07 dezembro 2011

O Voo da Águia_ Marta Rebelo


E lá se foi a Taça

O Benfica foi eliminado da Taça de Portugal, sem glória e com dois golaços dos madeirenses do Marítimo. Pior, estes irredutíveis insulares são o nosso opositor na próxima jornada da Liga. E numa das competições que Jorge Jesus elegeu como conquista relevantíssima para a temporada, ficámos pelo caminho.

Jesus prescindiu de titulares e o Benfica prescindiu da vitória. A verdade é que a intensidade de jogo a que o míster sujeita aquela rapaziada, com uma pressão muscular intensíssima, teria de fazer vítimas. A dianteira no campeonato e a quase dianteira no grupo da Champions – venha lá o Otelul – não se compadece com mais competições. Desculpas? Não. Realismo. Triste realismo. Ainda falta a Taça da Liga – e será que desta feita Pinto da Costa e o FCP vão querer vencer a competição de que sempre desdenharam?

A partida não nos começou mal, com Saviola a converter uma grande penalidade no nosso golo solitário. Mas a segunda metade ditou outra dança. Jesus estava demasiado cheio de vitórias e na confiança poupou Javi, Maxi, Aimar e Bruno César. A verdade é que o Benfica perde estrutura sem o seu maestro e tenores. Javi García e Aimar são incontestáveis em qualquer competição, e se queríamos a Taça não se podia dar-lhes descanso. A gestão poderia passar por dar minutos a Luís Martins, um miúdo que é o nosso futuro Coentrão, e dar banco a Emerson – que continua a ser uma nódoa. Ruben Amorim bem tenta, mas não faz a direita, nem à defesa nem na ala. E a história fez-se de dois golos monumentais de um Marítimo que veio dominar na segunda parte, e já não houve Maxi, Aimar ou Nélson Oliveira que nos salvasse.

Agora é tempo de pensar no Otelul. O Benfica é grande, mas não quer jogar com um Real Madrid. Há que segurar o primeiro lugar. Com o Rodrigo a manter o lugar, por favor.

In Record

06 dezembro 2011

Por força da lei _ Ricardo Costa

 
Confirmações

1 Durante esta semana, a propósito de notícias em recintos desportivos (um conceito que em tempos tanto apaixonou certas hostes) e noutros recintos, confirmou-se mais uma vez que entre nós há justiça formal mas peca a justiça substancial, aquela que reconstitui com coragem e convicção fundada a verdade dos factos e aproxima, no momento da sanção e da sua execução, a aplicação da lei abstrata do sentimento de confiança dos cidadãos – pelo menos na retribuição para com os cumpridores. Se essa justiça substancial peca, vulgariza-se a impunidade, sentimento que começa nas escolas e acaba na rua. Hoje podemos concluir que os poderes legislativo e judicial falharam estrondosamente na prevenção geral. No caminho, a impunidade ganhou o estatuto de uma “expectativa” generalizada e, pior do que isso, construíram-se ilhas com muralhas desafiadoras do direito e da ordem pública. Voltar para trás vai ser mais difícil, mas ainda é possível. Depende do comportamento de muitos e desses muitos ao mesmo tempo. Voltar ao caminho certo está, todavia, condicionado pela tibieza e incapacidade de alguns, poucos mas suficientes para fazer claudicar todo um projeto de sociedade, em que as pessoas de bem ainda têm espaço. O espaço maior na “cidade” de todos.

2 Durante esta semana, a propósito de incidentes e colisões de diversa índole, confirmou-se mais uma vez que entre nós há liberdade de expressão mas, em vários casos, não há liberdade de imprensa nem critério sobre o relevo. A crise é grave. Os canais da comunicação escrita e televisiva compartimentam-se: uns (mais ou menos) independentes (quero acreditar que é a maior parte), outros completamente amarrados às “fontes privilegiadas”, que os ameaçam e constrangem. O espaço público está inundado por “ruído”, ao qual se dá um destaque que consegue abafar a lucidez e a inteligência dos demais intervenientes. Há autores de notícias e de comentários com medo. Os destinatários da informação são manipulados. O pensamento livre é marginalizado. O estado a que chegámos merece uma reflexão atenta e, mais do que nunca, um debate sério. O “quarto poder” não pode ser somente o espelho de outros poderes (ocultos, em especial), quando deveria ser sempre e em qualquer circunstância o vigilante neutro e nutrido de todos os outros poderes. O mundo está perigoso, na política, na economia, na cultura e nas artes, e, por maioria dos factos, também no desporto.

3 Durante esta semana, a propósito de entrevistas sobre o futuro do futebol, confirmou-se mais uma vez que não é líder quem quer e que a falta de liderança não se supre com operações de recato e lições dos especialistas. Há sempre um gesto, um esgar, uma sombra, que tudo denuncia… O confronto entre o “neovalentinismo” (sem berros) de Gomes, aspirante a líder embrulhado em cábulas balbuciadas a custo, e Marta, o “agregador mitigado” excessivamente desconfortado nos apoios ativos e passivos, chegou para perceber algo mais. Os detalhes podem ter sido decisivos na procura do número “43”, a cifra mágica do próximo dia 10. A imagem passada nas cadeiras da TV pode ter dado tudo e… nada.

In Record

05 dezembro 2011

Email Aberto _ Domingos Amaral


Metê-la

From: Domingos Amaral
To: Pablo Aimar

Caro Pablo Aimar
Há vinte e tal anos, em Cascais, havia um bar onde eu e os meus amigos costumávamos ir. Noite fora, jogava-se e bebia-se, e as sempre bem regadas conversas costumavam descambar em fortes polémicas. Então, no meio da algazarra, vinda de um canto do bar ouvia-se a voz rouca de um cinquentão bêbado que, para desempatar qualquer celeuma, vociferava: “O importante é metê-la lá dentro!” Fosse o tema das refregas o sexo ou o futebol (eram sempre esses os temas), e fosse qual fosse o pomo da discórdia, o velho alcoólico urrava sempre a mesma máxima: o importante era metê-la lá dentro!

Diz-se que há uma verdade profunda nas palavras dos bêbados e de facto, no final de qualquer jogo, só contam as que se conseguem “meter lá dentro”. Por exemplo, em Manchester, Ferguson apelidou o encontro de “cruel”, defendendo que a sua equipa merecia mais do que o empate. Pois. Mas tu, caro Pablito, “meteste-a lá dentro”, fizeste o 2-2 e saímos de lá apurados.

Contra o Sporting também ajudaste, marcaste o canto e o Javi “meteu-a lá dentro”. O Sporting jogou bem, andou por ali às voltas mas… É como no sexo: é bom abraçar um rabo, beijar uma boca, apalpar uma maminha mas… “o importante é metê-la lá dentro”. O Sporting entusiasmou-se, roçou-se muito, mas a verdade é que não a “meteu lá dentro” nem uma vez.

Claro que tem dias que também são os outros a “metê-la”. Na Madeira, entraste tarde e a más horas, já o Marítimo nos tinha “metido” duas lá dentro. Tiveste duas boas oportunidades mas não a “meteste” lá dentro e fomos à vida na Taça. É assim a vida. Quem mete, mete, quem não mete bate palmas.

In Record

03 dezembro 2011

Jornal " O Benfica " Edição Nº 3527


Destaques

Principais títulos
- Entrevista a Jardel: "O Benfica é muito mais do que eu esperava"
(pág. 16 | pág. 17).

- Opinião Luís Fialho: "Chama imensa" (pág. 29).

Títulos


2 Sintese + Editorial "Parábola do sapo que queria ser burro"
3 Actualidade:"Fórmula Ganhadora" + Opinião João Paulo Guerra
4 Crónica Benfica-Sporting: "Vitória com nervos de aço"
5 Análise à Liga: "Á prova de fogo" + Opinião Arons de Carvalho
7 Incidências do dérbi: "Regresso á idade do fogo" + Opinião Afonso Melo
8/9 Incidências do dérbi: "A boa e a má informação"
10/11 Antevisões: "Adeptos empurram equipa para as vitórias"
12 Benfica Corporate Club: "Evento junta Clube e Empresas"
13 Inauguração Casa do Benfica em Portalegre: "Vamos fazer mais com menos"
15/16 Opinião Pragal Colaço: "Contas da Benfica SAD (parte II) e mais verdades"
17 Entrevista Jardel: "O Benfica é muito mais do que eu esperava"
18 Fundação Benfica: "Quando os sonhos são reais..."
19 Solidariedade: "Pavilhão nº 2 registou elevada afluência" + Opinião Jorge Miranda
20/21  Juniores: "Ciclo muito positivo" + Juvenis: "Luta pela liderança" + Iniciados: "Benfica volta a encantar" + Infantis e Benjamins: "Futebol espectáculo"
22/23  Zona de Decisão - Tamagnini Nené: "Eu não sei viver sem o Sport Lisboa e Benfica"
24 Visita a Lisboa: "Jovens recompensados"
25 Futsal: "Os números falam por si" + Atletismo: "Oito benfiquistas na Selecção + Opinião João Diogo"
26 Basquetebol: "De volta a casa" + Voleibol: "Regresso em Vila do Conde"
27 Andebol: "Em frente na Europa" + Opinião Pedro Ferreira
28 Hóquei em Patins: "No final, fez-se justiça" + Ténis de Mesa: "Equipa B vitoriosa"
29 Opinião Luís Fialho: "Chama imensa"
31 Tome nota + Programação Benfica TV
32 AG da Benfica SAD: "Temos resultados operacionais positivos" + Clube: "Benfica vai a Moçambique" + Breves + Opinião José Jorge Letria



02 dezembro 2011

Crónica de João Malheiro


A virtude da retaguarda

Foi no magistério portista de Artur Jorge que o conceito ganhou solidez. Uma equipa constrói-se de trás para a frente e jamais ao contrário. Quanto vale um grande ponta-de-lança? Muito, muito mesmo. Quanto valem extremos desequilibrantes? Muito, muito mesmo. Quanto valem médios volantes? Muito, muito mesmo. Quanto vale uma eficaz estrutura defensiva e um grande guarda-redes? Muito, tantas vezes muito mais do que tudo o resto.

As retaguardas não ganham jogos? Às vezes até ganham, mas, sobretudo, impedem derrotas ou empates embaraçosos. A serenidade, a confiança, a competência de uma equipa descobre-se logo pelo compartimento mais recuado, descobre-se logo pelo responsável pela defesa das redes. Durante anos, o meu pai falou-me no João Azevedo, magnífico guardião do Sporting. Também do Frederico Barrigana, com quem ainda tive o privilégio de manter uma sólida e bonita amizade. Do Carlos Gomes, com quem também me relacionei, fala-me amiúde o Eusébio, reputando-o acima de todos os outros.

E que dizer do Bento ou do Damas, mais recentemente? E, depois, do Vítor Baía? E o que seria do Benfica e do Sporting, em circunstâncias competitivas melindrosas, sem Michel Preud’Homme e Peter Schmeichel, dois dos melhores intérpretes de sempre no talento de proteger as malhas? A traseira de um colectivo é, tantas vezes, a sua dianteira emocional.

Este fim-de-semana, jogou-se um estimulante clássico na Luz. O Benfica está bem? Muito, muito bem. É mesmo a única equipa europeia, às portas do Natal, sem uma derrota sequer. O Sporting está bem? Muito, muito bem. É mesmo o caso quase singular de uma equipa em construção já… construída. O Benfica ganhou o despique? E se em vez de Artur tivesse Roberto entre os postes?

01 dezembro 2011

Tempo Útil _ João Gobern


A quem aproveita

Ponto prévio: a quem interessa, verdadeiramente, o conflito entre Benfica e Sporting? Já lá vamos – a propósito da caixa de segurança no Estádio da Luz e de todos os acontecimentos que culminaram num incêndio, há muito por apurar e pouco por especular.

Começo pelo bom senso que os responsáveis do Benfica não aplicaram. Tivesse a questão da caixa sido anunciada com tempo e/ou ensaiada/estreada noutra partida e ficavam automaticamente esvaziados os argumentos de princípio dos dirigentes e arautos do Sporting. Assim, lançaram mão ao grito da “provocação” e abriram as portas a um ambiente que descambou, como se viu. Ninguém pode pôr em causa que, de um ponto de vista teórico, o processo levado a cabo pelos benfiquistas é inatacável – a caixa teve o acordo da Liga, da polícia e dos bombeiros. Mais: é um sistema experimentado com êxito por essa Europa (a dita civilizada) fora.

Algo de muito diferente é o resultado prático. Primeiro, é inaceitável que espectadores munidos de bilhete válido e sem comportamento atentatório à segurança geral tenham sido privados de ver dois quintos do jogo, retidos numa vistoria sem meios humanos para dar resposta. Segundo, é condenável que se tenha alegadamente atirado com gente a mais para espaço a menos, anulando ou pelo menos minorando a mais-valia de segurança concretizada.

Tudo somado, nada justifica o vergonhoso final, epitáfio desajustado para um jogo que foi emotivo do princípio ao fim, em que qualquer das equipas podia ter vencido, em que o Benfica confirmou solidez e espírito de sacrifício e em que o Sporting sublinhou a candidatura ao título.

Estou certo que a Polícia investigará o que aconteceu na bancada, já condenado pelos bombeiros. Estou seguro que vamos continuar a ouvir falar dos “graves incidentes” em que estará envolvido Luís Filipe Vieira. Em qualquer dos casos, preferia ver e ouvir por mim próprio, para poder avaliar. Mas, acima de tudo, gostaria que os presidentes dos dois clubes dessem, já, o passo em frente para chegar à paz. Porque ambos sabem que o conflito que, por agora, vão mantendo e alimentando só interessa ao Senhor do Dragão. Ou alguém ouviu falar a sério nos insultos e na agressão a um jornalista? O suspeito do costume está habituado a passar entre as gotas de chuva. E a fazer rebentar as tempestades bem ao longe.

NOTA – Há uma rapaziada, tornada mediática via bola, que não vislumbra além do nariz. Ou seja, além do pequeno mundo do futebolês. Recomendo-lhes mais respeito quando falarem de João Gabriel, um dos melhores jornalistas portugueses do último quartel do século 20. Lidou com presidentes, com presos políticos, com as imensidões da vida. O futebol devia estar-lhe grato por andar por aqui.

In Record

Futebol á Portuguesa _ José António Saraiva


FC Porto e Sansão

A grande incógnita desta época em Portugal chama-se Hulk. O que valerá este FC Porto sem Hulk? Na Ucrânia, Hulk esteve nos dois golos: marcou um e “inventou” o outro. Contra o Braga, Hulk esteve nos três golos: marcou dois e ofereceu o outro.

Hulk é um perigo onde quer que esteja. Se está perto da linha final, mesmo que seja junto à bandeirola de canto, parece um touro a libertar-se dos defesas, invade a área e passa para golo. Se está no meio, desmarca-se, corre, chuta e marca. Se está atrás, remata simultaneamente com força e jeito: dos seus pés saem verdadeiros torpedos.

É justo dizer que o FC Porto contra o Braga fez coletivamente um excelente jogo. Foi sufocante, marcou homem a homem em todo o campo, não deu um palmo de terreno ao adversário – e nos primeiros 40 minutos da 2.ª parte a equipa do Braga não conseguiu ter a bola nos pés durante 10 segundos seguidos.

Sucede que, mesmo com este sufoco, o FC Porto não criou situações de golo. Todas as oportunidades acabaram por sair dos pés de Hulk. E isto é que leva a perguntar: sem Hulk, este FC Porto será mais forte ou mais fraco do que Benfica e Sporting?

Se Hulk saísse, o FC Porto encontraria um novo goleador – ou perderia toda a agressividade, como Sansão quando cortou o cabelo?

Só vendo se poderá dizer. Mas, por isso, a grande incógnita do mercado de inverno tem que ver com o destino de Hulk. Ele vai ficar ou vai sair? É que já tem 25 anos, e dentro em pouco começará a perder valor. Até porque boa parte do seu futebol assenta numa pujança física anormal – e essa começará, a partir de agora, a perder-se com o tempo.

In Record

O Voo da Águia_ Marta Rebelo


Grandes

Os campeões fazem-se sólidos perante as adversidades. E os treinadores revelam-se dignos de títulos quando respondem à contrariedade à altura. Foi um Benfica campeão que ganhou ao SCP.

Que grande jogo de tática, com Domingos bem mas Jesus melhor ainda. Que maravilha de jogador se revela Garay, que foi dois defesas centrais e deu uma perninha à esquerda. Que génio o de Aimar que, quando aos 20’ o Benfica finalmente pegou no meio-campo, foi sublime. Que talento o de Javi García, que marca de canto à “old-school” e oferece uma densidade à nossa defesa que a tornou sólida até ao derradeiro minuto. Sem Artur, o que era de nós. E que bom é ver Witsel a regressar à forma. Ai que bom que é ver um Benfica com estofo de campeão. O SCP deu luta. E levou a resposta.

E que tristeza de figurinha fez aquela gente pequena da claque leonina, que não sabe ser gente nem perder e decidiu incendiar a Catedral, enquanto entoava cânticos de ódio. João Gabriel tem razão, na Luz não há fossos nem adeptos a cair nele. O vice do SCP sofre de miopia e excesso de lata. E pessoas daquelas não devem entrar num estádio de futebol. Mas infelizmente nada me surpreendeu: na época transata, ao receber o Glorioso, a Juve Leo socou-se a si própria e partiu um quarto do seu próprio estádio.

Mas nem só de glória foi feita a exibição do Benfica. Cardozo foi mal expulso, pois foi. E Jesus tinha de o lançar, para obrigar Paciência a colocar a mediocridade de Polga em jogo. É sabido que eu não gosto do paraguaio. Depois de sábado, Cardozo perdeu a titularidade. Quando o árbitro distribuía amarelos como chupa-chupas, ele não se podia colocar a jeito. Sobretudo não podia ter inexistido em jogo durante os 63’ que jogou. Rodrigo entra e ganha mais bolas, foçanga, luta e lê o jogo e Cardozo não deixa saudades. O espanhol a titular. Já. E o Benfica a campeão.


In Record
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