janeiro 18, 2011

Bloco de notas _ Nuno Farinha


A equipa que não empata

O treinador do Benfica aproveitou o lançamento do jogo com a Académica para recordar aquilo que, na Luz, todos devem ter na ponta da língua: “Não temos margem mínima de erro”. A margem mínima, entenda-se, é um empate. A oito pontos do FC Porto no momento em que arranca a segunda volta do campeonato, é evidente que o campeão nacional não tem espaço para desperdiçar mais nada. Há 15 jogos para fazer e 45 pontos para conquistar. E mesmo assim, com um aproveitamento de 100%, será difícil chegar ao título.

Só que a tal “margem mínima de erro” devia ser já eliminada à partida, porque empatar, de facto, é coisa que não acontece a este Benfica 2010/11. Em 26 jogos (15 para o campeonato, 1 para a Supertaça, 6 para a Liga dos Campeões, 3 para a Taça de Portugal e 1 para a Taça da Liga), as águias seguem com 17 vitórias e 9 derrotas. Nem um único empate para amostra. Em Portugal é caso único, mesmo que decidamos incluir, para além da Liga principal, a Orangina e as três zonas da 2.ª Divisão. Ou seja, em 80 equipas, o Benfica é a única que nunca empatou. Uma verdadeira singularidade!

O“fenómeno” ganha ainda maior dimensão quando olhamos para os mais importantes campeonatos europeus: Espanha (20 equipas), Inglaterra (20), França (20), Itália (20) e Alemanha (18). Tudo somado, estamos a falar de outras 98 equipas (já vamos em 178) e apenas uma, o Mainz, está na situação do Benfica: sem empatar – e, curiosamente, também em 2.º lugar (derrota 0-1, ontem, no terreno do Estugarda).

Aúltima vez que os encarnados de JJ terminaram um jogo em situação de igualdade já foi há mais de 10 meses, a 11 de março – 1-1, na Luz, frente ao Marselha, para a Liga Europa. Olhando apenas para o campeonato, então aí aproxima-se o “1º aniversário sem empates”. Adversário: Vitória de Setúbal. Local: Bonfim. Resultado: 1-1. Data: 6 de fevereiro de 2010. Conclusão a tirar: Jesus é um treinador de risco, que prefere o estilo “tudo ou nada” e mostra pouca paciência para calculismos. Esta época, por exemplo, o Benfica perdeu dois jogos já muito perto do minuto 90 (Académica e Guimarães) porque a equipa estava desesperadamente no ataque à procura da vitória. Era naturalmente isso que lhe competia, o perigo era fazê-lo quando a equipa ainda apresentava deficitário equilíbrio em todo o seu processo defensivo.

Em Telaviv, para a Liga dos Campeões, os encarnados viveram outra noite de pesadelo, mas também aí estiveram sempre acampados na grande área dos israelitas. É verdade que só a vitória ainda permitia alimentar o sonho de continuar na Champions, mas não é menos verdade que um empate garantia de imediato a Liga Europa. Com essa derrota por números pesados (0-3), foi preciso sofrer até ao último minuto da última jornada. E, ainda assim, esperar pelo milagre que chegou de Lyon. Porque na Luz, uma vez mais, o Benfica foi guloso e teve pouca paciência numa noite em que, frente ao Schalke, lhe bastava… empatar.

De Coimbra (hoje) até ao final da época (maio) veremos como o campeão nacional suporta a pressão do “ganhar ou ganhar”. É que não há mesmo outra escolha.

In Record

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