abril 03, 2012

Por força da lei _ Ricardo Costa


Guerra e paz

No sábado, uma entrevista diferente neste jornal e a reação dos árbitros às contestações. “O árbitro está muito exposto. Simboliza um poder que está totalmente fora do nosso controlo. (…) um poder completamente arbitrário sobre aquilo que é o nosso sonho”. O juízo de Machado Vaz é crucial: na semana em que os árbitros internacionais de futebol anunciam que também querem ter poder fora do campo, a questão hoje é saber como se sindica o poder exercido dentro do campo. E de fazer perguntas acerca desse estatuto e capacidade de influência sobre o destino do jogo.

Em várias organizações da sociedade, há o postulado assente de um certo poder corresponder a uma necessária e certa responsabilidade. Mais ou menos acrescida, mais ou menos exigente, em conformidade com a natureza e a dimensão do poder que se exerce. Ora – para além do que é visível nas classificações e na graduação (com promoções e despromoções) dos agentes de arbitragem ao fim de cada época –, terá atingido o futebol (e o desporto em geral) um sistema adequado de responsabilização dos árbitros (pelo menos interna) no domínio da fiscalização das suas decisões?

Viajemos agora para o lado inverso: os deveres. Os árbitros de futebol constituem a categoria de agente desportivo mais carregado de obrigações, vinculações, encargos e inibições. Olhamos para o Regulamento de Arbitragem da Liga e percebemos o largo espetro: acatar as nomeações, não exceder um número reduzido de pedidos de “dispensa”, informar os procedimentos de deslocação para os jogos, elaborar pormenorizadamente relatórios, colaborar com o organizador das competições, comparecer nas tarefas instrutórias de procedimentos disciplinares, não emitir quaisquer declarações públicas sobre os jogos (nomeadamente para exercer o contraditório sobre as apreciações feitas pelos outros agentes sobre o seu trabalho), submeter-se à posição “hierárquica” do Conselho de Arbitragem, entregar declarações de “registo de interesses” em que constam os seus bens, rendimentos e cargos. E etc. Uma malha assaz desequilibrada que, no fim das contas, acaba no injusto escalpelizar de decisão a decisão, lance a lance, pelos especialistas em “replays” e em inflamação das massas. Logo: terá atingido o futebol um sistema adequado de contrapartidas e de defesas para esse conjunto de deveres?

Temos hoje, em média, um lote de árbitros na 1.ª categoria incomparavelmente mais bem preparado tecnicamente e (até academicamente) melhor formado do que no quadro subsistente há 10/15 anos. Temos hoje no órgão federativo da arbitragem técnicos especializados, também incomparavelmente noutro estádio de conhecimento e experiência. Mesmo assim, terá o futebol evoluído até ao ponto de repensar as formas de recrutamento e progressão dos árbitros?

Acredito no conflito como meio de se mobilizar a reforma e, nesta, a resolução, de acordo com princípios de igualdade, transparência, exigência profissional e dissuasão de “coações” e lesões da reputação dos árbitros. Mas as formas que esta semana se escolheram para amenizar o conflito não auguram que se tivesse percebido quão decisivo é alterar o essencial.

 In Record

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