fevereiro 05, 2010

Crónica Semanal do Leonor Pinhão

In ABola

Prevê-se um "derby" muito animado

A crueldade é detestável. No futebol há, frequentemente, campo para a crueldade, que é sempre detestável, quer seja para gáudio das nossas cores ou das cores adversárias. Por exemplo, os «olés» cantados das bancadas para uma equipa em colapso são uma manifestação sombria de mau carácter colectivo e de péssimo desportivismo do público em triunfo.
Se as instâncias legisladoras do futebol proíbem e castigam as manifestações racistas do público — excelente pedagogia —, não se entende como é que deixam impunes os cânticos de humilhação que ferem de morte uma equipa inteira no relvado, e não na arena, mais os suplentes sentados e os adeptos coitados.

Na noite de terça-feira, o Sporting teve uma noite muito infeliz no Porto e quando a goleada chegou à mão cheia, lá surgiram das bancadas os detestáveis «olés» que funcionaram como prolongamento do martírio, como se já não bastasse a derrota e a amplitude do resultado.

Tendo assistido ao jogo pela televisão na companhia, entre outros, de um bom amigo sportinguista, e vendo-o tão abatido com a situação, discretamente peguei no comando e fui baixando o som do aparelho para o poupar à crueldade.

— Deixa estar, não vale a pena — disse-me ele sem tirar os olhos do ecrã.

— É que não gosto de touradas — respondi-lhe, tentando expressar uma solidariedade de carácter social.

— Prefiro ouvir — murmurou como se falasse consigo próprio.

Constate-se que há, também, um certo masoquismo do adepto que sofre quando o sofrimento passa todas as marcas, como foi o caso.

Para o animar ainda lhe disse:

— Pronto, não fiques triste, na próxima terça-feira ganhas ao Benfica para a Taça da Liga e salvas a época — e fiz, como me competia, figas atrás das costas.
Mas nem me respondeu.

Limitou-se a encolher os ombros e, depois de um grande suspiro, proferiu:

— Ah, meu querido Paulo Bento! — o que até nem vinha nada a propósito.

Quando a dez minutos do fim do jogo, os comentadores da TVI anunciaram que Carlos Carvalhal se preparava para fazer uma substituição, um conviva benfiquista, com a mania que é treinador, sentenciou do sofá:

— Se fosse eu mandava entrar o Tiago!

— Que disparate! Trocar de guarda-redes à beira do fim, isso serve para quê? — contrariei-o em nome do bom senso e do respeito devido ao nosso amigo sportinguista que, finalmente, nos surpreendeu a todos com uma tirada de inconformismo.

— Não, não é trocar de guarda-redes. Se este Carvalhal percebesse alguma coisa de bola tinha mandado entrar o Tiago ao intervalo mas tinha lá deixado ficar também o Rui Patrício! E a jogar com dois guarda-redes na baliza talvez tivéssemos evitado esta coisa toda!

— E qual era o jogador de campo que mandavas sair? — perguntaram-lhe, querendo muito que o absurdo do diálogo lhe atenuasse as penas.

— Saía o João Pereira que não está a jogar nada, ainda nem sequer conseguiu levar com um cartão amarelo!

Fez-se silêncio porque, realmente, o nosso amigo do Sporting até tinha razão.

Numa paragem do jogo, a realização repetiu em câmara lenta o segundo golo de Falcao que foi o terceiro golo do FC Porto.

— Este tipo é um génio, deu cabo de nós na primeira parte — disse o nosso amigo sportinguista em mais um acesso de auto-flagelação.

— É bom, é, sim senhor — respondeu-lhe um coro de benfiquistas em jeito de comiseração.

— Vocês são mesmo incompetentes. Como é que deixaram o Falcao ir para o Porto? — atirou-nos de rajada, subitamente acordado do seu torpor.

E, naquele preciso instante, acabaram-se as tréguas entre os rivais da Capital. Estivemos ali nós a consolá-lo, a mitigar-lhe o sofrimento, a acompanhá-lo respeitosamente no transe e atreve-se agora o nosso amigo sportinguista a atirar-nos com farpas cruéis. Ah, não, basta!

— Preocupa-te com o Varela… — ouviu logo.

— Ouve lá, o que o Falcao fez ao Sporting não tem o menor valor! - ouviu logo a seguir.

— Marcou-nos dois golos, acham pouco?

— Até o chinês do Mafra vos marca três golos…

— O Falcao não chega aos calcanhares do Zhang!

Entretanto, mesmo ao cair do pano, Liedson reduziu de 5-1 para 5-2 e, num derradeiro assomo de crueldade, o Estádio do Dragão tributa ao levezinho um pesadíssima salva de palmas. Mil vezes pior do que os «olés», tal como o nosso amigo sportinguista a sentiu.

— O Liedson se tivesse categoria tinha-se recusado a marcar este golo! Isto é de uma falta de profissionalismo… — protestou.

— Então, agora, o Liedson já não tem categoria? — perguntou-lhe uma criança que pululava entre os presentes e que se começava a sentir bastante confusa com as flutuações de opinião.

Nem lhe respondeu.

Voltou a encolher os ombros. Suspirou e disse muito baixinho:

— Ah, meu querido Sá Pinto!

Foi logo abafado por um coro de protestos cívicos. Mas a realidade tem muita força. Acabara-se a Taça de Portugal como quatro dias antes se tinha acabado o campeonato e o nosso amigo, agora, já só tem um interesse: a Taça da Liga.

— Agora, para o campeonato, sou do Braga! — anunciou com grande solenidade.

— E já perguntaste ao pessoal de Braga se te aceita? Podem não estar interessados…

— Agora, se eu fosse o Carvalhal, metia os juniores a jogar contra a Académica, porque é jogo que não nos interessa nada, para estarmos na máxima força contra vocês, na terça-feira!

E nem nos deixou ouvir as flash-interviews.

Prevê-se um derby muito animado.

ÓSCAR CARDOZO e Carlos Martins desentenderam-se no sábado no jogo com o Vitória de Guimarães porque, numa jogada de ataque o paraguaio não passou a bola ao português que estava em melhor posição de marcar. Jorge Jesus, no final do jogo, explicou aos jornalistas que Cardozo estava obcecado por oferecer um golo ao seu compatriota Salvador Cabañas, hospitalizado em estado de coma depois de ter sido vítima de um ataque a tiro. Na segunda-feira, os jornais davam conta de que Cabañas tinha melhorado a sua condição, tinha acordado do coma e até já tinha falado.

— Passa a bola, passa a bola, Óscar! — terão sido as suas primeiras palavras.

Força Cardozo!

ECardozo inaugurou ontem o marcador, na Luz, e somou mais um golo à sua conta pessoal. Podia ter facturado mais o paraguaio, mas ontem o Benfica defrontou-se com um adversário temível: o fiscal-de-linha que acompanhou o ataque vermelho na segunda parte e que conseguiu descortinar foras-de-jogo espantosos a Di María, a Saviola e ao próprio Cardozo.

De facto, está mais madura esta equipa de Jorge Jesus. Os jogadores já nem protestam, limitam-se a sorrir.

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