras teve início nesse preciso momento em que Ramires fez um desarme de grande categoria, um desarme limpo e difícil que o árbitro Soares Dias, do Porto, converteu num livre a rondar a área do Benfica. Mas se por cada erro de um árbitro voassem cadeiras já não havia cadeiras nos estádios de futebol. Há muito tempo.

O Benfica parece estar interessado em Alan Kardec, 19 anos, brasileiro dos quadros do Vasco da Gama e da selecção canarinha do respectivo escalão. Kardec confessa-se «muito parecido» com Mário Jardel porque é «forte no jogo aéreo» e rápido diante da baliza, como houve oportunidade para confirmar no decorrer do último Mundial de sub-20 que decorreu no Egipto. Alan Kardec estabeleceu um propósito para si próprio no caso de chegar mesmo ao Benfica e ao futebol português: o jovem avançado gostava de fazer «metade» dos golos que Mário Jardel assinou em Portugal.

Já antes do início da época o novo treinador do Benfica tinha prometido uma equipa a jogar «o dobro» do que vinha sendo costume. Parece tudo muito bem. Com metade dos golos de Jardel e com a equipa a jogar o dobro, a coisa compõe-se inevitavelmente.

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