setembro 20, 2010

Bloco de notas _ Nuno Farinha


Futebol em estado puro

Jorge Jesus foi de fato de treino para o banco na final da Supertaça. Paulo Sérgio fez as primeiras declarações à imprensa como treinador do Sporting… nas instalações do Vitória de Guimarães. Gaffes como estas são mais ou menos normais nos treinadores que têm hoje um inédito encontro no dérbi dos dérbis. O que une JJ e PS é muito mais do que a chegada ao topo do futebol português. É um género desempoeirado, quase “terra a terra”, que vai aos poucos desaparecendo do mapa para dar lugar a uma linha mais científica e “mourinhizada”.

Há várias marcas distintivas no estilo, a começar pela retórica. Na véspera da tal Supertaça, em Aveiro, Jesus nem deve ter pensado muito bem no que estava a dizer quando apareceu na Benfica TV a lançar o duelo com o FC Porto: “Chegamos a este jogo já com muita qualidade.” No dia seguinte, como se sabe, a nota artística andou perto do zero. Qualidade nem vê-la. Ou melhor, até houve muita, mas pertenceu em exclusivo aos dragões. Tiro ao lado de JJ. Aconteceu mais ou menos o mesmo a Paulo Sérgio na primeira jornada quando saiu derrotado na Mata Real poucas horas depois de ter dito que tinha “a melhor equipa do mundo”. Não se pode dizer, pois, que Jesus e Paulo Sérgio apliquem as melhores e mais modernas práticas quando é preciso recorrer às artes motivacionais. 

Há mais semelhanças. Por exemplo, as carreiras de jogadores atingiram dimensão semelhante e, já como treinadores, o melhor que conseguiram antes da chegada a Benfica e Sporting foi a presença na final da Taça de Portugal – Jesus pelo Belenenses (derrota por 1-0 com o Sporting), Paulo Sérgio pelo Paços de Ferreira (derrota por 1-0 com o FC Porto). Os pontos de contacto não ficam por aqui, porque nesta época ainda não foram capazes, nem um nem outro, de repetir a equipa inicial em dois jogos consecutivos, coisa que, de resto, também não deve acontecer hoje.

Ora, a questão é: se há tanta proximidade entre os dois, que jogo se pode esperar esta noite na Luz, quando até a situação de Benfica e Sporting obriga (teoricamente) a quem ambos tenham uma abordagem semelhante a este clássico? Essa é a resposta que vale um milhão de dólares. As águias estão literalmente proibidas de voltar a falhar sob pena de verem ruir – ainda em setembro! – as esperanças de renovar o título; os leões precisam de um resultado positivo para não ficarem igualmente a uma distância preocupante. Mais: quem sair “vivo” do dérbi ganha uma embalagem importante para as semanas seguintes, enquanto um desaire, nesta altura, é capaz de pesar… “toneladas”.

A esperança no duelo de aflitos pode estar, apesar de tudo, naquela que é (outra semelhança) uma das principais qualidades de Jorge Jesus e Paulo Sérgio: a coragem. E, exatamente por isso, não me admiraria nada que este Benfica-Sporting acabasse transformado num jogo daqueles que ficam para recordar por muitos anos.

In Record

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