abril 24, 2011

Aqui á Gato _ Miguel Góis


Razão e coração

Irritabilidade, depressão, suores frios… Ninguém me convence de que, quarta à noite, não me chegou a andropausa. Outro sintoma de que padeço desde essa altura é uma atenção inaudita a minudências: por exemplo, uma vez que o FC Porto está a usar regularmente o nosso estádio como salão de festas, não se lhes deveria começar a mandar a fatura? Enfim, até podíamos aproveitar para mostrar que ainda nos lembramos dos preceitos que se cumprem na tesouraria das Antas desde a viagem de Carlos Calheiros e mandar-lhes a fatura em nome de “Sport e”, de modo a não se identificar facilmente o prestador de serviços.

Quem me conhece, sabe que sou um indivíduo bastante pacífico – como todos os lingrinhas, que não têm jeito para a porrada. Por exemplo, não pratico nenhuma arte marcial. (Se praticasse, escolheria o judo, porque é uma arte marcial em que se aprende a usar em nosso favor a força do adversário e, em rigor, essa é a única força com que eu posso contar.) Mas, neste momento, recusar uma guerra aberta com o FC Porto não é só uma questão ética – é uma questão de inteligência. Toda a gente já percebeu que a estratégia de Pinto da Costa passa por inventar inimigos, como forma de motivação da sua equipa. Vestir a pele de inimigo – apagando a luz durante os festejos dos jogadores portistas, ou colocando no sistema de som do estádio o refrão “Cheira bem/Cheira a Lisboa” – é um favor que lhe fazemos.

Alguns adeptos benfiquistas responderão: “Mas o Benfica não é o Gandhi.” Talvez seja altura de lembrar que Gandhi ficou na história justamente por, sem abdicar da sua identidade e dos seus princípios morais, ter conseguido vencer os seus adversários. O Sport Lisboa e Benfica, por este caminho, arrisca-se a não conseguir nem uma coisa, nem outra.

 In Record

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