maio 15, 2011

Aqui á Gato _ Miguel Góis


Todos mamavam

Não sei bem porquê, mas, quando alguém refere o facto de Pinto da Costa ser o dirigente com mais títulos do Mundo, isso lembra-me sempre aqueles taxistas que não se cansam de nos lembrar de que no tempo de Salazar quase não havia criminalidade. Suponho que aquilo que me choca nos dois casos é a total descontextualização.

Contextualizemos então, pelo menos uma dessas situações: esta semana, veio a público uma gravação em que Jacinto Paixão, depois de uma longa carreira na arbitragem, dá a sua primeira contribuição para a verdade desportiva. Na sequência das suas declarações, o país ficou boquiaberto por ouvir falar de viagens pagas a árbitros através da Agência Cosmos, de favores sexuais em troca de resultados adulterados, e de jantares de António Garrido com elementos de equipas de arbitragem. Em rigor, a afirmação mais duvidosa do vídeo é a de que o processo Apito Dourado poderá vir a ser reapreciado pela justiça portuguesa. “E agora? Será que a justiça vai, finalmente, agir?” Esta é fácil. A resposta é, obviamente: sim, até porque o Pai Natal e o Coelhinho da Páscoa entretanto chegam a Portugal e envolvem-se pessoalmente na causa.

Mas o principal mérito da gravação é oferecer-nos a possibilidade de ver como aqueles que até hoje acusavam os outros de terem teorias da conspiração em relação aos campeonatos conquistados pelo FC Porto conseguem eles próprios tecer maquinações notáveis. Repare-se, dizem eles, que Jacinto Paixão diz “ex-árbitro” e, em 2004, ainda apitava. Note-se também que ele parece estar a ler. Assinale-se, já agora, que a gravação veio a público na semana em que a justiça deu mais uma vitória ao FC Porto. Fica-se a saber, pois, que é impossível dizer a verdade em 2011, enquanto se lê um texto previamente escrito, e sobretudo numa semana em que o FC Porto vence um processo em tribunal.


In Record

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