setembro 22, 2010

Tempo Útil _ João Gobern


Hora de mudança

Outros fossem os protagonistas, com personalidades menos transparentes e currículos menos impolutos, e a “operação José Mourinho”, levada a cabo por Gilberto Madaíl, poderia parecer uma cortina de fumo. Ou uma torpe tentativa de legitimar o episódio seguinte. Ou uma operação de marketing levada a cabo por alguém dramática e definitivamente afastado da realidade.

Dirão alguns que Paulo Bento, o novo comandante da Seleção Nacional, entra em funções já enfraquecido, por se tratar de uma segunda escolha face a Mourinho. Entendo que, face ao homem que conquistou títulos em três países, uma Taça UEFA e duas Ligas do Campeões, ninguém pode sentir-se complexado ou diminuído por chegar depois. Mas fica-me a ideia de que Gilberto Madaíl – que não ficou bem na fotografia de conjunto do caso Carlos Queiroz, tão depressa aparecendo como o presidente solidário como alinhando em conspícuas unanimidades – vestiu a farda do ilusionista mas não conseguiu sequer simular um qualquer passe de mágica: a contratação de Mourinho “por dois jogos”, além de desvalorizar a Seleção e de vir colocar um tom de desespero, era um ato falhado à partida, sobretudo se tivermos em conta que o Special One está nos primeiros meses do maior desafio da sua carreira, ainda não ganhou títulos nem conquistou de forma militante os adeptos. O desfecho é simples: Mourinho marcou pontos pela disponibilidade anunciada, Madaíl conseguiu, até neste processo, levantar dúvidas sobre o que aconteceu. Afinal de contas, é a sua palavra contra a de Jorge Valdano, quanto ao tipo de consulta feito a Florentino Pérez. Uma manobra de diversão, tudo isto? Parece óbvia a resposta, mas não chega: preparou-se também o trilho para Paulo Bento, agora muito mais próximo da unanimidade do que há uma semana.

Quanto a Gilberto Madaíl, é pena que não demonstre abertura para perceber que o seu ciclo acabou e que, daqui em diante, não tem crédito pessoal e pode acabar por borrar a pintura do seu consulado na Federação Portuguesa de Futebol. O caso de Paulo Bento é bem diferente e, confesso, parece-me que chega demasiado cedo a funções com esta dimensão – sendo de ressalvar a coragem que demonstra ao aceitar aquilo que, à partida, tem todo o aspeto de “missão impossível”. Tem uma só experiência como técnico principal e falta-lhe “mundo” (quer dizer: sem experiência de estrangeiro). Do ponto de vista tático, foram muitos os que o acusaram no passado de ser demasiado rígido. Terá, a seu favor, o caráter disciplinador e a capacidade de lançar jogadores jovens, num momento em que a Seleção precisa de renovação. Não seria a minha escolha, mas é o que temos. Agora, há que apoiar. As contas, como sempre, fazem-se no fim.

In Record

1 comentário:

Manuel Oliveira disse...

Subscrevo o artigo!

Abraço.