maio 11, 2011

Crónica de João Malheiro


João

Esta coisa de ter quase cinco mil números no telefone é uma das minhas maiores virtudes. Quem quiser que julgue, não gosto nem quero ser juiz em causa própria. Só que os telefones também têm inconvenientes, têm até toques terroristas, toques assassinos. Um exemplo? Há dias, poucos dias, o telefone tocou e, do outro lado, voz amargurada, comunicou que o João morreu.

O João Maria Tudela era um bom amigo, uma figura singular, talvez singularíssima. Os fascistas diziam que ele era comunista, os comunistas diziam que ele era fascista. O que é que ele era? Não sei, não soube, nunca saberei. Sei que era um homem muito especial. Tão especial, tão especial, que um dia, na Luz, vivia-se o império vermelho do nosso Eusébio, o João, depois de um golo magnífico do Pantera Negra, saiu do estádio. Na bilheteira, solicitou novo ingresso.

«Não precisa de pagar, o jogo está quase a terminar», foi o que ele ouviu. «Mas eu quero pagar, este jogo vale, no mínimo, dois bilhetes.»

E pagou. E entrou, renovadamente, feliz, na Luz. E sentou-se na bancada com o contentamento de um menino, daqueles que juravam que o Eusébio era uma personalidade do outro mundo.

João, eu não fui ao teu funeral, ainda que sofresse com a tua partida. Sabes a razão, amigo? Não havia bilhetes. É que eu, juro-te, queria comprar muitos. Ainda que isso jamais me consolasse a alma, jamais me enxugasse as lágrimas…

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