dezembro 06, 2011

Por força da lei _ Ricardo Costa

 
Confirmações

1 Durante esta semana, a propósito de notícias em recintos desportivos (um conceito que em tempos tanto apaixonou certas hostes) e noutros recintos, confirmou-se mais uma vez que entre nós há justiça formal mas peca a justiça substancial, aquela que reconstitui com coragem e convicção fundada a verdade dos factos e aproxima, no momento da sanção e da sua execução, a aplicação da lei abstrata do sentimento de confiança dos cidadãos – pelo menos na retribuição para com os cumpridores. Se essa justiça substancial peca, vulgariza-se a impunidade, sentimento que começa nas escolas e acaba na rua. Hoje podemos concluir que os poderes legislativo e judicial falharam estrondosamente na prevenção geral. No caminho, a impunidade ganhou o estatuto de uma “expectativa” generalizada e, pior do que isso, construíram-se ilhas com muralhas desafiadoras do direito e da ordem pública. Voltar para trás vai ser mais difícil, mas ainda é possível. Depende do comportamento de muitos e desses muitos ao mesmo tempo. Voltar ao caminho certo está, todavia, condicionado pela tibieza e incapacidade de alguns, poucos mas suficientes para fazer claudicar todo um projeto de sociedade, em que as pessoas de bem ainda têm espaço. O espaço maior na “cidade” de todos.

2 Durante esta semana, a propósito de incidentes e colisões de diversa índole, confirmou-se mais uma vez que entre nós há liberdade de expressão mas, em vários casos, não há liberdade de imprensa nem critério sobre o relevo. A crise é grave. Os canais da comunicação escrita e televisiva compartimentam-se: uns (mais ou menos) independentes (quero acreditar que é a maior parte), outros completamente amarrados às “fontes privilegiadas”, que os ameaçam e constrangem. O espaço público está inundado por “ruído”, ao qual se dá um destaque que consegue abafar a lucidez e a inteligência dos demais intervenientes. Há autores de notícias e de comentários com medo. Os destinatários da informação são manipulados. O pensamento livre é marginalizado. O estado a que chegámos merece uma reflexão atenta e, mais do que nunca, um debate sério. O “quarto poder” não pode ser somente o espelho de outros poderes (ocultos, em especial), quando deveria ser sempre e em qualquer circunstância o vigilante neutro e nutrido de todos os outros poderes. O mundo está perigoso, na política, na economia, na cultura e nas artes, e, por maioria dos factos, também no desporto.

3 Durante esta semana, a propósito de entrevistas sobre o futuro do futebol, confirmou-se mais uma vez que não é líder quem quer e que a falta de liderança não se supre com operações de recato e lições dos especialistas. Há sempre um gesto, um esgar, uma sombra, que tudo denuncia… O confronto entre o “neovalentinismo” (sem berros) de Gomes, aspirante a líder embrulhado em cábulas balbuciadas a custo, e Marta, o “agregador mitigado” excessivamente desconfortado nos apoios ativos e passivos, chegou para perceber algo mais. Os detalhes podem ter sido decisivos na procura do número “43”, a cifra mágica do próximo dia 10. A imagem passada nas cadeiras da TV pode ter dado tudo e… nada.

In Record

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