07 fevereiro 2011

Aqui á Gato _ Miguel Góis


Para totós

A pensar naqueles que não conseguiram acompanhar os 90 minutos do FC Porto-Benfica (uns porque não têm televisão por cabo, outros porque saíram mais cedo do Estádio do Dragão), aqui fica uma pequena resenha dos acontecimentos:

20.15 – Antes de as equipas entrarem no relvado, passam nos ecrãs gigantes imagens do último FC Porto-Benfica, para contentamento geral do público: desta forma, os adeptos portistas não poderão dizer que naquela noite não festejaram golos do FC Porto.

20.23 – As equipas técnicas entram no relvado. Jorge Jesus limita-se a estender a mão a André Villas-Boas, depois de ponderar a hipótese de cumprimentar o técnico portista da mesma forma que cumprimentou Luís Alberto no final do Benfica-Nacional.

20.30 – Início da partida.

3’ – A bola sai pela lateral e André Villas-Boas domina o esférico com o peito. Durante toda a noite, será a única vez que um elemento do FC Porto conseguirá receber a bola à vontade, sem oposição imediata do adversário.

6’ – Golo de Fábio Coentrão. Perspicaz, o lateral-esquerdo percebeu que, hoje em dia, se ambiciona marcar golos, tem de o fazer no início da partida, antes que seja expulso pelo árbitro da partida.

22’ – Livre de Hulk, “o Razoável”, passa muito longe da baliza. É o que dá só estar habituado a rematar a 11 metros da baliza.

26’ – Golo de Javi García, a passe de Fernando. A tática de Jesus a resultar em pleno: para quê Aimar, se se tem os jogadores do FC Porto?

43’ – Cartão amarelo para Hulk por simular uma falta. Alguns comentadores defendem que o jogador brasileiro já devia ter sido admoestado antes, por simular ser um ponta-de-lança decente.

62’ – Belluschi, na marcação de um livre, remata fraco. O que se compreende: não se consegue ganhar balanço convenientemente, quando se está no bolso do César Peixoto.

63’ – Os adeptos do Benfica começam a ter algumas dificuldades em recordar-se do nome do defesa central que, há poucos dias, foi vendido para Inglaterra. Ainda sabem que o primeiro nome começa por “D” e que tinha caracóis, mas pouco mais.

In Record

04 fevereiro 2011

Cartoon

Tempo Útil _ João Gobern


Sempre em trânsito

Triste é o destino, a que chamamos “periférico” por pudor de utilização da palavra “pobre”, do futebol português, condenado a ser uma escala, um entreposto, um momento provisório para os melhores praticantes da modalidade – sejam eles portugueses ou estrangeiros. As partidas simultâneas de dois homens que ajudavam a subir o nível e a fazer a diferença junto dos adeptos dos respetivos clubes vem recordar-nos uma adenda à verdade anterior – é que tanto faz passar por cá a caminho de uma brilhante carreira internacional (e é isso que se augura a David Luiz) como dar aqui os últimos passos antes da reforma que, no caso dos futebolistas de qualidade, soa sempre a antecipada (caso de Liedson).

Dir-me-ão que as hipóteses de um percurso acompanhado sempre pela mesma camisola, pela mesma cor, pelo mesmo clube são hoje uma nulidade ridícula – pois se os pragmáticos liberais se preparam até para destroçar à espadeirada o Estado Social, se os ideólogos sem ideologia nos querem convencer que a mobilidade, a flexibilidade e a precariedade são hoje características essenciais do Emprego, não será inútil e “romântico” pensar em estabilidade e “longa duração” para uma profissão de picos de exigência, como é o futebol profissional? Sei que os argumentos correm contra mim, que estes tempos não se compadecem com mãos sobre o emblema e emblemas sobre o coração. Mas não me peçam que deixe de considerar decisivos, para o meu amor ao Futebol, símbolos como Eusébio, Humberto Coelho, Rui Costa, Nuno Gomes, Fernando Gomes, Vítor Baía, Jorge Costa, Vítor Damas, Manuel Fernandes ou Oceano. Hoje, com a alta rotação, haverá espaço e ocasião para que quem chega se transforme numa bandeira de clube, numa chave de equipa? Creio bem que não.

Fala mais alto o Deus-Dinheiro, que comanda como bem entende, sem se preocupar com a “carga” que transporta de um lado para o outro. David Luiz vai deixar saudades (e do jogo desta noite, mais importante do que se adivinha, sairá noção mais exata da falta que fará em campo), até porque era um potencial capitão do Benfica à altura dos históricos. Liedson e o seu físico improvável, as suas artes autênticas e as suas artimanhas de “moleque”, os seus sprints e os seus remates intempestivos vão criar um vazio difícil de suportar. Em menos de meio ano, o Sporting perde os seus dois símbolos: primeiro João Moutinho; agora o brasileiro, que nem deixa retorno financeiro digno desse nome. Diz Couceiro aquilo que pode (mas talvez não aquilo que devia): “Não há insubstituíveis no Sporting”. Diz um diretor com dois meses de casa sobre um jogador que ali entusiasmou durante sete anos e meio. E depois ficam todos muito surpreendidos quando a casa vem abaixo...

In Record

O Voo da Águia_ Marta Rebelo


Medo de Hulk?

O PAVOR DO MÍSTER CUSTOU-NOS GRANDE PARTE DOS 5 GOLOS

O Benfica fechou o mês de janeiro somando apenas vitórias, segurando a posição na Liga e avançando às meias-finais da Taça de Portugal e da Taça da Liga. Será 13 o número da sorte, da vingança, no Dragão? Ao 14.º jogo, o pior pesadelo dos nossos últimos cinquenta anos regressa.

Jesus parece já não ter medo de Hulk. O pavor do míster custou-nos grande parte dos 5 golos que sofremos em novembro passado. Mas com dois jogos consecutivos das nossas competições terceiras, Jesus pode ensaiar soluções e rodar o banco. O jogo contra o Desportivo das Aves foi o último balão de ensaio. O reforço da metade do meio-campo, com os dois médios-defensivos a criarem uma segunda barreira, à frente de uma defesa central que se antecipa desfalcada (vai-se David Luiz…), foi uma boa ideia, para suster a pujança ofensiva do FCP. E ontem colocaram-se a nu – se é que as evidências não estavam já completamente despidas – os nossos “últimos” e os suplentes que têm sede de jogo e correram a beber a oportunidade. Como Jara, que acenou à titularidade, marcou e terminou a partida a preencher o miolo do meio-campo quando o Benfica ficou sem médio de construção, órfão de Aimar. Ou os reforços frescos Jardel e Fernández: o brasileiro tranquilizou-me, o argentino foi muito tímido mas fez duas assistências cruciais, e tinha Peixoto atrás, é preciso ver. Depois, temos Kardec, que joga de costas para a partida e já nem a juventude lhe vale como argumento para justificar o que não joga; Luís Filipe e Felipe Menezes, que marcou o 4.º golo mas só pode ter sido por engano…; e César Peixoto – que mais posso dizer sobre Peixoto? Apenas que só o nome de Tozé Marreco, jogador do Aves, lhe faria justiça.

Jesus até fez o favorzinho aos adeptos e deu 18 minutos de jogo a Nuno Gomes. Aos 75’ já lá cantava o golo. E, pouco depois, a assistência no terceiro.

Quem é que tem medo do Hulk? Eu não!


In Record

Crónica de João Malheiro


Fascinação

Será que o Barcelona actual é a melhor equipa do mundo de todos os tempos? Essa mesmo que ainda há semanas despachou o Real Madrid de Mourinho com cinco golos sem réplica? Orientada pelo ambicioso e determinado Guardiola, tem um quadro fantástico de jogadores.

Não é só Messi, Xavi ou Iniesta, não é só aquela mística muito peculiar, é aquele vulcão que se agiganta dentro e fora do campo, que trucida sem ponta de piedade competitiva todos os que se atravessam no seu carril competitivo.

Que outra equipa, pelo menos no último meio século, se lhe assemelha? O Ajax, do início da década de 70. O conjunto inspirado na sabença de Rinus Michels, dirigido pelo não menos sapiente Stefan Kovacs. Uma equipa que esgrimia com jogadores da linhagem de Johan Cruijff, Krol ou Neeskens. Esse Ajax, com quem o nosso Benfica até disputou uma renhida meia-final europeia, venceu títulos de enxurrada, inaugurando o conceito de futebol-total.

Barcelona ou Ajax? A comparação é difícil, os dois colossos distam quase quarenta anos de diferença. Muitas coisas mudaram, entretanto, no futebol. O que não mudou nem mudará é a excelência dos espectáculos, só protagonizados por colectivos fabulosos. O que não mudou nem mudará é a capacidade para garantir títulos, quaisquer que sejam, só protagonizados por colectivos deslumbrantes.

Barcelona ou Ajax? Afinal, que importa? Duas dedicatórias ao que de mais esplêndido se viu, desde sempre, no jogo da bola. Barcelona ou Ajax? A resposta é Barcelona e Ajax, sendo que a ordem dos factores é mesmo irrelevante.

03 fevereiro 2011

Email Aberto _ Domingos Amaral


Primeira demão

From: Domingos Amaral
To: Jorge Jesus

Caro Jorge Jesus
Depois das três últimas derrotas, 10-1 em golos como lembrou o picareta falante, há três estratégias que o Benfica pode utilizar na quarta-feira, no estádio do Freixo. A saber:

Estratégia do Autocarro – trata-se de colocar todos à frente da baliza, duas linhas de cinco jogadores a defender. Tal como Mourinho fez com o Inter em Barcelona o ano passado, onde até Eto’o parecia um defesa lateral. Normalmente, ou se perde por um, como Mourinho, ou se empata. O problema é que não está no DNA do teu Benfica jogar assim.

Estratégia da Holanda – trata-se de dar sarrafada o jogo todo, jogar no limite da dureza, como a Holanda fez em 2006 contra Portugal, e em 2010 na final contra a Espanha. Cria o caos, muitos casos, dá normalmente direito a expulsões, mas irrita tanto a outra equipa que acaba por se perder por poucos – 1-0 nos dois casos da Holanda. O problema é que o teu Benfica não tem nenhum Paulinho Santos.

Estratégia de Bento – trata-se de jogar como Portugal no último particular contra a Espanha. Cabeça e pernas a 200 à hora, pressão altíssima, três jogadores a cair sobre os portadores da bola, nem dando espaço para eles respirarem. O problema é que isto é muito difícil de fazer fora de casa, onde a força mental nunca é a mesma.

Portanto, e em vez de inventares com o David Luiz a lateral, eu escolhia uma estratégia tripla: o autocarro holandês com alguns pontuais piques à Bento. Não te esqueças que se trata apenas da primeira demão, e que há uma segunda na Luz.

In  Record

02 fevereiro 2011

SLBenfica _Porto 1ªmão meia-final Taça Portugal 10/11


Benfica vence (2-0) FC Porto e está lançado para o Jamor

O Benfica venceu o FC Porto (2-0) no Estádio do Dragão e colocou-se em boa posição para chegar à final da Taça de Portugal, no Jamor, algo a confirmar na partida da segunda-mão, no Estádio da Luz.

Foi aos 6 minutos que o Benfica começou a construir a vitória. Fábio Coentrão aproveitou um desentendimento entre Maicon e Helton e, mais rápido que os adversários, esticou-se o suficiente para colocar a bola no fundo da baliza portista.

A ganhar no Dragão, a equipa de Lisboa ganhou confiança e, assentando a estratégia numa pressão intensa sobre o adversário, ia conseguindo manter a baliza de Júlio César a salvo de perigo.

Silvestre Varela, endiabrado, ainda criou algumas ocasiões de golo junto à baliza benfiquista, mas foi Javi Garcia, do outro lado, quem marcou o segundo golo da noite. O médio do Benfica aproveitou uma bola solta em frente da baliza portista e rematou forte, enganando Helton.

Tentou o FC Porto reagir, Hulk fez potente remate à baliza de Júlio César, mas o intervalo chegou com vantagem dos visitantes.

Ao intervalo André Villas Boas fez entrar Cristian Rodriguez para o lugar de James, mas as características da partida mantiveram-se com a equipa de Jorge Jesus a tapar bem os caminhos ao ataque do FC Porto.

Aos 59 minutos, momento de frisson na partida: Fábio Coentrão viu o segundo cartão amarelo e deixou o Benfica a jogar apenas com 10 elementos. César Peixoto passou a jogar a defesa-esquerdo. Bem tentou o FC Porto o golo que fosse capaz de relançar a partida, mas o Benfica recuou no terreno, apostando em rápidas saídas para o contra-ataque.

Foi aliás Óscar Cardozo quem esteve mais perto de marcar, quando aos 81 minutos rodopiou sobre o próprio corpo e rematou para defesa com as pernas de Helton.

O FC Porto sofreu esta noite a segunda derrota da temporada – a primeira foi diante do Nacional, também em casa, em partida a contar para a Taça da Liga.

Por força da lei _ Ricardo Costa


As “ligas” dos jovens

Uma das reformas adiadas no futebol português é a integração das equipas B nos quadros competitivos. Os clubes da Liga querem, e bem, recuperar o assunto, como se soube esta semana. Depois da última experiência – traumática e dispendiosa –, os projetos foram abandonados. Os clubes voltaram às primeiras formas de aproveitamento dos jogadores saídos dos escalões jovens; alguns concentraram as “cedências” dos atletas em um ou dois clubes. Chegou a altura de configurar um outro modelo, a cargo da Liga e, também, da Federação.

As equipas B poderão ser uma solução e não um problema, na sustentação do que é específico neste negócio, em que são preponderantes a valorização de “ativos” e a capitalização do investimento em formação. O instrumento dessa solução seria radicalmente diferente: a criação de um “Campeonato B” autónomo, ou seja, exclusivamente constituído pelas equipas B e sem ligação com as provas onde estão as equipas-mãe.

Este campeonato teria, no seu arranque, uma divisão 1 para as equipas B dos clubes profissionais e uma divisão 2 para as equipas B dos não profissionais (se houvesse suficientes clubes interessados). Depois tudo se passaria como se as equipas B não tivessem conexão com os clubes de origem, a não ser quando se admitissem novas inscrições no início das épocas. Na divisão 2 não haveria descidas; subiriam à divisão 1 os três primeiros da divisão 2, com as correspondentes descidas da divisão 1. No caso de competirem mais do que 16 clubes, cada uma das divisões teria mais do que uma série e seria realizado um playoff final para disputar o título da divisão e as subidas (na divisão 2). No caso de a divisão registar poucos clubes inscritos, ou se houvesse um número diminuto de competidores nas eventuais séries, seria essa a oportunidade para testar uma prova a 3 ou 4 voltas.

A independência deste “Campeonato B” – ou sub-23 – levaria a que as equipas B deixassem de competir em desigualdade potencial nos campeonatos. Não estariam sujeitas à inibição de ascenderem às provas profissionais (ou à mais importante delas), o que desvirtua o mérito dos melhores. Haveria competitividade. E daí resultaria um “produto” que se poderia sustentar na atratividade dos “valores” em ascensão e no aproveitamento dos jogadores “excedentários” das equipas principais. Um “produto” que trouxesse, pelos direitos televisivos e pelos “parceiros comerciais”, a receita que a Federação e a Liga distribuiriam pelos clubes-mãe. Um projeto que se autossustentaria, portanto, sem megalomanias. Como sempre, o dinheiro será o cerne, uma vez que poucos clubes voltarão a arriscar gastar o que não têm…

É por estas e outras matérias que é mais decisivo que nunca uma estratégia conjunta para a Federação e para a Liga. Onde estejam pessoas que, sem excesso de reuniões mediáticas e “comissões de estudo”, tragam arrojo e fôlego para implementar as ideias que acabem com a letargia.

Também por isso se deveriam considerar com seriedade as próximas eleições na FPF, cujo futuro, aliás, bem poderia começar hoje.

In  Record
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