dezembro 12, 2010

Por força da lei _ Ricardo Costa


Rumar às vitórias

Nos tempos idos de Direito em Coimbra, entre nós, estudantes, havia quem sublinhasse o apego ao desporto. Com chuva ou com sol, fosse curta ou longa a noite, um de nós dirigia-se invariavelmente de madrugada para o Mondego. Treinava-se com denodo. Queria ganhar títulos. E ganhava. Não vivia sem o seu compromisso com a modalidade. Prolongou-o, mais tarde: desde 2004 é presidente da Federação Portuguesa de Canoagem (FPC). Falo de Mário Santos. Que foi eleito Chefe de Missão para as Olimpíadas de 2012.
Num país submerso numa “futebolização” castradora, a canoagem é o paradigma do crescimento sustentado de uma modalidade. Sem sofismas e sem lamúrias. Sem desculpas na dependência do Estado. Um projeto em que se vê uma estratégia a prazo e medidas para a tornar plausível. Tudo mudou com a chegada de Mário Santos e o rejuvenescimento da FPC.
Rejuvenescimento em visão e, acima de tudo, em paixão. Intuiu-se que Portugal tinha as condições físicas e ambientais para ser uma potência. Planeou-se a emergência de massa humana para almejar o topo. Compreendeu-se que vale a pena investir para ganhar ou estar sempre próximo de ganhar. Para isso, houve que alterar regulamentos e práticas, de modo a premiar quem tivesse mais atletas jovens, mais atletas novos e atletas com mais qualidade. Em 6 anos, onde antes havia 1.700 atletas, agora há 2.300; onde antes havia 850 menores de 16 anos a praticar, agora há quase 1.300; onde antes se exibia uma medalha internacional, agora exibem-se 17 medalhas internacionais só em 2010, e muitas vencedoras; onde antes ia um atleta a Jogos Olímpicos, agora estão dez no Projeto Olímpico. 

Um dos traços essenciais foi enriquecer a base de recrutamento e tirar frutos depois no alto rendimento – onde chega a elite. A grande aposta da FPC é, para qualificar a elite, o desporto universitário. Com um protocolo “estrangeirado” com a Universidade de Coimbra e o aproveitamento do Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho, ultrapassou-se a dificuldade de inconciliação de atletas universitários e talentosos: uma residência universitária modelar, treinadores e praticantes a viver em estágio permanente, agilidade nos estudos e aproveitamento escolar, desportistas com uma carreira, quase todos no trilho do olimpismo. Chegaram naturalmente os títulos de campeões do Mundo e da Europa.
O outro ponto da filosofia era transformar Portugal num país de acolhimento de estágios e de provas internacionais, aumentando o peso relativo do país. Veja onde se está hoje: depois do sucesso do Mundial de Maratona de 2009, em Gaia, em 2012 teremos cá o Europeu de Velocidade de Juniores e de Sub-23 e, em 2013, a Taça do Mundo e o Campeonato da Europa de Velocidade. E, este ano, estarão 300 (!) estrangeiros das maiores potências mundiais a estagiar nos “training camps” do nosso inverno.
A estratégia foi certa e o Estado podia ver nela uma “carta” para a sua ação: ouviremos falar de canoagem em Londres’2012. Onde o estudante que se levantava mais cedo para se treinar no rio, e que ainda corre para vencer nas pistas dos “veteranos”, levará, justamente, a bandeira de Portugal!

In Record

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