outubro 02, 2010

Entrevista a Roberto _ Jornal "O Benfica"


" Este é um clube para toda a vida"


Roberto, já és um homem feliz em Lisboa?
Sim. Claro que sim. Já cá estou há dois meses e agora já me estabilizei.

Custou muito?
Acho que custa sempre. Quando sais do teu país, da tua vida de todos os dias desde menino, é sempre difícil. Ainda por cima quando sais para outro país, mesmo que este fique aqui bem perto. Mas é sempre difícil o primeiro tempo de adaptação.

Magoaram-te as dúvidas que as pessoas começaram por ter das tuas capacidades?
Eh…eh…Bem… As pessoas têm o direito de pensar o que quiserem. Eu limito-me a fazer o meu trabalho o melhor possível e o mais importante é eu acreditar em mim mesmo e saber sempre qual é o meu limite. Por isso estive tranquilo durante todo este tempo porque sabia que se trabalhasse como estamos trabalhando todos os dias, não apenas eu, mas toda a equipa iria melhorar muito e que as coisas iriam começar a acontecer como calculámos que iriam acontecer quando começamos a trabalhar.

E os teus colegas, que te diziam?
Bom, todos nós estamos habituados ao que é na realidade o futebol. Sabemos que as coisas mudam de um dia para o outro. O que hoje é bom é mau amanhã e o que é mau amanhã é óptimo no dia seguinte. Eles não estavam preocupados. Todos nós nos vemos a treinar uns aos outros todos os dias e estamos todos, mas todos, muito tranquilos porque temos um plantel muito, muito competente, capaz de atingir aquilo que queremos.

E o Jorge Jesus? Que te disse o treinador nessas fases mais difíceis?
O “mister” sabe bem como tratar com um jogador nestes casos, sabe falar e sabe aquilo que precisa de dizer. E isso também foi importante. Não apenas o que me disse, mas o que disse a todos os jogadores. Mandou-nos estar tranquilos, trabalhar o melhor possível, e garantiu que iria estar aí com todos nós. Que temos de olhar em frente e levantar a cabeça para trabalharmos o melhor possível.


És uma pessoa tranquila?
Sim. Considero-me muito tranquilo. Em todos os aspectos. O único dia em que me recordo de estar muito nervoso foi quando nasceu a minha filha e se comparo isso, que considero nervos de verdade, ao meu trabalho, então posso dizer que sou mesmo muito tranquilo.

Por falar em tranquilidade: dois jogos seguidos sem sofrer golos. Serve para dar tranquilidade ao Roberto e à defesa em geral, não?
Eu acho que sempre que uma equipa não sofre golos é muito importante para todos. O trabalho defensivo não é trabalho exclusivo dos defesas. O mérito começa em quem joga na frente e que são os primeiros a defender. Agora, claro que estamos todos muito felizes por não sofrer golos porque sabemos que, com a qualidade que tem esse plantel, se não sofrermos golos ganhamos 99% dos jogos.

O que sentiste quando defendeste o “penálti” frente ao Setúbal?
A verdade é que foi um momento muito especial para mim. O que sucedeu nesse dia não é normal. Eu não estava completamente feliz, como se percebe, porque não fui titular e nós, jogadores, queremos ser sempre titulares nos jogos todos… e o futebol é assim: às vezes é preciso acontecer algo que não é bom para a equipa para que alguém se destaque. Não tenho dúvidas que vai ser um dos momentos de que mais me vou lembrar em toda a minha carreira.
Consideras-te uma pessoa com sorte?
Sim, sim! Acho que todos nós que podemos desfrutar desta profissão nos devemos considerar pessoas de sorte. Somos uns privilegiados por poder viver deste desporto em toda a gente ama. Eu considero-me um pessoa de muita sorte…

Também és um homem de sorte no teu dia-a-dia?
Claro! Tenho uma família maravilhosa, um trabalho fantástico, uma mulher e uma filha incomparáveis, que posso pedir mais?

Mas sofrer um golo como aquele da Académica no último minuto do jogo não pode ser considerado sorte…
Não é sorte… mas é futebol. Vemos golos assim em todos os campeonatos, todos os dias…

Alguma vez tinhas sofrido um golo assim?
Sim. Várias vezes. Olha, na época passada, no Saragoça, a lutar para não descermos, a precisarmos muito de pontos, sofremos golos no último minuto. Não há palavras para descrever esses momentos. Há que vivê-los para saber como é.

Quem parece que te traz azar é o FC Porto. Aleijaste-te com gravidade no Dragão, para a Liga dos Campeões, agora vês o FC Porto a 9 pontos de distância…
É como digo: futebol. Há coisas pontuais, como ter jogado no Porto na época passada e ter sofrido essa lesão bem complicada para mim, e agora é um rival directo. Desde o dia em que cheguei que interiorizei que o Benfica é o Melhor Clube do Mundo, a minha casa, a minha família, todos os outros são apenas rivais aos quais vamos ter de ganhar.

Ficaste surpreendido com o que vieste encontrar no Benfica?
Sim. Houve várias coisas que me surpreenderam. Sobretudo os adeptos. Na pré-época, na Suíça, ver duas e três mil pessoas nos treinos a apoiar-nos, e todo o carinho que nos dispensam aqui todos os dias, mesmo na rua, impressionou-me muito. Internamente, a organização é impressionante. Tem tudo o que é preciso para que o Benfica chegue onde quiser.

Mesmo a nove pontos de distância, ainda acreditam no título?
Acreditamos sempre! Levantamo-nos de manhã para vir para os treinos acreditando no que fazemos. Agora, o Benfica não pode ter limites! Temos todos de olhar para o mais alto possível porque temos equipa para fazer coisas ao melhor nível. Não queremos saber dos nove pontos. Queremos saber dos três pontos que temos de ganhar todas as semanas. Não vale a pena estar a olhar para mais longe. Ganhámos dois jogos seguidos sem sofrer golos, um para a Liga dos Campeões e outro contra um rival muito forte, sábado temos de ganhar na Madeira e assim por diante. Jogo a jogo.

E na Liga dos Campeões? O optimismo também é grande?
Claro que sim! Sobretudo depois de termos ganho o primeiro jogo. Sabemos que temos qualidade para fazer uma boa prova, coisas importantes. Sabemos que estão nela as melhores equipas da Europa e sabemos que o Benfica merece jogar esta competição. Acho que temos qualidade para ganharmos os jogos suficientes para passar a fase de grupos e depois concentrar-nos-emos passo a passo.

Se te perguntar quais as tuas melhores qualidades como guarda-redes, que me dizes?
Não gosto muito de falar sobre mim próprio, mas acho que sobretudo a minha, não sei como se diz em português, consistência…

Pois é igual.
Então consistência. E a minha forma de trabalhar sempre com vontade de melhorar todos os dias, ouvindo sempre os conselhos de quem trabalha comigo. Tive grandes técnicos de guarda-redes que me diziam que por causa da minha estrutura poderia poder vir a ser um bom guarda-redes. Espero poder vir a dar-lhes razão.

Encontras muitas diferenças entre o campeonato português e o espanhol?
A única que encontro é a de os jogadores da Liga Espanhola serem mais conhecidos. Aqui há muita qualidade, muita qualidade. Nesta Liga há jogadores de grande qualidade. E as pessoas que não pensem que é só em duas ou três equipas…

Foi fácil adaptares-te a este Benfica, não? Quase metade da equipa fala castelhano… Ou tentam falar português uns com os outros?
Bem, eu tanto sempre falar português. Esta é a minha casa e procuro adaptar-me. Sei que não falo português muito bom, mas tento. E mesmo dentro da equipa também tentamos. Embora, claro, quando estamos sozinhos uns com os outros que falam castelhano se fale assim…

Também vieste encontrar jogadores que passaram pelo campeonato espanhol: Javi García, Aimar, Saviola…
Sim. Sobretudo foi importante estar aqui o Javi García. Deu-me grande tranquilidade. Não só nos conhecemos das selecções jovens de Espanha como somos amigos desde meninos em Madrid, ele jogando nas camadas jovens do Real e eu do Atlético. Quando cheguei, tanto ele, como Aimar ou Saviola fizerem tudo para me integrar mais facilmente. Não tive nenhum problema. Toda a equipa foi fantástica!

Achas que os adeptos do Benfica estão à beira de ver o melhor Roberto?
Acho que podem estar a ver o Roberto que eu quero que eles vejam. Mas acho que sou muito jovem e terei muitos anos para melhorar. Por isso espero que eles vejam sempre um Roberto melhor!

Queres ficar muitos anos no Benfica?
Claro! Assinei por cinco anos, e se assinei este contrato é porque quero cumpri-lo. O Benfica é um clube para se ficar a vida toda! Poucos clubes terão tantas boas coisas juntas como o Benfica. Os melhores adeptos, uma organização fantástica, um Estádio maravilhoso. Claro que quero ficar muitos anos.

Queres deixar uma mensagem para os adeptos?
Quero agradecer-lhes. E dizer-lhe que acreditamos neles e que eles podem acreditar sempre em nós. Todos juntos faremos coisas grandes!

Apesar de tudo, o público, ao contrário do que sucedeu com a Comunicação Social ou com determinados colunistas, teve mais paciência…
Sim. Tenho a agradecer aos adeptos o seu comportamento nos dias mais difíceis. Estiveram comigo, apoiaram-me, e isso para um jogador é muito importante porque somos pessoas e temos sentimentos e este desporto tem muito de psicológico e muito daquilo que os adeptos nos podem dar para nos sentirmos melhor. Na verdade tenho muito para agradecer. Eu tento fazer o meu trabalho, mas eles fazem o seu na perfeição.

Obrigado amigo Benfica 73 

Sem comentários: