11 maio 2011

Crónica de João Malheiro


João

Esta coisa de ter quase cinco mil números no telefone é uma das minhas maiores virtudes. Quem quiser que julgue, não gosto nem quero ser juiz em causa própria. Só que os telefones também têm inconvenientes, têm até toques terroristas, toques assassinos. Um exemplo? Há dias, poucos dias, o telefone tocou e, do outro lado, voz amargurada, comunicou que o João morreu.

O João Maria Tudela era um bom amigo, uma figura singular, talvez singularíssima. Os fascistas diziam que ele era comunista, os comunistas diziam que ele era fascista. O que é que ele era? Não sei, não soube, nunca saberei. Sei que era um homem muito especial. Tão especial, tão especial, que um dia, na Luz, vivia-se o império vermelho do nosso Eusébio, o João, depois de um golo magnífico do Pantera Negra, saiu do estádio. Na bilheteira, solicitou novo ingresso.

«Não precisa de pagar, o jogo está quase a terminar», foi o que ele ouviu. «Mas eu quero pagar, este jogo vale, no mínimo, dois bilhetes.»

E pagou. E entrou, renovadamente, feliz, na Luz. E sentou-se na bancada com o contentamento de um menino, daqueles que juravam que o Eusébio era uma personalidade do outro mundo.

João, eu não fui ao teu funeral, ainda que sofresse com a tua partida. Sabes a razão, amigo? Não havia bilhetes. É que eu, juro-te, queria comprar muitos. Ainda que isso jamais me consolasse a alma, jamais me enxugasse as lágrimas…

10 maio 2011

Email Aberto _ Domingos Amaral


Fica Jesus

From: Domingos Amaral
To: Luís Filipe Vieira

Caro Luís Filipe Vieira
Escreveu Mário Zambujal que o amor é como o leite: nasce fresco, depois ferve, torna-se morno e, no fim, azeda. Jesus e o Benfica são um amor assim. Depois das paixões e dos orgasmos espetaculares, os erros, as raivas e as mágoas. Mas (não o sabemos todos?) só dura quem supera o mal. Pessoa dixit: “Quem quer passar o Bojador tem de passar além da dor.”

No futebol, tal como num casamento, há limites mínimos. Para mim, já o escrevi aqui, treinador que garante a Champions deve ficar. Jesus conseguiu, apesar de tudo, melhor que Quique, Camacho ou Fernando Santos. A questão não é pois se “deve ficar”, mas “como deve ficar”. E aí há muito a mudar.

Primeiro, os jogadores. Não deve permanecer quem não tem talento (Roberto, Kardec, Filipe Menezes, Sidnei, Luís Filipe ou Weldon) ou motivação (Cardozo); e só deve vir quem tem ambos. Depois, a tática. O 4x4x2 deve tornar-se matreiro e contido, com menos ataque à maluca e mais posse de bola. A seguir, o planeamento da época. É preciso começar bem, manter e acabar melhor. O sabor amargo pode vir no meio, não no princípio ou no fim, como esta época.

Em quarto lugar, altere-se o “posicionamento” do Benfica. O FC Porto é uma “superequipa” e estamos a milhas do colosso. Não somos já “o maior e melhor clube”, mas apenas um aguerrido “challenger”. Quem defender o contrário viverá numa perigosa ilusão.

Por fim, mude-se o discurso. Não quero “ganhar a Champions”, ter “a equipa mais cara de sempre”, ou um “mestre das táticas”. Bastam-me golos e espetáculo, um Jesus trabalhador e humilde e já agora, como dizia o outro, concentradíssimo. Não um clone de Mourinho, mas um Wenger.

   In Record

09 maio 2011

Por força da lei _ Ricardo Costa



Em paragem cardíaca

O julgamento das condutas de Jorge Jesus e Luís Alberto no fim do jogo Benfica-Nacional trouxe perplexidade a quem desconhece os caminhos do Regulamento Disciplinar (RD) da LPFP. Ambos foram punidos por tentativa de agressão (?!), mas acabaram com penas bem diferentes. Assim foi por causa das chamadas “molduras de punição” a que cada um estava sujeito. Já sabíamos que Luís Alberto, enquanto jogador que tentasse agredir (ou agredisse) um treinador, sofreria, em abstrato, pena mais pesada que Jorge Jesus, enquanto treinador que tentasse agredir (ou agredisse) um jogador. As diferenças ainda são assinaláveis, desde logo porque os treinadores são punidos com molduras sancionatórias especialmente reduzidas: aplicam-se-lhes as suspensões dos ilícitos dos dirigentes, mas reduzidas em um quarto. Quando se apreende que, envolvido reciprocamente numa conduta com um jogador, a punição do treinador, pelo mesmo facto, pode ir, na hipótese mais grave (agressão consumada), de 23 dias a 9 meses, e a punição do jogador pode ir de 2 meses a 2 anos – e, até à época passada, a moldura ia de 6 meses a 3 anos… –, já não haverá surpresa com os resultados concretos dos processos disciplinares.

O problema está a montante. O ano passado realçou-se a desproporcionalidade em abstrato, não das decisões concretas mas das sanções possíveis entre as agressões de jogadores a agentes passivos qualificados pelas especiais responsabilidades na realização do jogo, desde os árbitros até aos delegados da Liga ou os assistentes de recinto desportivo – então puníveis entre molduras que iam de 6 meses a 6 anos – e todas as restantes formas de agressão – puníveis em jogos e nunca, então, em montante superior a 3, 4, 5 ou 6 jogos. Agora, a desproporção, também em abstrato, está entre as sanções dos diferentes autores da mesma infração, uma vez que são condenados pelo mesmo facto e são as vítimas de cada um deles.

É provável que estes processos ainda não sejam a força motriz de uma “revisão global” do RD, que, entre outros projetos, pede uma Liga personalizada e combativa, correspondente ao fulgor dos clubes portugueses na Europa. Ao invés, o imobilismo na Liga é hoje assinalável: nas apostas desportivas, eventualmente um sinal distintivo do mandato, abdicou; na “mudança” relativa ao usufruto dos direitos televisivos, em benefício dos clubes, a ingenuidade já alcançou que não é para “mexer”. A abertura ao exterior e a expansão do negócio ficaram pelo caminho; salva-se o apuramento da capacidade de organização. A disciplina deixou de existir, de caso pensado: o último jogo em Braga prova que a impunidade passou para o terreno. A arbitragem gere a transição para a Federação, na busca de um desígnio global. Entretanto, os clubes vão fazendo as cruzes no jogo das diferenças e não parecem insatisfeitos. Se nem o Nacional, tradicionalmente contestatário, se queixou de um castigo de 1 mês ao seu jogador – que, na prática, são 2 jogos de fim de época (=João Pereira por insultos) –, é porque o balanço da Liga de Gomes é bem positivo… E, a julgar pelas tiradas laudatórias dos jornais, deve ser mesmo!


 In Record

Aqui á Gato _ Miguel Góis


Saber sofrer

A primeira coisa que me consola é perceber. Perceber como é que esta época pôde acontecer. Nessa medida, quero ver o meu presidente e o meu treinador a falarem dos erros que foram cometidos, e sobre o que se vai fazer no futuro para evitar que o clube os cometa de novo. Por exemplo, por que é que a equipa que marcou quatro golos em casa ao Lyon e ao PSV não consegue marcar um golo fora ao Braga e, já agora, ao Hapoel? Por que é que os jogadores, de há uns tempos para cá, parecem arrasados física e mentalmente? Por que é que Javi García joga tão recuado, quase como terceiro central, contra equipas que alinham apenas com um ponta-de-lança (FC Porto e Braga), deixando um buraco no meio-campo? Por que é que Airton não joga ao lado de Javi García contra equipas que povoam o meio-campo com três jogadores (FC Porto e Braga), se tão bons resultados essa dupla teve na segunda parte da final da Taça da Liga, quando o Paços de Ferreira começava a dominar o meio-campo? Por que é que não há um plano B para quando equipas como FC Porto e Braga nos fazem pressão alta? Por que é que certas atitudes individualistas de Gaitán e, sobretudo, de Jara (e, sim, refiro-me à forma absurda como nasce o primeiro golo do FC Porto na Luz, na meia-final da Taça de Portugal), parecem passar impunes?

De seguida, quero ação. Quero que o Benfica renove com Maxi Pereira já esta semana. Quero que o Fábio Coentrão fique no clube e seja aumentado, passando a ser o mais bem remunerado jogador do plantel. Quero que se faça uma boa oferta ao Atlético Madrid por Salvio, que já demonstrou vontade de ficar no clube. Quero que Pablo Aimar, de quem se diz estar de saída, não saia, apesar do bom ordenado que aufere – ele merece-o (na final da Taça da Liga, para além da magia do costume, pareceu-me o jogador em campo que mais bolas recuperou).

Outros preferirão ver cabeças a rolar. Eu quero levantar a cabeça.

 In Record

Tempo Útil _ João Gobern



Aquilo que conta
Caso o futebol dinâmico e consistente do FC Porto não seja acometido por nenhuma síncope durante a visita a Espanha, na Liga “do nosso contentamento” há um dos duelos já resolvido. Com Falcão a subir ao céu (e tem tempo de salto para isso...), com Guarín a dar razão a Jesualdo, mesmo “a título póstumo”, com Hulk a regressar ao seu posto de municiador depois de se ter encarregado da componente executiva, com Fernando majestoso, com Moutinho como mais-valia incontestável e a fazer sorrir aqueles que o compraram como “maçã podre”, com Helton no melhor ano de sempre, Rolando em confirmação, Otamendi em plena adaptação e Alvaro Pereira sempre como um TGV, com tudo isto e um treinador que calou muitas dúvidas, incluindo internas, e suscitou novos entusiasmos, incluindo externos, parece estar entregue – e bem – uma parte da final de Dublin.

Daí à bravata, vai um passo. Ora há pouco mais de um ano, executivos e torcedores portistas desvalorizaram a então estreante Liga Europa – que era de segunda, uma taça de consolação, uma quase repescagem. Porquê? Simples. Por essa altura (quartos-de-final) só lá andava uma equipa portuguesa, a do Benfica, e era preciso baixar a cotação. Volvida uma época e não tendo o FC Porto chegado à Liga dos Campeões por demérito próprio e por facilitismo com o Braga, o discurso já mudou. Agora, já nem o Real Madrid os travaria (!) e esta equipa já só se equipara à de 1987. Mais umas épocas e ainda vamos perceber que o clube de Pinto da Costa ganhou a Liga dos Campeões de 2004 contra o técnico setubalense...

Do outro lado, Benfica ou Braga. Insisto: para os minhotos, a missão está mais do que cumprida e, a menos que a substituição de Domingos e a renovação do plantel se transformem em desastres, a Europa terá outra atenção quando vir aparecer o nome destes guerreiros do Minho. Pena, nesta maré europeia, os incidentes de domingo, porventura sinais de que a beatificação dos túneis do estádio do Braga, que alguns pretendiam, teria sido um erro crasso – e vamos ver que provas se juntam agora...

Quanto ao Benfica, pasmo ao ouvir a tese de alguns adeptos, que dão como preferível a eliminação frente ao Braga do que a humilhação na final frente ao FC Porto. Cada vez percebo menos: então agora, o dado é querer perder por “falta de comparência”? Entrega-se assim o percurso centenário de um clube que só ganhou provas europeias quando as suas possibilidades de êxito eram consideradas ínfimas (contra Barcelona e Real Madrid)? Quando despertei para o futebol, a frase “sem medos” era voz corrente no Estádio da Luz. Não valerá a pena, aproveitando os saberes acumulados, usando a experiência desta época, recuperá-la e enfiá-la na bagagem para a Irlanda?

 In Record

O Voo da Águia_ Marta Rebelo


Época de granizo

Na 6.ª feira passada um temporal transformou o relvado da Luz num tapete branco de granizo. A borrasca foi tal que a relva da catedral ficou ensopada e queimada. Tal e qual como a época do Benfica.

Começámos com um temporal inesperado; seguiu-se a bonança de 18 vitórias consecutivas; e depois regressou a tormenta, com a derrota em Braga e o fim do sonho dos bicampeões; a desistência em casa ante o rival da invicta e a eliminação da Taça de Portugal pelos mesmos do Porto. Neste jogo, senti-me como se os tais 20 centímetros de granizo que choveram na 6.ª me tivessem caído em cima. E agora, com as fichas todas apostadas na ida a Dublin, à final da Liga Europa, entregámo-nos a uma roleta russa que pode bem disparar-nos no meio da testa.

Contra o Sp. Braga, na 5.ª feira, o Benfica acusou o cansaço e desgaste de uma época errática de expectativas tão altivas quanto goradas. O presidente Vieira já foi a Madrid negociar Fábio Coentrão por 30 milhões. Parece que já baixámos os braços, pois o carimbo para Dublin dá direito a enfrentar outra vez o FC Porto. E depois de um hat-trick de 5-1 conseguido pelos portistas na Euroliga, a esperança morre em último mas não é enorme coisa. Antes disso, e por termos deixado o Sp. Braga marcar na Catedral, jogar na pedreira bracarense não vai ser pera doce, nem de deslize suave. Valha-nos a arbitragem internacional. Mas valha-nos Deus, que vamos precisar de tática, frescura de pernas e de cabeça, ausência de receios e invenções exóticas. É que Jesus, esta época, não nos tem valido. O míster quer voltar a ser campeão na Luz e Rui Costa “respondeu-me”, dizendo que não será o trambolhão na Liga Europa que colocará a cabeça de JJ no cepo. Então expliquem-me, por favor, qual é a estratégia para 2011/2012. Precisamos desesperadamente de uma. E de uma época muito solarenga.

 In Record

Email Aberto _ Domingos Amaral


Genial


From: Domingos Amaral
To: Falcão

Caro Radamel Falcão
Se há jogador que eu tenho pena que o Benfica não tenha contratado, esse jogador és tu. Apesar de nestes dois anos não teres sido o melhor marcador no campeonato – o ano passado foi Cardozo que te venceu no photofinish, este ano será Hulk – és sem qualquer sombra de dúvida um dos melhores goleadores que já passou pelo futebol luso.

Não vi jogar nem Peyroteo, nem Eusébio, nem Yazalde, mas dos que vi jogar, e foram muitos, tu és o melhor. Melhor do que Gomes, melhor do que Jordão ou Manuel Fernandes, melhor do que Nené, Filipovic ou Magnusson, melhor que Nuno Gomes ou Liedson, e sim melhor, muito melhor que Jardel. Porque ao contrário dele, que na prática era “um pinheiro” que se mexia muito bem dentro da área, tu és um grande jogador da cabeça aos pés. Em especial nos últimos jogos do FC Porto, és essencialmente tu que tem mantido a equipa lá em cima, perigosíssima e letal.

Enquanto benfiquista, não tenho qualquer problema em reconhecer que sinto inveja dos azuis por terem um jogador assim. Ainda por cima um jogador que quase foi do Benfica. Não sei a quem se deve o fracasso da tua contratação, se a Vieira, a Jesus, ou a Rui Costa, o que sei é que ela falhou por 200 ou 300 mil euros e o Benfica deixou fugir para o FC Porto um génio da bola. Pelos vistos, nessa altura não tivemos dinheiro para o contratar. O que é estranho, pois de então para cá, o Benfica gastou muitos milhões de euros com avançados piores, como Kardec, Éder Luís, Jara ou Rodrigo, o tal que depois foi emprestado ao Bolton. É por essas e por outras que andamos agora a lamber as feridas enquanto eles festejam.

  In Record

08 maio 2011

2ª taça CERS conquistada


O hóquei em patins do Sport Lisboa e Benfica voltou a fazer história na Europa. A formação de Luís Sénica esteve imparável durante toda a prova e conquistou o troféu em Espanha, com enorme justiça, ao derrotar a equipa da casa, por 4-6. Destaque, ainda, para o “poker” de Diogo Rafael.

As equipas entraram no encontro com uma postura de contenção, mas com o passar dos minutos os benfiquistas foram tomando conta das operações e marcaram dois golos em cinco minutos. O tento inaugural foi da autoria de João Rodrigues (14’), num remate potente, depois de uma jogada individual de Valter Neves e o segundo pertenceu a Diogo Rafael (19’) com uma bomba de meia distância.

O Vilanova reduziu aos 23 minutos, com Jordi Ferrer a contar com alguma sorte num ressalto, mas o Benfica voltou a mostrar que era superior, logo no minuto seguinte, outra vez com Diogo Rafael a brilhar. Ao intervalo a vantagem era justíssima.

Nos primeiros dez minutos do segundo tempo não houve golos, embora o Benfica fosse sempre mais perigoso no ataque, no entanto, o Vilanova até marcou primeiro, por Roger Rocasalbas (11’). Quem ainda não estava satisfeito era Diogo Rafael, que voltou a fazer mais dois golos (13’ e 14’) e quase selou a vitória europeia da formação de Luís Sénica.

Os espanhóis nunca desistiram e aos 19 minutos, Jordi Galan fez o 5-3, levando esperança às bancadas. Essa mesma esperança voltou a perder-se aos 20 minutos, porque Luís Viana se encarregou da marcação de um livre directo e deu espectáculo com uma série de simulações decisivas. Com a partida praticamente fechada, Jordi Ferrer bisou (23’), mas o triunfo europeu já não fugia à turma da Luz.

A Taça CERS volta a ser conquistada volvidos 20 anos (1990/91) da última vitória. A secção de hóquei em patins está de parabéns!
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