fevereiro 15, 2012

Por força da lei _ Ricardo Costa



Adepto ao poder

Ver um estádio restaurado e ajustado às necessidades do seu utilizador e uma partida intensa entre a Oliveirense e a Associação Académica de Coimbra no acesso à final da Taça de Portugal foram apenas os pressupostos para verificar o mais importante: um estádio cheio de adeptos com vibração pelo jogo! Por ser uma raridade (exceto nas partidas que todos sabemos quais são), quem gosta do jogo apreciou a mancha humana que é a clientela desse mesmo jogo. E todos lamentamos que uma clientela tão apaixonada por esta modalidade deixasse de ser nas últimas décadas uma clientela fiel. Se dizem que o futebol é um negócio, então o negócio não tem conseguido trazer os seus clientes à… “fábrica”. Como foi possível chegar a tal ponto, num país tão fervorosamente interessado pelo futebol? Quem viu esse jogo, porém, tem que acreditar em recuperar da falência: ver os adeptos vencedores, no fim, saltarem para o campo para comungar com os jogadores e os técnicos a sua emoção é uma imagem – de tempos passados – que deixa uma esperança.

Combater a perversão é o início de tudo. O adepto sempre tem sido pensado, legislado e regulamentado numa perspetiva negativa e repressiva: como controlar e punir a violência, como sancionar os clubes pela sua atuação incorreta, como estruturar e legalizar a sua organização. Não admira que o adepto apareça motivador de interesse quando se assalta e vandaliza e quando se aterroriza. Falta o nevrálgico: o adepto que gosta do jogo e faz dele um momento de prazer e partilha. Que se refere àquela partida como uma oportunidade de lazer com familiares e amigos. Não o adepto que vai para uma batalha com rancor, mas sim o adepto que se vai divertir com as vicissitudes de um jogo que o empolga. Falta pensar, legislar e regulamentar este adepto: com “estatuto”, “direitos” e “condições” para cheirar por sistema aquela fragrância inconfundível da relva.

Encontramo-nos hoje na charneira: ou se dá o salto ou se perdem as bancadas. Comenta-se no meio que o futebol português não tem hoje lideranças para pensar estrategicamente a modalidade. Vive-se o “consenso” do momento, alegam-se as questões “politicamente corretas” e “resiste-se” à confeção de um “plano global” gizado na FPF e na Liga. Não há muito tempo escrevi aqui sobre a urgência da regulamentação desse programa sobre o adepto, com exemplos: 1) impor aos clubes a ocupação de 3/4 dos estádios através de ingressos baratos, tendo em conta critérios como a proximidade geográfica entre clubes e a proximidade competitiva na tabela classificativa; 2) determinar pacotes familiares com custo baixo e “marketing” incorporado; 3) associar o adepto aos patrocinadores da competição e dos clubes na aquisição de bens e serviços, especialmente atendendo à assistência a um número considerável de jogos; 4) ajustar os horários televisivos; 5) converter os jogos em locais de animação e divertimento alternativo. Tudo com o efeito subordinante das leis fundadoras, onde residiriam a emancipação e a valorização do adepto “positivo”. Dúvidas e resistências? Revejam o que se passou durante e depois do jogo de Santa Maria da Feira…


In Record


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