dezembro 11, 2010

Crónica Semanal de Leonor Pinhão

Mas a quem serviria o empate se Elmano nem podia expulsar Villas Boas

ELMANO SANTOS - El Mano para os amigos, provavelmente - não tinha muito por onde escolher quando Jailson converteu com êxito o pontapé de grande penalidade que permitiria ao Vitória de Setúbal empatar o jogo com FC Porto no Estádio do Dragão.
Como é absolutamente perceptível através das imagens televisivas, de apito na boca, o árbitro madeirense viu Jailson correr para a bola e, depois, desacelerar a corrida para enganar Helton com um pontapé de belo efeito. Mas El Mano mandou repetir o castigo porque ainda não teria apitado para autorizar a cobrança.
El Mano é assim mesmo. Se Jailson tivesse acertado nas redes no ser segundo chuto, El Mano teria mandado repetir, uma vez mais, porque estava um jogador do FC Porto dentro da área o que, pela lei, é proibido. Mas Jailson falhou, atirou para as nuvens e El Mano suspirou de alívio, outra coisa não poderia ele fazer.
Faltava pouco tempo para o fim do jogo e o empate iria, certamente, complicar a vida do árbitro tendo em conta os registos históricos do campeonato corrente.
Sempre que o FC Porto empatou nesta temporada aconteceu que o seu treinador, André Villas-Boas, fez-se expulsar. Ora, na segunda-feira, Villas-Boas, que já tinha sido expulso na jornada anterior em Alvalade, não estava no banco.
Foi nisso que terá pensado o árbitro quando o Vitória de Setúbal empatou. «Agora vou ter de expulsar o Villas-Boas... espera aí... não posso expulsar o Villas-Boas... só se subir os degraus todos da bancada até ao camarote onde ele está a ver o jogo...»
De acordo com esta perspectiva é legítimo especular no que se teria passado se o mesmo Jailson tivesse logo falhado o seu primeiro pontapé de grande penalidade sem que o árbitro tivesse ainda apitado para autorizar a execução do castigo.
Teria El Mano mandado repetir o penalty?
Certamente que não.
Não se atreveria a prolongar a agonia e o suspense nas bancadas do Estádio do Dragão e inviabilizada a hipotética igualdade a tão curta distância do final do jogo, jamais El Mano Santos correria o risco de se expor a uma segunda tentativa de golo para o empate. Principalmente porque não poderia, de seguida, expulsar o ausente Villas-Boas, como mandam as regras de isenção nesta prova.

Há dez anos, num Benfica - Sporting, aconteceu uma coisa parecida. Pierre Van Hooijdonk converteu com sucesso uma grande penalidade contra os rivais e o árbitro Jorge Coroado mandou repetir o castigo ou porque estaria algum jogador dentro da área ou porque considerou que Van Hooijdonk, estando isolado de frente para o guarda-redes do Sporting, se encontrava em posição de fora-de-jogo, sem dúvida a hipótese mais verosímil.
A verdade é que o segundo pontapé do fabuloso avançado holandês foi ainda mais certeiro e mais potente do que o primeiro, Coroado deu o concurso por terminado e mandou a bola ir ao centro para grande alegria de Van Hooijdonk, que até deitou a língua de fora, e para alegria de José Mourinho que era o treinador do Benfica e que até esboçou um manguito mais do que apropriado.
Quarenta e oito horas depois do último FC Porto - Vitória de Setúbal, surgiram através da imprensa declarações do presidente dos sadinos insurgindo-se contra a «displicência» com que o pobre Jailson correu pela segunda vez para a bola. Não parece justa esta indignação de Fernando Oliveira. Pierre Van Hooijdonk há poucos... Coroados e Elmanos é que há muitos.

A Espanha perdeu a organização do Mundial de 2018 para a Rússia. Ou seja, a Rússia teve de esperar pelo desmembramento da União Soviética para se poder apresentar solteira e vitoriosa perante os maiores da FIFA. E a Espanha, apresentando-se casada com Portugal, não teve direito à festa.
Nem se poderá dizer que a Espanha perdeu o Mundial porque levou um noivo fraco ao concurso. A FIFA de Blatter gosta de afirmar o seu expansionismo abrindo caminho por anteriormente inimagináveis fronteiras-mercados, como já aconteceu com a Coreia-Japão-África do Sul e irá acontecer, em 2022, com o Catar, sem dúvida o mais exótico de todos os destinos na rota da poderosa indústria do futebol.
Os espanhóis, campeões do mundo, terão ficado aborrecidos com o contratempo. E os portugueses? E nós?
Vejamos as coisas pelo lado bom. Livrámo-nos de oito anos de agitação e propaganda das virtudes do matrimónio ibérico e, como bons patriotas que somos, podemos ainda festejar com Irina Shaik, a noiva russa do português mais famoso em todo o mundo, Cristiano Ronaldo, o sucesso da candidatura do seu país.
E nem vamos ter que pagar a boda, felizmente.

A Checoslováquia foi em Estado que se desmembrou em dois outros Estados, a República Checa e a Eslováquia e agora, diz a imprensa internacional, quer reatar a relação exclusivamente no que diz respeito ao futebol. As Federações de Futebol dos dois países deitaram contas à vida e mostrando-se saudosas do tempo em que havia um campeonato da Checoslováquia, mais intenso e mais divertido, solicitaram um parecer à UEFA sobre a hipótese de se voltarem a casar.
Como consequência do noivado ibérico que levou até ao altar da FIFA a proposta da organização comum do tal Mundial de 2018, diz a imprensa nacional que os presidentes das duas Ligas, José Luis Astiazaran, da Liga de Madrid e Fernando Gomes da Liga do Porto, estão a equacionar «a fusão das principais Ligas de futebol dos dois países».
A UEFA, contactada para tal eventualidade, deu a mesma reposta que terá dado aos checos e aos eslovacos, saudosos da Checoslováquia: «Não existe nos regulamentos nem nos estatutos nada que impeça duas Ligas de se juntarem na organização de um só campeonato. No entanto, o primeiro passo terá de ser dado pelos interessados.»
Ah, que bom seria vermos o grande El Mano Santos a arbitrar o Ayamonte-Monte Gordo! E segue já o pedido de desculpas quer para Ayamonte quer para monte Gordo...

Em Portugal temos uma competição interna, o campeonato, que até se poderia chamar a Taça do Golfe por razões sobejamente conhecidas. Mas nas Arábias existe mesmo uma competição, de cariz internacional, que se chama Taça do Golfo, o que sendo uma coisa completamente diferente do nosso golfe-futebolístico, não deixa também de ter um saborzinho amargo português, pelo menos nas suas duas últimas edições.
É que a saga de José Peseiro, agora no comando da selecção da Arábia Saudita, continua a impressionar. Depois de ter perdido a Taça do Golfo, no ano passado, para a selecção de Omã no desempate por grandes penalidades, coube-lhe perder, no passado domingo, a mesma competição para a selecção do Kuwait no prolongamento. Um dia isto vai ter de mudar... só que não se sabe em que continente será.
Já Nelo Vingada, por exemplo, encontrou a felicidade no continente asiático e ei-lo campeão da Coreia do Sul aos comandos do FC Seoul. É obra.

O Benfica continua na Europa. Foi Obra, oh, se foi...

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