fevereiro 15, 2011

Por força da lei _ Ricardo Costa


O grito de Moniz Pereira

1_ Ainda que com oscilações, o desporto português cresceu e ramificou-se no cerne da nossa sociedade à custa da disseminação e do labor dos três grandes clubes de massas. Muitas vezes vivendo em oligopólio; outras vezes mesmo em duopólio; até, numa ou noutra modalidade, durante mais ou menos anos, em monopólio de títulos. Houve modalidades em que, desaparecendo a tríade, outros clubes emergiram com força e se impuseram. Houve outras em que a manutenção da tríade tornou ainda mais valiosa a ascensão de “intrusos”. Quando (modestamente) nadava no Fluvial Portuense, percebia que o meu clube não poderia competir com as mesmas armas; teríamos medalhas, mas nunca tantas e tantas vezes como os “grandes” (na altura ao mesmo nível e apostando forte na modalidade). Mas eram eles que nós perseguíamos quando treinávamos. Eram eles que nos faziam crescer.

2_ Essa tríade sufocou demasiadas vezes a disseminação dos médios e dos pequenos. A história está aí para o provar. Mas sem os três grandes num patamar próximo, o nosso desporto fica mais pobre. Em todas as modalidades. Como se tem visto. É por isso preocupante a erosão do Sporting, talvez o clube que, desde a sua origem, mais significado deu ao sentido de ser um “clube” de “desporto”. O FC Porto correu o risco de se desintegrar no início da década de 80. O Benfica esteve perto da extinção com o “valeazevedismo”. E, em tempos distintos e com percursos diferentes nos últimos 30 anos, ficaram e lutam pelo domínio. Parece que, entretanto, o Sporting de inspiração “roquettiana” abdicou. Desapareceu de muitos pavilhões, deixou de ter quem o simbolizasse nas pistas, apostou tudo num “modelo” para o futebol, potenciador de tudo o resto. Hoje não sabe se o abismo é ali ou se a salvação é acolá: vive-se a fronteira. A tríade está ameaçada e, com isso, ameaçado está o vigor do nosso desporto.

3_ Prova? “Se aparecer uma pessoa que diz ‘eu só quero o futebol aqui’, eu peço a demissão de sócio”. “Se alguém conhece o Sporting, sou eu e pouca gente mais. Muitos que lá estão a trabalhar sabem muito de contas, de bancos, de contratos, mas de desporto não”. Quem o diz? Porventura algum candidato às próximas eleições pós-Bettencourt? Não. É o sócio n.º 2 do Sporting e tem 90 anos. Viveu 66 anos no Sporting e para o Sporting: “Dei sempre o exemplo e nunca pedi para fazerem nada que eu não fizesse primeiro”. Chama-se Moniz Pereira. E, para mim, que ouço sempre com multiplicada atenção as palavras de quem já viveu muitas vidas, este é o grito que faltava para se perceber que a angústia do Sporting pode ser o epitáfio de uma crise da “ideia” de desporto deste país.

PS – O Ministério Público instalou uma “tenda” na “praça” do futebol. Está a ver se espicaça os “mubarakes” que ali habitam. Da FPF dizem que por agora avançam os advogados. Não sei o que isso significa. Mas está bem. Enquanto isso lembrei-me do grande Nanni Moretti e de uma personagem por ele inventada para uma película anti-Berlusconi. Dizia, enquanto nadava, que, sempre que se atingia o fundo do buraco, havia sempre alguém que continuava a escavar e a escavar…

In Record

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