janeiro 21, 2011

Tempo Útil _ João Gobern


A morte de um César


Teria sido preciso um milagre para que, diante da “morte” de um César dos tempos modernos, se erguesse entre a multidão um qualquer Marco António que, através da linear e factual oratória, provasse à cidade em fúria que se perdia um grande homem e se cometia uma injustiça.

Três razões, à falta de mais: primeira, este César só tinha os cabelos brancos por ação prematura da Natureza, não porque eles se colorissem com a experiência e com o saber, e acumulara desencontros com a razão e com o povo – sempre que quis encostar-se aos populistas, errou, e, em quase todas as ocasiões em que acertou, foi perigosamente impopular.

Segunda, a que dá conta da certeza de que, por estes dias, é quase impossível ver despontar um Marco António que troque o pragmatismo pelos valores, que desvalorize a sua “poupança-reforma” em nome da verdade que não se apoia no uivo das massas, mais fugidias do que uma enguia, sempre incertas e dependentes da direção do vento…

Terceira, Shakespeare é, para muitos, um chato, como acontece com o Cinema representado por Mankiewicz, Brando, Louis Calhern, James Mason, John Gielgud ou Debrah Kerr. Ainda se a morte de Júlio César fosse um filme de ação… Mas nada – é uma fita palavrosa, longa de duas horas, a preto e branco... daquelas que não temos tempo para seguir, nos dias de hoje.

Mas devíamos: ajuda-nos a perceber como é possível alguém, dotado de energia e conhecimento, acolhido nos braços do poder (e o caso que nos interessa aponta para uma euforia de 90 por cento de apoios expressos), temporariamente abençoado pela ilusão de um renascimento, protegido à partida por aquilo a que já se chamou uma “linhagem de sucessão” e que ainda se traduz numa atitude de elite aparentemente empenhada na autopreservação, alguém (dizia-se) acabar a desperdiçar em 18 meses um capital que deveria governar a casa durante quatro anos.

Foi perentório quando devia ter sido discreto; foi brando quanto se impunha o corte radical; foi conciliatório com quem haveria de ajudar à traição; foi incapaz de analisar o sentido e a dimensão da maré das multidões; foi de bravata em tempos que recomendavam ao silêncio; foi cobarde no capítulo final, quando se lhe exigia outra coragem.

É uma “morte” inglória, de um César que o povo vai querer esquecer rapidamente. E não procurem a solução num qualquer remake de Um Crime No Expresso do Oriente, com alianças secretas até chegar ao assassínio. Sem sair do universo de Agatha Christie, este desfecho aproxima-se muito mais do modus operandi de O Assassinato de Roger Ackroyd – o protagonista é, afinal, o homicida e o suicida. Ora a matar alguma coisa, ajudou a matar o Sporting. Ou, ao menos, a deixá-lo nos cuidados intensivos.

In  Record

1 comentário:

lawrence disse...

Porra, ó Gobern!
Eu aqui a salivar para dizer no fim da prosa: Cepórtem! e tu atiras com o nome mesmo antes de acabar!
Assim não vale!
Qual Agatha Christie, qual canelo!