julho 08, 2010

Crónica Semanal de Leonor Pinhão

Um muito obrigado pelo trabalho aqui exposto ao BENFICA 73 
Por falta de tempo nem o jornal ainda li hoje.


E Bettencourt não ficou de mão estendida!


O meu avô caprichava em ser um homem justo. Quando morreu era o sócio n.º 47 do Sport Lisboa e Benfica.
O seu indisputado amor pelo clube jamais o impediu de observar com acuidade o mundo à sua volta. E, para ele, o facto de alguém ser do Benfica não bastava como garantia de qualidade.

Frequentemente mostrava-se desagradado com os pensamentos, as palavras e as obras dos seus consócios e não se eximia de exprimir a sua opinião negativa. E eu, infantil e surpreendida, dizia-lhe.
- Oh avô mas isso é impossível, ele é do Benfica…
Na sua grande sapiência, respondia-me:
- Pois é, mas também é normal que em tantos milhões de benfiquistas tenha de haver alguns mais parvos. É uma questão de estatística…
Serviu-me até hoje de lição.

E veio-me recentemente à memória quando os jornais noticiaram com o devido destaque a saída de João Moutinho de Alvalade rumo ao FC Porto, num nada menos do que amável negócio realizado entre dois emblemas aparentemente rivais.
Ninguém duvida de que o presidente do Sporting é sportinguista desde o berço. E também Costinha, assim que chegou a Alvalade para substituir Sá Pinto, afirmou imediatamente que desde a mais tenra idade tinha amado o Sporting. Mais tarde chegou ao grande solar verde Maniche com o anúncio de que era sportinguista desde pequenino e que, por isso mesmo, estava finalmente a realizar o sonho da sua infância.
Perante os factos, talvez seja o excesso de amorosa infantilidade que hoje ocupa as posições chave na estrutura do Sporting que explique, entre outras coisas, esta bandeja sobre a qual João Moutinho, 23 anos e, de longe, o melhor jogador da casa, foi diligentemente servido à mesa do FC Porto.
Ou talvez o axioma do meu avô esteja certo e se aplique a outros clubes. Sem ofensa, também num Sporting com tantos milhares de adeptos tem de haver alguns que sejam parvos. Poucos, é verdade, mas alguns. É uma questão de estatística.


«Os sócios e os adeptos do Sporting são maioritariamente racionais», disse José Eduardo Bettencourt na conferência de imprensa do início da semana.
Quis dizer o presidente do Sporting que os sportinguistas, por serem racionais, jamais contestarão a excelência do negócio Moutinho. E tem razão. Sobretudo aqueles sportinguistas mais racionalmente picuinhas que perdem tempo a ler as notícias tosas de todos os jornais desportivos e não só sobre o caso e, especialmente, as entrelinhas. É que é aí que vem tudo explicado.

No princípio de Junho, o empresário Pini Zahavi perguntou ao Sporting se admitia vender Moutinho por 10 milhões de euros e o Sporting disse que sim e assina um mandato conferindo a Zahavi a autoridade para negociar o jogador por essa verba. A 26 de Junho o empresário informa o Sporting que já tem comprador. O Sporting quis saber quem era o interessado. Zahavi diz que é o FC Porto.
Entra em acção o presidente do FC Porto. Um telefonema bastou entre os dois presidentes para, desta vez, Bettencourt não ficar de mão estendida. João Moutinho cumpre também o seu papel dizendo perante a estrutura leonina aquilo que Bettencourt e Costinha mais precisavam de ouvir. Quero tanto sair que ajudo e coopero com tudo o que quiserem dizer sobre mim para os jornais.

Que é como quem diz… estejam à vontade para me insultar e virar os sócios e os adeptos do Sporting contra mim para que eles não se voltem contra vocês.
E foi assim que nasceu a maçã podre. Racionalmente como salta aos olhos.

Tenham a idade que tiverem, os adeptos de futebol no mundo inteiro são muito parecidos entre si e não são muito diferentes das outras pessoas que não são adeptas de futebol. Haverá sempre entre estas multidões
Quem precise que lhe expliquem tudo muito bem explicadinho e haverá sempre quem aprenda sozinho perante os factos.

No jogo dos quartos-de-final do Mundial, entre o Uruguai e o Gana, quando El Loco Abreu entrou em campo aos 76 minutos para substituir Cavani, um jovem adepto que assistia comigo à partida, perguntou-me:
- Por que é que lhe chamam El Loco?
- Não faço a mínima ideia. Vamos lá ver com atenção a ver se percebemos – respondi-lhe.

Não tivemos de esperar muito. Quando chegou o desempate através de grandes penalidades, depois de Maxi Pereira ter falhado o seu pontapé, caiu sobre os ombros de El Loco Abreu a épica responsabilidade de decidir a contenda. O uruguaio tomou as medidas à baliza e à bola, avançou para a marca de 11 metros e de pé esquerdo, à Panenka, optou pela solução mais artística e mais difícil. Aquilo não foi um pontapé, foi uma colherada.
E, pronto, ficámos todos a perceber porque é que lhe chamam El Loco Abreu. Não há nada como aprender com os factos.

Para o Benfica, que é o que mais interessa, o Mundial acabou empatado 2-2. Ou seja, marcámos 2 golos e falhámos outros 2 golos.
Os protagonistas foram sempre os mesmos. Óscar Cardozo acertou no penalty decisivo contra o Japão e falhou a grande penalidade quase decisiva contra a Espanha. Já Maxi Pereira falhou o penalty que não foi decisivo contra o Gana e marcou um grande golo que não foi decisivo contra a Holanda.
O mérito maior vai para Maxi Pereira que marcou o único golo benfiquista de bola corrida neste Mundial.

A eliminação do Uruguai, nas meias-finais, frente à Holanda foi tão justa quanto antipoética. Se a Holanda já não chegava há 32 anos a uma final do campeonato do Mundo, o Uruguai, bicampeão mundial, está há 64 anos sem pisar o derradeiro palco da competição.
Confesso que sempre admiti o sonho de ver o Uruguai ganhar este ano o título. Não tinha nenhuma teoria técnico-táctico que sustentasse este enlevo. Apenas gostava de ver o Uruguai regressar ao Brasil, para a Copa de 2014, na mesmíssima condição em que saiu do Brasil, em 1950. Ou seja, campeão do Mundo.

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