setembro 05, 2011

Por força da lei _ Ricardo Costa


Liga TV

Neste verão, a Liga de Futebol Profissional confrontou-se com a sustentação da indústria. Concluiu-se que os clubes alavancaram a sua evolução num sobreendividamento excessivo, que os coloca numa “encruzilhada”. Nada mais nada menos que a encruzilhada do financiamento do investimento – isto é, onde arranjar dinheiro para continuar. Sabemos que, para o efeito, o formato mais conseguido nos últimos anos assentou, para além das típicas receitas de bilheteira e de publicidade, na valorização de ativos (leia-se, jogadores) – entretanto auxiliada com a criação de “fundos de investimento” – e na venda dos direitos televisivos pertencentes a cada um dos clubes. E no “euromilhões” da Champions League, para quem lá andou.

Quanto aos direitos televisivos, responsáveis pela geração de 50 milhões de euros por ano, falta dar o grande salto que a Europa tem dado com sucesso – a venda centralizada dos direitos televisivos pela Liga. Esse é o grande desafio que, entre outros, um estudo da Católica para a Liga veio enfatizar: (1) “No modelo atual, cada um dos clubes pode negociar livremente os seus contratos de cedência de direitos televisivos. Noutras ligas, a entidade encarregue de organizar as competições profissionais centraliza esta função, no pressuposto de que um modelo desta natureza lhe permite maximizar as receitas, como um todo”; (2) “A maximização do valor da indústria, protegendo os interesses dos associados [da Liga], pode ser alcançada através de mecanismos coletivos de negociação e organização das competições”: entre eles está a “centralização dos direitos de transmissão televisiva”.

O mais cativante desta fórmula é encontrar os critérios de distribuição do dinheiro, como expediente poderoso de solidariedade entre grandes e pequenos – e, portanto, de competitividade. Olhando lá para fora, o princípio básico é dar muitíssimo mais aos “pobres” e uma boa fatia aos “ricos” (para que estes também queiram participar do “bolo” coletivo), seja no pacote de consumo interno, seja no pacote de direitos vendidos em países estrangeiros (vejam o nosso mercado potencial em África e nos países da emigração). Assim, por ex., repartir-se-ia metade do total em partes iguais por todos os clubes de cada uma das divisões. Todos! Depois, 25% tendo em conta os resultados desportivos, em termos históricos e de acordo com as classificações dos últimos anos. Em terceiro lugar, 25% em razão das audiências, ponderando o número de adeptos e de habitantes da cidade do clube. Por fim, vender-se-ia em leilão ao operador que desse mais. Basta ver a última época em França (mais de 500 milhões distribuídos) para compreender que os grandes saem a ganhar e os pequenos amealham valores impensáveis – o Marselha ficou com 50 milhões e o último, Arles-Avignon (quem?), com… quase 14 milhões!

Compete agora aos clubes – os “donos” da Liga – avançar. Começando por verificar a duração dos contratos em vigor e daí partir para os “tempos” da medida. Que até poderá não arrancar com todos ao início, mas sempre poderá arrancar sabendo que um dia todos alinharão na inexorável reforma… “de veludo”.

 In Record

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