outubro 05, 2010

Bloco de Notas _ Nuno Farinha


À procura do milagre

Quando Benfica e Braga se encontraram pela última vez, em março, era o “jogo do título”. Não foi um grande espetáculo, mas quem tem razoável memória será capaz de recordar que aqueles 90 minutos acabaram por traduzir-se numa extraordinária batalha tática. Pouca arte, muito músculo, guerra nos bancos e necessidade de gerir bem o ambiente de tensão. 

O Benfica foi então ligeiramente melhor do que o Braga, Jesus foi ligeiramente melhor do que Domingos e a Liga ficou “ligeiramente” resolvida. Hoje será tudo diferente: desta vez existem “apenas” três pontos para disputar e, sem o picante da liderança, o cenário é morno – mesmo considerando que qualquer das equipas pode terminar o dia no segundo lugar. A chave capaz de projetar o jogo para uma dimensão superior está na necessidade de ambos manterem as respetivas candidaturas na corrida pelo topo desta Liga. E isso, em qualquer dos casos, só se conseguirá com uma vitória.

Naturalmente, a maior fatia de responsabilidade cabe ao Benfica. Se alguém está obrigado a ganhar o jogo de hoje à noite é mesmo o campeão nacional. Desde logo, por isso mesmo: porque é o campeão. Mas também porque atua perante os seus adeptos, porque vem de (mais) uma derrota e porque investiu muitos milhões de euros para revalidar o título. A pergunta é: mas estará este Benfica em condições de provar – rapidamente, como lhe convém – que é um efetivo candidato ao primeiro lugar? Essa é a resposta que vale um milhão de dólares. Ninguém sabe.

Assim de repente, alguém saberá dizer qual o sector que o Benfica tem a funcionar melhor? A eficácia defensiva não é, obviamente, a mesma da última época. Roberto comprometeu no início; Maxi Pereira continua muito longe da condição física ideal; David Luiz vive perdido entre tiques de neo-craque; César Peixoto, o mal-amado dos adeptos, foi promovido a titular por força da necessidade de adiantar Fábio Coentrão. Salva-se Luisão, mas sozinho não chega para remediar tanto buraco.

O meio-campo, que até maio parecia um Rolls-Royce, não passa agora de um utilitário que chumbaria em qualquer inspeção mais apertada. Javi García é a principal vítima das dificuldades que o Benfica sente na transição defensiva. Gaitán foi contratado para a esquerda, anda na direita. Nuns jogos ameaça explodir, noutros evapora-se. Carlos Martins cumpre, mas não chega. E Salvio é, por enquanto, um enorme ponto de interrogação. No ataque, Saviola parece ter encolhido e Cardozo, indisponível para os próximos tempos, acaba de ceder o posto a Kardec – goleador de… pré-temporada.

Neste quadro, e para continuar a alimentar o sonho, é agora que Jesus tem de fazer um milagre. Que é “só” isto: ganhar ao Braga; encontrar de imediato uma nova solução tática; não perder o FC Porto de vista até dezembro e, por fim, aproveitar a próxima janela de mercado para reforçar devidamente a equipa e corrigir os disparates do último verão. PS: As escutas do Apito Dourado que ontem caíram no YouTube não acrescentam substantivamente nada de novo. Mas fazem (ou deviam fazer) corar de vergonha quem insiste em falar no “campeonato dos túneis”.

In Record

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