abril 08, 2011

Tempo Útil _ João Gobern


Noite negra


Todos nós temos na memória, dos nossos anos de futebol praticado em quintais, em baldios, em ringues, até na rua, aquela figurinha embirrenta e prepotente do menino que, por acaso da fortuna, era o dono da bola. Todos nos recordamos de como o mui sublinhado sentido de propriedade da criatura multiplicava os seus direitos – escolhia os melhores para a sua equipa, escolhia o campo, não raras vezes inclinado, chegava a escolher o árbitro. Ainda assim, caso a marcha do resultado seguisse a um compasso que não lhe interessava, não tinha pejo algum em acabar a partida: simplesmente agarrava na bola e ia-se embora. Confesso que, terminado o Benfica-FC Porto do último domingo, foi de um cromo assim que me recordei quando vi – ou melhor: quando deixei de ver… – a lamentável atitude assumida por algum ou alguns responsáveis do clube de Lisboa, desligando as luzes do estádio quando os novos campeões festejavam o título e dando início ao sistema de rega.

Fiquei estupefacto, embora não tanto como os agentes policiais em serviço que podiam ter-se visto a braços com um berbicacho bem maior do que aqueles que tiveram de suportar antes do jogo começar. A última vez que vi fazer algo de semelhante foi em Camp Nou, quando a “armada invencível” de Guardiola tombou diante dos homens de betão comandados por José Mourinho. Não gostei do mau perder. Ainda menos posso apreciá-lo e, pior do que isso, tentar justificá-lo com atos do passado ou com delitos do presente: aquilo que salta aos olhos do país desportivo (pelo menos daquele que ainda não abdicou dos dois olhos e não adotou uma visão única dos acontecimentos) é um inqualificável ato de mau perder, só comparável a algumas arrogâncias dos que não sabem ganhar.

Pode pensar quem mandou pintar de negro o fim da noite na Luz que estava a prestar um serviço – de desforra – ao Benfica. Nada de mais errado: conseguiu que, além de o FC Porto ser um justo vencedor, do jogo e provavelmente do campeonato, os seus dirigentes ainda pudessem sair do estádio como vítimas. Permitir que Pinto da Costa exercite a sua ironia requentada (mas desta vez justificada) é perder a face não só no encontro e no campeonato, mas também naquilo que se considera ser uma cruzada, um dever em defesa da verdade no futebol. Quando se atira sobre o próprio pé, não se pode esperar que a dor apareça no pé do adversário. E a noite da Luz será lembrada não só como a do título em casa do rival mas também como aquela em que se apagou um bocado da “chama imensa”.

NOTA – Parabéns a André Villas-Boas. Só falta agora racionalizar o discurso. Parabéns a Nuno Gomes. Até na hora mais adversa, não deixou de pensar na equipa. Não é por gente como ele que a Luz (ou a luz?) se apaga.


In Record

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