maio 15, 2012

Tempo Útil _ João Gobern


Liberdades

O comportamento de alguns sectores de público, alegadamente organizados, no jogo do passado sábado no Estádio da Luz chega para reativar uma velha discussão: a das liberdades de um sócio ou adepto, vindo normalmente a tiracolo a questão do bom senso.

Antes de mais nada, convirá confinar a “polémica” a quem a merece. Pela simples razão de que, como mostra a evidência, subsistirem clubes em que as mais elementares regras da democracia estão longe de uma aplicação regular (e muito menos continuada), em que há plebiscitos e não eleições, em que há horas e dias marcados para se sentir o ondular entusiasta das “vagas de fundo”. Esses, sinceramente, não contam para este caso, por mais que se multipliquem as manobras de diversão.

Por outras palavras, bem pode um notável adepto de um clube vir anunciar que nunca foi condicionado no que disse e escreveu. É possível que seja verdade – e eu não quero fazer aqui juízos de intenção –, mas a figura em questão sabe que há alguma vantagem em viver a 300 quilómetros do olho do furacão e sabe que, em temporadas não muito distantes, foi considerado oposicionista ao “regime”. Um seu parceiro, cada vez mais porta-voz e cada vez mais emblemático na rota dos sucessos, também não esquecerá a fase em que se deslocava com proteção contratada e sob ameaças da “guarda pretoriana” com ligações ao seu clube. O mesmo que, num ápice, num passe de mágica, numa reviravolta da fortuna, acabou por condecorar como exemplar aquele que até então era um prevaricador.

Benfica e Sporting (e mais alguns clubes de menor dimensão) são, portanto, aqueles que se debatem com os espinhos da democracia. Tenho dúvidas que já tenham aprendido a passar do respeito (mesmo resignado) pelas opiniões internas contrárias ao melhor dos momentos: o do aproveitamento das opiniões internas contrárias. Sucede que a oposição benfiquista, em concreto, tem usado táticas de guerrilha e feito incursões próximas do terrorismo. No primeiro quadro inscrevem-se as frases de calúnia espalhadas pelas paredes e as entrevistas – cheias de soundbyte e vazias de conteúdo – que alguns “notáveis” vão semeando, quase sempre casuísticas e nulas na proposta de soluções. É fácil: aprende-se na política, é só transferir. No segundo, fia mais fino: o triste espetáculo (bem orquestrado mas malsonante) durante todo o jogo com a União de Leiria, com cânticos insultuosos até à própria equipa que estava em campo, é um disparate, uma vergonha, uma quebra das regras elementares de comportamento. Há muitas ocasiões e espaços para pôr em causa o trabalho de uma direção, de um técnico, de um núcleo de jogadores. Escolher o tempo de um jogo para contestar é tão-só uma imbecilidade. Ainda por cima manipulada.

In Record

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