julho 26, 2009

Crónica Semanal do Ricardo Araújo Pereira

Edição 26/07/2009 A Bola

Jesus e os milagres

A imprensa desportiva tem vivido dias de sonho: o facto de o novo treinador do Benfica se chamar Jesus proporciona uma quantidade quase infindável de referências jocosas ao Messias, óptimas para fazer títulos. A equipa estava moribunda, mas Jesus ressuscitou-a. Jesus trabalha para não ser crucificado no final da época. A última ceia de Jesus antes do jogo de apresentação. Os discípulos de Jesus começam a assimilar a sua doutrina. E, quando o Benfica ganhar num terreno alagado, tenho a certeza de que Jesus há-de caminhar sobre as águas. Por tudo e por nada se fala dos milagres de Jesus. Ora, eu também estou entusiasmado com o trabalho de Jorge Jesus, e gosto cada vez mais do futebol da equipa. Mas, sem querer ser desmancha-prazeres, pôr o Benfica a jogar bem não é um milagre. Quem fez o milagre foi Quique Flores, no ano passado: pôr aqueles jogadores a praticar um futebol tão pobre é que é notável — e, para os nossos adversários, milagroso.

Jorge Jesus, felizmente, tem mais de Jorge que de Jesus. No tempo do Fernando Santos, Jesus teve uma presença relativamente importante na equipa técnica e eu, com franqueza, não apreciei especialmente o trabalho d'Ele. Sempre me fez confusão, aliás, que uma equipa com tanta gente crente em Jesus tivesse tão pouca ajuda de Deus. Nem os atletas de Cristo nem o treinador nos valeram, naquela época. O próprio Fernando Santos disse uma vez, salvo erro no Prós e Contras, que guardava uma imagem de Cristo no bolso e era a imagem que lhe dava umas picadas para indicar as substituições. O problema é que Cristo vai fazer 2009 anos em Dezembro próximo (é três semanas mais velho que o Trapattoni) e, de acordo com o Novo Testamento, não tem curso de nível IV. Assim, não admira.

Verdadeiramente difícil — e, isso sim, milagroso — não é fazer do Benfica campeão. É fazer com que o Belenenses desça à segunda divisão. Recentemente, vários treinadores têm tentado a proeza sem êxito. Nos últimos quatro anos, o Belenenses desceu duas vezes à segunda divisão e, mesmo assim, conseguiu ficar na primeira. Tem óbvias vantagens: assim, o clube pode dedicar à crítica musical o tempo que gastaria a preocupar-se com o futebol. Se fosse um clube que, como os outros, estivesse sujeito à descida de divisão, não poderia desperdiçar tempo com estas matérias. Na semana que passou, um jornalista do Público teve a ousadia de escrever, numa crítica a um concerto do Super Bock Super Rock, que o estádio do Restelo costuma estar às moscas. A direcção do Belenenses escreveu uma carta ao Público a chamar boi ao jornalista e exigiu um pedido de desculpas — que aliás obteve. O mesmo jornal que, no caso das caricaturas de Maomé, considerou que as desculpas eram injustificadas, pede desculpa ao Belenenses por uma crítica musical. Américo Thomaz, esteja onde estiver, repousará com certeza satisfeito.

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