maio 03, 2011

Por força da lei _ Ricardo Costa


O "dirigente ideal"

 
Um destes dias lia José Poças Esteves, diretor da Sociedade de Avaliação e Risco (a empresa de “estratégia” fundada pelo saudoso Ernâni Lopes), e concordava. Dizia que o país necessita de novos líderes; é preciso uma nova elite de dirigentes, de tal modo que os melhores assumam esse papel. Para isso, acrescentava, “é preciso criar condições para que eles queiram ir para essa liderança”. Ademais, outra medida imprescindível para sair da crise: “A sociedade portuguesa tem de mudar os valores.” Será tempo de aspirar a esta metamorfose no desporto, em particular no futebol?

Sem dúvida. Há muitos anos que, especialmente nas salas de aulas e nas conferências do direito desportivo, a propósito das SADs ou das federações, venho expressando o fundamental: formar novos quadros e promover a entrada de recursos humanos qualificados é o grande desafio. A “opereta” dos estatutos da FPF é uma hipóstase desse atraso. Os “velhos” não se renovam. E os “novos” personagens que aparecem querem ser “velhos”. É toda uma casta que – com exceções, é certo – banalizou um certo “dirigente-tipo”, que, anos a fio, foi colocado no pedestal do “dirigente ideal”.

Este dirigente tem diversos graus e patamares, em razão do poder e da influência que tem e consegue perpetuar. Aspira a uma rede de domínio fático e ao pacto formal para a negar. Mimetiza-se em “testas-de-ferro” ou em seguidores leais. Não consegue vislumbrar no seu meio exceções: todos devem ser como ele ou eles, não é plausível que se encontrem outros modos de ser e outras conceções éticas. Na dificuldade, fecha-se e reconquista. Na vitória, é protuberante e incrementa a acrimónia contra o vencido. Na melhor oportunidade, aproveita para a traição e, com isso, reforça a sua coesão interna. Persegue os opositores – ou, em alternativa, atrai-os –, já que não suporta a pluralidade. Sente-se bem na guerra como na paz e, nesta, quase sempre, “berra”. É esperto e felino, logo, foi e é vencedor, cada um à sua escala e medida.

Foi esta a escola de “gestão desportiva” que se seguiu como modelo, remetendo para o “truque” e o “jeitinho”. O que favoreceu essa linhagem de dirigentes, que neutralizaram a “diferença”. A possível superação será feita na geração dos 35-45 anos, que hoje começa a chegar ao topo da administração dos clubes, das federações e das ligas. Será a estes a quem incumbe fazer um juízo sobre essa forma de “gestão desportiva” e lidar com os efeitos do respetivo programa de ação, que trouxe maniqueísmo, intolerância, sectarismo e violência. E provar que não há só um manual em que todos são iguais.

Será essa geração capaz de fazer ascender um outro “código” e dar o salto qualitativo que o desporto português merece? Haverá condições para atrair um (verdadeiramente) novo escol de quadros? Ou serão eles – os que existem por agora, ainda que com iPad na mala – apenas mais uma cópia resistente do “dirigente ideal”, que mitificaram quando, miúdos, colecionavam os cromos? Para já, os sinais são contraditórios. Mas veremos o que nos dará a próxima década, nas lideranças e nas práticas. No desporto como no país.

 In Record

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