janeiro 15, 2012

Tempo Útil _ João Gobern


Ecos e silêncios

Ganhámos e praticamos, neste Portugal cheio de temores e reverências, mais carregado de oportunistas do que de oportunidades, uma mania cobarde: quando alguma conversa, algumas ideias ou revelações nos desagradam e podem agitar as águas podres e paradas em que tantos sectores se deixaram mergulhar, em vez de partirmos para a discussão e para a investigação, preferimos simplesmente matar o mensageiro. Tem passado? Ataca-se por aí. Tem interesses? Faz-se disso o alvo. Foi agente no sector que agora questiona? Denuncia-se o seu caráter de “arrependido”. Está aparentemente isolado e longe dos centros do poder corrente? Torna-se mais fácil mastigá-lo, digeri-lo e esquecê-lo.

O resultado é quase sempre semelhante: aumenta-se a lista das vítimas e nem se passa à abordagem dos assuntos. Acontece na política, na economia, nas questões sociais. Mas, com o devido respeito pelos justos e interessados (conheço muitos, felizmente) e lamentando que se possa resvalar para uma generalização descabida, acontece muito mais no terreno do Desporto.

Vem tudo isto a propósito da contundente entrevista que António Oliveira deu no sábado passado, à RTPi, num programa conduzido por Hugo Gilberto e no qual tive a sorte de estar presente. Confesso que nunca, em mais de trinta anos de profissão, tinha visto alguém disponível para distribuir os nomes pelas histórias, alguém aberto a expor e a defender os seus raciocínios (sabendo ainda por cima que se expunha), alguém que não se perdesse em recados cifrados e em episódios enigmáticos. Quem ouviu António Oliveira falar da Olivedesportos – que fundou – como o FMI dos clubes portugueses de futebol, quem o viu reconhecer, em prejuízo do orgulho e dos méritos, que só tinha sido selecionador por causa da referida empresa, quem constatou a sua convicção de que presidentes da Federação e da Liga não passam de homens de mão de um poder muito mais real e concreto, não consegue ficar indiferente.

No mínimo, mesmo que desconfie do alcance ou da intensidade das suas declarações, só pode desejar que as mesmas se tornem objeto de posteriores clarificações. Também por isso é confrangedor – e muito significativo – que, na sequência dessa entrevista, tenham agido os voluntários do costume, mas que sobre ela se abatam meia dúzia de ecos aflitos e um mar de ensurdecedores silêncios, que deixam no ar um desagradável odor de compromissos, de dependências e de tráfico de influências que também mereciam ser exibidos à luz do dia. Tenho pena que se perca uma oportunidade como esta de pegar nas declarações viscerais de António Oliveira e perceber onde e como elas se cruzam com a intrincada verdade. Mas já percebi que ainda não é desta que lá vamos.

In Record

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